Vitória do "não" amplia divisão entre União Europeia e Grécia
Funcionamento do sistema bancário e permanência do país na União Europeia são dúvidas
Internacional|Do R7

A vitória do "não" no referendo na Grécia aumentou a divisão entre União Europeia e as autoridades do país, que terão agora que recuperar a confiança de seus parceiros após terem conseguido o arrasador apoio da população na rejeição à proposta dos credores internacionais para o pagamento da dívida grega.
O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, e os demais líderes da zona do euro vão se reunir na terça-feira (7), em uma cúpula extraordinária que começará às 16h GMT (13h de Brasília). Em mensagem transmitida pela televisão após a confirmação de sua vitória, Tsipras reafirmou sua vontade de reiniciar amanhã mesmo a negociação da dívida.
"Nossa prioridade é o funcionamento do sistema bancário", disse, além de ressaltar que, desta vez, entrará nas conversas com os credores a reestruturação da dívida, considerada pelo governo grego como impagável. Mas é mais que incerto que o resultado do referendo deixe Atenas em uma melhor posição na negociação. Por enquanto, as reações dos líderes europeus não indicam um reencontro feliz.
"Tsipras ganhou o referendo em casa, mas perdeu sua credibilidade no resto da Europa", declarou o líder dos liberais europeus, o ex-primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt. No começo do ano, a negativa do novo governo esquerdista a cumprir os compromissos contraídos por seus antecessores foi interpretada em Bruxelas como uma violação das regras. Seis meses depois, a convocação do referendo contra as propostas das instituições credoras não fez nada além de piorar a atmosfera.
“Não” ganha referendo na Grécia e rejeita proposta de credores
Os países que aplicaram as receitas de austeridade ligadas a resgates, como Irlanda e Portugal, ou os que têm sérias dificuldades para aprovar mais empréstimos por seus Parlamentos, como Alemanha, Holanda e Finlândia, dificilmente vão fazer concessões a Tsipras. Apesar de tudo, a chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente francês, François Hollande, e a maioria dos líderes europeus deixaram claro que não se negariam a retomar as negociações após o referendo, pensando que, no fim das contas, o futuro do euro está em jogo.
A resposta europeia a Atenas será articulada a partir de várias reuniões de mais alto nível político, como a que amanhã Hollande e Merkel terão em Paris. Até o momento, as reações mais duras vieram dos países do norte da Europa, como ocorreu com a primeira-ministra da Polônia, Ewa Kopacz, que após ver o avanço do "não", afirmou que "a única opção que resta à Grécia é a saída da zona do euro".
O premiê estoniano, Taavi Roivas, disse no Twitter que, com esses resultados, "(o cenário) não se apresenta bom para os gregos", e a primeira-ministra letã, Laimdota Straujuma, disse na mesma rede social que "o 'não' da Grécia torna extremamente difícil qualquer conversa".
"Resultado na Grécia é 1º passo para saída da zona do euro", diz vice ministro da economia russa
"Essa clara maioria na Grécia não ajuda para o que os demais países ofereceram. É sua escolha, mas é trágico", declarou também no Twitter o ministro das Relações Exteriores sueco, Carl Bildt. Na Alemanha, o vice-chanceler, o social-democrata, Sigmar Gabriel, afirmou que a Grécia "quebrou as últimas pontes" que podiam levar a um compromisso com a União Europeia.
Com uma situação que se deteriora dia a dia após uma semana de fechamento dos bancos, o setor financeiro grego está também à espera da reunião, provavelmente nesta segunda-feira (6), do Conselho do Banco Central Europeu (BCE), que terá que decidir se elevará ou não os fundos de emergência em favor da Grécia. No último dia 1º, a Grécia entrou em situação de moratória com o Fundo Monetário Internacional (FMI) por falta de pagamento de 1,6 bilhão de euros, e no próximo dia 20 tem que quitar 3,5 bilhões com o BCE.
