Quase 30% dos estudantes mineiros relatam bullying; adolescente denuncia agressões em escola de Contagem
Adolescente está em recuperação após família denunciar sequência de agressões em escola particular
Minas Gerais|Do R7
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Quase três em cada dez estudantes mineiros entre 13 e 17 anos relatam já ter sofrido bullying na escola. O índice chegou a 28,3% em 2024, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, do IBGE. Em 2019, eram 22,1%. Por trás dos números estão casos que podem deixar consequências físicas e emocionais graves.
Em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a família de um adolescente de 15 anos denuncia episódios recorrentes de bullying e agressões envolvendo quatro colegas de uma escola particular. O jovem está afastado das aulas presenciais, faz fisioterapia e, segundo a mãe, foi diagnosticado com síndrome do pânico e ansiedade.
O jovem de 15 anos é aluno do primeiro ano do ensino médio. Segundo a mãe, a administradora Cristiane Viana, os problemas começaram há meses.
A primeira agressão denunciada pela família aconteceu no dia 25 de maio. Cristiane afirma que uma brincadeira entre os adolescentes terminou em violência. O filho teria sido inicialmente chutado por um colega e, depois, cercado por quatro estudantes.
“Quando o colega voltou, ele voltou com mais três, encurralaram ele no carro e começaram a dar chutes e socos no meu filho. Baixaram as calças do meu filho perante a escola toda, enforcaram o meu filho, pegaram no pescoço dele e chutaram muito o joelho dele”, relata Cristiane.
O adolescente sofreu uma fratura no joelho e escoriações pelo corpo e ficou afastado por 45 dias. O período de recuperação terminou próximo às férias escolares de julho. De acordo com a família, o aluno retornou à escola no dia 3 de agosto e voltou a sofrer bullying. Uma semana depois, em 10 de agosto, teria ocorrido uma nova agressão.
Segundo o boletim de ocorrência, durante uma partida de futebol no horário do recreio, o jovem comemorava um gol quando outro estudante teria dado dois chutes contra ele. Após o episódio, segundo a família, foi constatada a formação de um coágulo no mesmo joelho anteriormente lesionado, e o adolescente precisou ficar novamente afastado.
A fisioterapeuta Laura Alves Ferreira Silva acompanha a recuperação. As sessões são realizadas em casa e incluem exercícios de mobilidade, alongamento e fortalecimento. A lesão comprometeu a rotina esportiva do jovem e a recuperação pode ser demorada.
“O fato de ele ter que ficar afastado neste tempo pode ter comprometido muito, principalmente em relação à oportunidade. Porque agora, na fisioterapia, a gente faz um trabalho de formiguinha. Então, para ele chegar no patamar que ele estava jogando antes da lesão, a gente vai demorar um tempo.”
O impacto é ainda maior porque o garoto tem no futebol uma das principais atividades da rotina. Segundo a mãe, ele pratica o esporte desde os seis anos e já passou por escolinhas do Atlético, União e Coimbra. Durante o período de recuperação, recebeu uma homenagem de integrantes do Coimbra Esporte Clube, com mensagens de incentivo para que consiga retornar aos campos.
Mas as consequências relatadas pela família não são apenas físicas. Cristiane afirma que, quando chegou o momento de retornar novamente à escola, o filho ficou muito nervoso e passou mal. Após procurar atendimento médico, segundo ela, o filho foi diagnosticado com síndrome do pânico e ansiedade.
“O lado emocional afetou muito porque ele não conseguiu mais ir para o colégio. Então ele está tendo as aulas aqui de casa, está fazendo as atividades todas aqui de casa”, conta.
Cristiane afirma que o adolescente não dorme bem, apresenta crises de ansiedade e perdeu peso. A mãe relata ainda que a simples tentativa de voltar à escola provoca reações no filho. “Quando ele fala que vai para a escola, eu falo: ‘Vamos tentar’. Aí coloca o uniforme, ele coloca o uniforme, ele mancha todo de vermelho.”
Atualmente, o menino recebe os conteúdos escolares de forma on-line e estuda em casa. Cristiane afirma ainda que três funcionárias da instituição teriam sugerido que ela transferisse o adolescente para outra escola. Segundo a mãe, uma delas teria dito: “Eu, como mãe, mudaria ele de escola.”
