Passageiros são as principais vítimas em acidentes com motos por aplicativo registrados em 2026
Casos registrados em Belo Horizonte mostram um padrão: em diversas ocorrências, quem sofreu as consequências mais graves foi o ocupante da garupa
Minas Gerais|Cler Santos, do R7
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A cuidadora de idosos Cláudia Souza Dias, de 58 anos, saiu de casa, no bairro Tupi, na região Norte de Belo Horizonte, no início da manhã de quinta-feira (16), como fazia todos os dias. Conhecida entre familiares e amigos pela alegria, pela paixão pelo rock e pela dedicação ao trabalho, ela seguia para um lar de idosos, na Pampulha, onde trabalhava. O trajeto, no entanto, terminou em tragédia.
Cláudia estava na garupa de uma motocicleta por aplicativo quando o condutor realizou uma ultrapassagem pelo canteiro central da avenida Doutor Cristiano Guimarães, no bairro Planalto. Ela se desequilibrou, caiu na pista e foi atropelada por um ônibus que trafegava ao lado. O motociclista perdeu o controle da direção, mas não sofreu ferimentos.
Nesta sexta-feira (17), familiares e amigos se reuniram em um cemitério da região Norte da capital para se despedir da cuidadora. Emocionada, a irmã da vítima, Vilane Souza Dias, afirmou que a família já alertava Cláudia sobre os riscos de utilizar motocicletas por aplicativo.
“A gente falava para ela não usar. Ela respondia que, se tivesse que acontecer alguma coisa, aconteceria. Mas eu acho que esses motociclistas esquecem que estão levando uma vida ali atrás. Não é uma caixa de entrega. É uma pessoa”, desabafou.
Segundo o boletim de ocorrência, após o acidente, o motociclista foi levado ao 13º Batalhão da Polícia Militar para prestar esclarecimentos. A Polícia Civil informou que ninguém foi conduzido à delegacia e que o caso será investigado pela Divisão Especializada em Investigação de Crimes de Trânsito.
A morte de Cláudia, no entanto, não foi um caso isolado. Ao longo de 2026, o R7 Minas acompanhou uma sequência de acidentes envolvendo motocicletas por aplicativo em Belo Horizonte e na Região Metropolitana. Em comum, muitas dessas ocorrências tiveram como vítimas fatais ou gravemente feridas justamente os passageiros que ocupavam a garupa das motocicletas.
Em outra ocorrência, uma passageira morreu após a motocicleta colidir contra um ônibus também na capital. Houve ainda casos em que o passageiro sobreviveu, mas sofreu ferimentos e precisou de atendimento médico. O cenário reforça a vulnerabilidade de quem ocupa a garupa das motocicletas.
Para o professor do CEFET-MG e especialista em segurança no trânsito, Agmar Bento Teodoro, o crescimento da utilização das motocicletas como ferramenta de trabalho e de transporte de passageiros faz com que também aumente a probabilidade de acidentes.
“O aumento do número de viagens naturalmente eleva a possibilidade de ocorrência de acidentes. É uma relação esperada na engenharia de tráfego”, explica o especialista. Segundo ele, outro fator que pode contribuir para esse cenário é a própria dinâmica dos aplicativos, que frequentemente sugerem rotas alternativas para reduzir o tempo das viagens. Muitas vezes, o motociclista passa por ruas que não conhece bem, o que aumenta o risco de acidentes.
Além dos desafios enfrentados pelos condutores, Agmar chama atenção para um aspecto pouco discutido: o comportamento do passageiro. Segundo ele, muitas pessoas sobem pela primeira vez em uma motocicleta justamente ao utilizar um serviço por aplicativo e não recebem qualquer orientação sobre como agir durante o percurso.
“O passageiro precisa acompanhar os movimentos do motociclista. Quando a moto faz uma curva para um lado e a pessoa desloca o corpo para o lado oposto, cria-se um contrapeso que pode favorecer derrapagens e aumentar o risco de queda”, afirma. Para o especialista, é responsabilidade do motociclista orientar o passageiro antes do início da corrida sobre a forma correta de se posicionar na motocicleta.
Os cuidados também envolvem os equipamentos de segurança. O especialista recomenda que o capacete esteja corretamente afivelado, com a viseira abaixada, para evitar que se solte em caso de acidente. Também orienta que os passageiros utilizem calçados fechados e roupas que cubram as pernas, reduzindo a gravidade das lesões em uma eventual queda. Outra recomendação é que o usuário não tenha receio de pedir ao motociclista que reduza a velocidade ou conduza a moto de maneira mais cautelosa caso se sinta inseguro durante o trajeto.
O transporte de passageiros por motocicletas por aplicativo foi regulamentado em Belo Horizonte em março deste ano. A legislação estabelece uma série de exigências para aumentar a segurança das viagens, como idade mínima de 21 anos para os condutores, carteira de habilitação na categoria A há pelo menos dois anos, certidão negativa de antecedentes criminais, inscrição no INSS, curso especializado de pilotagem e uso de equipamentos de proteção, como capacete e colete refletivo. As plataformas também devem monitorar as viagens em tempo real e oferecer treinamento aos motociclistas.
Estudo mostra dificuldades do transporte coletivo
O avanço das motos por aplicativo também está diretamente ligado às dificuldades enfrentadas pelo transporte coletivo. Um relatório divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) mostra que mais de 40% dos municípios mineiros obrigados por lei ainda não elaboraram o Plano de Mobilidade Urbana. Além disso, 72% dos municípios informaram não possuir transporte público coletivo. O levantamento aponta que a falta de planejamento compromete a organização das políticas públicas voltadas à mobilidade, à segurança viária e à acessibilidade, dificultando inclusive o acesso a recursos federais destinados ao setor.
Na avaliação de Agmar Bento Teodoro, a deficiência do transporte coletivo faz com que muitas pessoas procurem alternativas mais rápidas e econômicas para se deslocar diariamente.
“Quando o transporte público é pouco confiável, desconfortável ou demorado, as pessoas acabam optando pela moto por aplicativo, que muitas vezes oferece um trajeto mais rápido e até mais barato”, afirma. Para ele, melhorar o sistema de transporte coletivo também é uma estratégia importante para reduzir a exposição da população aos riscos do trânsito.
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