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Petróleo da Rússia chega a Cuba, mas crise energética segue longe do fim

Analistas avaliam que o volume enviado pela Rússia é insuficiente para reverter apagões na ilha

Internacional|Gonzalo Zegarra, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Chegada de 100 mil toneladas de petróleo da Rússia em Cuba é insuficiente para solucionar a crise energética.
  • O petróleo precisa ser refinado em uma antiga refinaria, levando até 20 dias para ser processado.
  • Cuba enfrenta apagões diários e necessita de cerca de 100 mil barris por dia para atender suas demandas.
  • A prioridade do uso do diesel será para hospitais e transporte essencial, mas a situação energética pode permanecer crítica rapidamente após o fornecimento.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Navio-tanque russo
Cuba segue dependente de importações e com refinarias obsoletas Reprodução/Reuters - 30.03.2026

A grave crise energética enfrentada por Cuba, agravada nos últimos três meses pelas políticas do governo dos Estados Unidos, terá um alívio com as 100 mil toneladas (cerca de 730 mil barris) de petróleo que chegaram nesta semana vindas da Rússia. Trata-se, porém, de um paliativo breve, cujo efeito só deverá ser sentido em quase um mês.

“Basicamente, isso representa muito pouco. Há pessoas que dão muita importância, mas tem uma vida econômica e humanitária muito limitada”, afirmou à CNN o pesquisador cubano-americano Jorge Piñón, diretor para a América Latina do Programa de Energia da Universidade do Texas.


Segundo o especialista, o que Cuba mais precisa não é de petróleo bruto, mas de diesel. Por isso, a carga que chegou a Matanzas precisa ser transferida em pequenos navios-tanque para uma refinaria em Havana, onde será processada — um deslocamento que leva de cinco a sete dias. “É uma antiga refinaria da Exxon, construída nos anos 1950, e é ineficiente. Isso vai levar 20 dias”, estimou.

Por sua vez, o pesquisador mexicano Ramsés Pech, analista do setor energético, destacou que o petróleo precisa passar por uma avaliação antes de ser processado. “É necessário um reacondicionamento. Não é ‘chegar e colocar’. É preciso fazer uma análise de laboratório, verificar a qualidade e comprovar que não há água”, explicou em entrevista à CNN.


Depois de refinado, o combustível será distribuído conforme a ordem de prioridades estabelecida pelo governo.

Cuba, que conta com escassas reservas próprias e enfrenta apagões diários há vários meses, necessita de cerca de 100 mil barris por dia. Desse total, apenas cerca de 40% são cobertos pela produção nacional, e outra pequena parte do fornecimento energético vem de painéis solares. As 100 mil toneladas transportadas pelo navio Anatoli Kolodkin equivalem a aproximadamente 740 mil barris.


“Todo esse diesel vai durar entre 10 e 15 dias e pronto, acabou”, avaliou Piñón.

Já Pech afirmou que o diesel refinado poderia durar “entre 15 e 30 dias”, e que Cuba “depois voltaria à mesma situação”: uma escassez energética que mantém a economia paralisada.


O governo do presidente Miguel Díaz-Canel não se pronunciou sobre os planos para o petróleo russo nem sobre um eventual racionamento para tentar prolongar seu uso por mais semanas.

Entre os setores mais urgentes estão os hospitais, que dependem de geradores elétricos movidos a diesel para funcionar. O país também precisa de combustível para o transporte ligado à logística mais essencial, enquanto indústrias e residências podem acabar ficando em segundo plano.

“Minha prioridade seriam os hospitais. O transporte seletivo também é urgente”, disse Piñón. “No porto de Mariel, temos milhares de toneladas de remessas de cubano-americanos. Em Santiago de Cuba, a Igreja Católica possui centenas de toneladas de ajuda humanitária que precisam ser distribuídas fora da cidade e não foi possível fazer isso”, relatou.

O analista também mencionou a possibilidade de o regime castrista — surpreendido pela captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e pela consequente interrupção dos envios vindos de Caracas — manter uma reserva estratégica em meio à tensão com os Estados Unidos. “Não devemos ser ingênuos. Eles precisam de reservas em caso de um conflito”, afirmou.

“Não nos incomoda que alguém receba uma carga de petróleo, porque eles precisam sobreviver”, disse a jornalistas no domingo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que no fim de janeiro havia ameaçado impor tarifas a quem fornecesse combustível a Cuba. “Se um país quiser enviar petróleo a Cuba neste momento, não tenho problema. Prefiro deixar passar, seja a Rússia ou outro país, porque as pessoas precisam de aquecimento, refrigeração e de todas as outras coisas necessárias”, acrescentou.

Para Piñón, além da Rússia, o México é o único país que poderia aproveitar essa janela para ajudar Cuba. “Politicamente, estaria disposto a fazer isso”, afirmou.

De fato, a presidente Claudia Sheinbaum declarou nesta segunda-feira que seu governo trabalha com autoridades da ilha para reativar o fornecimento. O último envio de diesel ocorreu em janeiro, dias antes da advertência comercial de Trump.

“O que sempre dissemos é que o México tem todo o direito de enviar combustível, seja por razões humanitárias ou comerciais, mas não queremos prejudicar o México”, disse a mandatária.

Nesse sentido, Piñón afirmou que o governo mexicano toma precauções para evitar tensionar a relação com Washington. “O problema é que, em junho, começam as negociações do tratado de livre comércio. O México não quer chegar a essa mesa com a dor de cabeça de Trump estar irritado, embora ele tenha dito que isso poderia ser feito. A política muda de opinião muito rápido. A prioridade é se concentrar na negociação”, explicou.

Por sua vez, Pech considera pouco provável que o México envie petróleo, em um momento de preços elevados do barril e de compromissos já assumidos. “Neste momento, a Pemex não vai sair distribuindo combustível; isso descompensaria suas exportações”, afirmou. No entanto, ele vê como viável o envio de diesel, um produto muito mais útil para Cuba, justamente por dispensar o processo de refino.

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