Este pode ser o prazo final para uma saída forçada da Grécia do euro. Se Atenas não pagar ao BCE até essa data, seu descumprimento ajudará para o fim da liquidez que, com caráter excepcional, lhe é concedida pela instituição monetária, e a Grécia se veria obrigada a introduzir sua própria moeda.
Por sua vez, o presidente do parlamento Europeu (PE), Martin Schulz, considerou que hoje é um dia difícil para a Grécia, e que Atenas deve apresentar propostas que convençam os demais países da zona do euro e as instituições europeias a voltar a negociar. No Parlamento Europeu, o líder social-democrata, Gianni Pittella, defendeu a reabertura das negociações com a Grécia, com uma "nova atitude de solidariedade e cooperação", e pediu ao governo grego que dê mostras de "responsabilidade".
Já o impacto que o referendo grego pode ter nas bolsas de valores, nas taxas de risco e a recuperação econômica do país divide os analistas de mercado, que não descartam que o "não" seja o prelúdio de um apocalipse na zona do euro. As perguntas são até simples, mas difíceis de serem respondidas: aumentará a desconfiança dos investidores sobre a Europa? Subirão as taxas de risco? As bolsas afundarão, com a diminuição dos investimentos devido ao medo do perigo de "contágio"? O crescimento econômico será freado e o desemprego crescerá?
Ministro das Finanças anuncia renúncia após referendo que rejeitou acordo com credores
Poucos se atrevem a fazer um diagnóstico definitivo, mas os analistas concordam que haverá, sim, uma ligeira alta nas taxas de risco e moderadas quedas na bolsa, assim como um prolongado período de volatilidade nos preços dos ativos e de muita incerteza. Mas isso não é necessariamente ruim, nem o prelúdio de um período de vacas magras, como avalia o megainvestidor americano George Soros: o dinheiro é feito para descartar o óbvio e apostar no inesperado.
Além disso, o peso da economia grega na Europa é muito pequeno – menos de 2%. Por isso, o prejuízo seria mais em termos de reputação do que um risco para quebrar um projeto – a União Europeia (UE) – que até então parecia blindado. Os investidores consideram o caso da Grécia único ou um sintoma de um fracasso que afeta toda a zona do euro?
Carlos Fernández, analista da consultoria XTB, acredita que se a Grécia deixar a moeda única ocorrerá um aumento das taxas de risco, como consequência da maior incerteza dos investidores e do medo pelo possível "contágio" aos países do sul do continente. A alta, no entanto, seria passageira devido ao respaldo do Banco Central Europeu (BCE).
Nas bolsas, o normal é que quedas sejam registradas após o "não", mas os analistas acreditam que elas serão moderadas já que os investidores reagiram dessa forma após a convocação do referendo. A volatilidade aumentará até que fique claro o que irá ocorrer com a dívida grega e as condições sobre esse processo.
O "sim" era preferido pela maioria dos especialistas, porque teria sido o sinal de que as negociações seriam retomadas nos termos gerais planejados pelo Fundo Monetário Internacional, o BCE e a UE, indica o banco de investimento japonês Nomura. No que diz respeito à permanência da Grécia na zona do euro, o Bank of America Merrill Lynch (BOAF) afirma que esse seria o caminho mais provável em caso de vitória do "sim".
De qualquer forma, recuperar a estabilidade econômica do país seria um "desafio muito complicado". Mais difícil será evitar o "Grexit" com o triunfo do "não", embora a instituição financeira americana reconheça que a situação não é tão ruim como em 2011, no tocante aos efeitos sobre a economia do conjunto do euro. Em nível mundial, destaca o BOAF, se Wall Street espirrar o mundo inteiro se resfria.
No caso da Europa, os investidores se limitam a desejar "saúde". Mais cautelosos e de olho já no terceiro trimestre do ano estão os analistas da Saxo Bank, que acham que a estabilidade econômica dos países da periferia europeia – Itália, Espanha, Portugal e, inclusive, a França – "está por um fio" e projetam um cenário de enorme incerteza.
Conheça o R7 Play e assista a todos os programas da Record na íntegra!