Para Cristiane, uma eventual mudança significaria transferir para a vítima as consequências da situação. “Meu filho é um bom menino. Meu filho é um atleta. Meu filho é um ótimo aluno. Não perde média. Não arruma briga. Então quem tinha que estar dentro de casa, sendo educado, são eles”.
O caso chama atenção para uma realidade que atinge milhares de adolescentes. Dados do IBGE mostram que o percentual de estudantes mineiros entre 13 e 17 anos que relatam ter sofrido bullying passou de 22,1%, em 2019, para 28,3%, em 2024.
No Brasil, o índice é ainda maior: 39,8% dos estudantes dessa faixa etária disseram já ter sofrido bullying na escola — praticamente quatro em cada dez. Entre as meninas, o percentual chega a 43,3%. A aparência do rosto ou do cabelo foi apontada como motivo em 30,2% dos casos, enquanto 13,7% dos estudantes admitiram já ter praticado bullying.
Os dados também mostram que os conflitos podem evoluir para violência física. No país, 16,6% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido agredidos fisicamente por colegas. Em 2019, eram 14%. Entre os que sofreram agressões duas vezes ou mais, o percentual avançou de 6,5% para 9,6%.
O bullying é caracterizado pela repetição de atos de agressão, intimidação ou humilhação contra uma pessoa. Ele pode envolver violência física, verbal ou psicológica e provocar consequências que vão desde isolamento e queda no rendimento escolar até quadros de ansiedade, depressão e outros transtornos.
A psicopedagoga Carolina Santana ressalta que a escola deve atuar para garantir a segurança dos estudantes e que, diante de episódios de bullying e violência, diferentes partes precisam ser envolvidas.
“Eu tenho ali uma situação em que um jovem ou uma criança faz bullying com outra e, no fundo desse pano, tem os pais. Tem os pais dos meninos que sofrem bullying e tem os pais do menino que fez o bullying. Então essas partes precisam ser acionadas.”
Segundo Carolina, caso os responsáveis procurem a instituição e entendam que as providências necessárias não foram tomadas, é possível recorrer ao Ministério Público. “Se eu, por exemplo, como mãe, fui atrás da escola e a escola não fez nada, cabe, sim, uma denúncia no Ministério Público. Porque o espaço escolar precisa ser seguro.”
A psicopedagoga também avalia que instituições privadas podem apresentar resistência em expor episódios de bullying por receio dos impactos para a própria escola. “Por que as escolas privadas tentam ocultar? Porque elas perdem alunos. Isso não é justo. Não é justo com o sistema. Não é justo com os pais. Não é, muito menos, justo com aquela pessoa.”
Nota da escola
Em nota, o SESI-MG informou que mantém diálogo permanente com as famílias e adota medidas contínuas para garantir um ambiente escolar seguro e acolhedor.
Sobre o primeiro episódio, a instituição afirmou que a ocorrência aconteceu fora do ambiente escolar, embora envolvesse estudantes da unidade. Segundo o SESI, após tomar conhecimento do caso, foram realizadas reuniões com as famílias e adotadas “as medidas disciplinares e pedagógicas cabíveis”. A instituição informou ainda que prestou apoio ao estudante, com atendimento inicial na enfermaria e acompanhamento durante o período de afastamento.
Em relação ao segundo episódio, o SESI afirmou que, após o retorno às aulas, o estudante “passou por uma nova situação durante a rotina escolar, quando sofreu uma lesão durante uma atividade esportiva no intervalo”. A instituição informou que acompanhou o caso, prestou atendimento e manteve diálogo com a família.
Durante o afastamento, segundo o SESI, os conteúdos trabalhados em sala foram disponibilizados ao adolescente, com possibilidade de tirar dúvidas com os professores. A instituição afirmou ainda que mantém profissionais responsáveis pela supervisão dos espaços de convivência durante os intervalos e outros momentos da rotina escolar.
O SESI reforçou que permanece à disposição da família e do estudante e reafirmou “o compromisso com uma educação baseada no respeito, no diálogo, na ética e na construção de um ambiente escolar seguro e acolhedor”.
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