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Venezuelanos ajudam a família enviando comida do exterior

País passa por forte crise econômica e sofre com a escassez de alimentos 

Internacional|Marta Santos, do R7

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Venezuelanos enviam produtos e alimentos básicos para ajudar a família
Venezuelanos enviam produtos e alimentos básicos para ajudar a família

Com o agravamento da crise econômica da Venezuela e escassez de produtos que assola o país, muitos venezuelanos que vivem no exterior estão enviando alimentos e itens de higiene para ajudar parentes e amigos.

Essa tem se tornado uma forma de driblar as dificuldades de compra no país, conta o venezuelano Irving Vierma, que deixou a Venezuela em 2012 e mora com a mulher e dois filhos em Orlando. Em 2013, ele começou a trabalhar com entregas de produtos comprados nos EUA em todo o território venezuelano.


— No começo da [empresa] Mandao Venezolano costumávamos enviar roupas, sapatos, telefones celulares e outras coisas. No entanto, no final de 2015, as pessoas começaram a enviar comida.

Para o professor Carlos Peña, diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais da Universidade Central da Venezuela, em Caracas, a necessidade desse tipo de serviço reflete bem a situação do país.


— Para a população, isso é um calvário. Existem filas até para comprar pão. O desespero e a falta de esperança se apoderam cada dia mais dos venezuelanos. As crianças não assistem aulas porque não têm o que comer e/ou desmaiam. Realmente, há uma crise humanitária e somos todos afetados. Claro, as famílias que recebem um salário mínimo são mais vulneráveis.

Assim, Vierma criou uma loja online, com os produtos variados. Os mais vendidos têm arroz, açúcar, café, macarrão, sardinha, desodorante, papel higiênico e shampoos.


— Em 2016, enviamos cerca de 9.000 kg de entregas. Temos uma média mensal de 15 encomendas e clientes regulares que enviam um ou dois combos por mês. Temos clientes na Austrália, Alemanha, França, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, Noruega, Marrocos e EUA. Tudo é embarcado em Miami.

Um combo com 57 produtos, por exemplo, sai por cerca de R$ 900 (US$ 265). Apesar do preço salgado, Milagros Suarez, uma jovem de 28 anos que atualmente vive nos EUA, diz que o investimento vale a pena.


— Essa é a única forma de fazer com que minha família receba a comida necessária para sobreviver. Eles não desperdiçam nada, não importa o que eu envie, tudo é útil. É claro que eu acabo gastando muito, mas isso não importa se for para ajudar minha família.

Os produtos norte-americanos enviados à Venezuela têm, necessariamente, de ser comprados por alguém que esteja fora do país governado por Nicolás Maduro, devido ao embargo econômico imposto pelos EUA.

Crise na Venezuela

A inflação na Venezuela deve chegar a 650% neste ano e tende a disparar para 2.350% em 2018, de acordo com projeções divulgadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgadas no início de outubro. Nesse cenário, a Venezuela chegaria bem perto do auge da hiperinflação brasileira, registrado em 1993, que alcançou 2.500%. O FMI também prevê uma queda de mais de 10% no PIB (Produto Interno Bruto) do país.

Thomas Enrique Jimenez, um empresário do ramo de construção, que deixou a Venezuela há um ano e está vivendo em Boa Vista, Roraima, conta como a inflação o prejudicava no dia-a-dia.

— Não era fácil encontrar produtos básicos e os poucos que se achava, estavam com preços que nunca poderíamos pagar para manter uma família. Por exemplo, o salário mínimo era de 15.051 bolívares por mês. Para comprar um frango pequeno era preciso entre 5.500 e 6.500 bolívares. Um quilo de arroz custava 2.500 bolívares, um quilo de leite 10 mil, um quilo de carne 5.500, um quilo de café 4.000. Era impossível viver assim.

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A crise econômica na Venezuela começou décadas atrás, mas tem se agravado muito nos últimos anos. O controle estatal da produção e distribuição de produtos básicos, junto com a queda do preço do petróleo e a desvalorização da moeda local (que fez com que a Venezuela perdesse poder de compra para importação), levaram o país a uma profunda escassez de produtos.

O governo tentou amenizar a situação aumentando os salários da população e imprimindo mais notas de bolívares, a moeda nacional, mas acabou aumentando ainda mais a inflação. Assim, o país começou a ter dinheiro demais para produtos de menos, deixando mais caros até mesmo os itens mais básicos, explica Peña.

— Você se sente a inflação dia-a-dia nas ruas. Existe uma grande escassez de produtos e nunca se sabe quanto os preços subiram. O governo se empenha em manter políticas fracassadas que deterioram os salários, provocam inflação, geram desabastecimento, paralisam o aparato produtivo e destroem a economia. É cruel que existam possibilidades de resolver a crise, mas não se faça nada a respeito.

Na prática, entre os principais problemas enfrentados pela população, estão a baixa oferta de alimentos, produtos de higiene e medicamentos, além dos frequentes cortes de eletricidade e água. A escassez de produtos de primeira necessidade já acontece há quase três anos, mas se intensificou em 2016.

— A Venezuela passa por sua pior crise desde 1958, quando acabou a ditadura. Atualmente, a Venezuela passar por uma mega crise econômica, social, política e institucional, mas a econômica é mais grave. Há um enfrentamento de poderes entre governo, Assembleia Nacional e Tribunal Supremo de Justiça. Eles querem diálogo, mas nenhum setor quer ceder. Na parte econômica, não há respostas claras e nem soluções. Só improvisos. O ponto é que o modelo econômico desse governo é inviável.

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