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Palavra 'ódio' passou a integrar nosso vocabulário

Palavra 'ódio' passou a integrar nosso vocabulário

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Nosso vocabulário passou a abrigar, de uns tempos para cá, a palavra ódio. O sentimento de aversão acompanha a política, que fala de gabinetes específicos, atingindo mais camadas sociais do que se pensa.

Mensagens ferinas, fake news, incapacidade de dialogar e aceitar civilizadamente o pensamento contrário, violência física ou verbal. São as emoções principais desse sentimento negativo. Contemplam a ira, a idiossincrasia, a raiva, o rancor, a ira, e impulsionam práticas múltiplas, eticamente nada recomendáveis ou toleráveis.

Contudo, o ódio não se restringe especificamente a um fato, a um episódio, embora seja política e ideologicamente tentador vinculá-lo a determinado episódio. Foi, por exemplo, o caso de um dirigente sindical recentemente assassinado em Foz do Iguaçu (PR) por um alucinado rancoroso. “Crime de ódio”, bradou-se com insistência. Mas não é a consequência da nossa justificável indignação, mas de uma inexistente capitulação dentro das normas legais vigentes. A legislação brasileira em vigor não prevê a existência de crimes que possam ser catalogados como atos com motivação política. A investigação policial do caso de Foz do Iguaçu, envolta nessa batalha semântica e jurídica, foi alvo de críticas tecnicamente improcedentes, engajadas em definições herméticas. A mídia também foi enquadrada com reações hostis à definição legal. Ela deve divulgar fatos, e não criá-los, como se tivesse obrigação de brigar com os fatos erguendo bandeiras politizadas, mas despidas de conteúdo, para enfrentar o que seria um perigo político avassalador. Tanto que, na hora h, diante do enquadramento da polícia judiciária, o Ministério Público, não tendo nada a opor, enfatizou o motivo ”torpe”, uma das agravantes para a prática do homicídio qualificado, na forma prevista pelo Código Penal. E nada mais pelo órgão fiscal exatamente da lei.

Buraco mais fundo

A questão é muito mais profunda, e envolve, entre outros, aqueles que preferem agir à margem da lei, ou em conflito com a lei, como diz o eufemismo para adolescentes em práticas criminosas, digo, atos infracionais, dada a inexistência de relógio biológico regulador.

É preciso pedir ajuda à arte de pensar no que se diz para dizer o que se pensa. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, escreveu que “a volúpia do ódio não pode igualar-se à volúpia de ser odiado”. O padre António Vieira, num dos seus magníficos sermões, bem disse que “muitas vezes parecem finezas de amizade o que são ódios refinadíssimos”. E que “o ódio da virtude faz pecado, da verdadeira faz mentira; castiga a inocência e livra a culpa”.

Exatamente aqui entra a inveja, um sentimento perverso, que projeta no outro aquilo que gostaria de ser. Vieira: “Duas caras tem a inveja: uma com que no interior se entristece e outra com que no exterior se dissimula”.

O que tem a ver tudo isso com ódio? Tem a ver com nosso dia a dia, o cotidiano do mundo criminal, no qual o ódio é uma das mais destacadas causas e proeminente fator.

Matar por motivação torpe não se circunscreve ao caso de Foz do Iguaçu. Alastra-se o ato de matar, e nosso país é um dos campeões mundiais em assassinatos (média de 50 mil anuais), quase todos provocados por motivação interpessoal. O detalhe parece imperceptível para os “especialistas” em nada, os “estudiosos” plantonistas em várias áreas, os curiosos em matéria que não entendem, os “cientistas” em terreno que não dominam e os curiosos que gostam de se aventurar em areias movediças.

Argumente-se: para ser violento, é preciso antes aprender a odiar. O assassinato é a expressão máxima da violência. Entretanto, Caim matou Abel e nem sequer foi pronunciado, decisão jurídica determinante para a realização de um júri popular, o direito de ser julgado pelos seus pares sociais.

Aprendam, achólogos e achistas: as emoções negativas, entre as quais o ódio, permeiam a motivação de crimes. Por trás deles estão a ganância, a inveja, os ciúmes doentios, a avareza, dívidas e frustrações sexuais. Portanto, temos na massa prisional os punidos por desrespeito total às normas de convívio social, um incrível laboratório de comportamento humano. Laboratório ignorado e desprezado, que mergulha o sistema num grande fracasso, como já estudou um especialista de fato, Michel Foucault. Prova disso é o altíssimo nível de reincidência, o entra e sai da prisão, e a transformação dos estabelecimentos penais em escolas do crime, onde o poder de mando está nas mãos de facções criminais, anomalia mais do que admitida pelo sistema, onde o Estado é representado apenas pelo carcereiro, agora rotulado – mais um eufemismo – de “policial penal”, como o matador de Foz do Iguaçu.

O penalista italiano Francesco Carnelutti, em seu livro As Misérias do Direito Penal, observou com argúcia que os personagens do cárcere são “fechados nas jaulas como os animais do jardim zoológico”. Assim, “parecem homens de mentira ao invés de homens de verdade”. Parecem estar num “banco de prova da civilização”, porque “o delito, com tintas mais ou menos fortes, é o drama da inimizade e da discórdia”. A gênese do ódio.    

Perceba que o que aconteceu em Foz do Iguaçu aí está escrito por Carnelutti. Difícil é admitir, mas o invólucro do ódio está em pretender lavar a honra pseudamente ferida, desejar possuir o que não é seu, mas dos outros, cobiçar o sucesso alheio, colocar seu objeto de consumo num carro, par de tênis ou aparelho celular surrupiado. Permitir que o fracasso suba à cabeça. Essa é a grande diferença entre estender as mãos e suplicar por uma ajuda ou usá-las para apontar uma arma, que de vez em sempre dispara. E, quando se é vítima desse disparo fatal, o ódio ganha densidade e volume. Como se conformar com o brutal latrocínio que vitima um ente querido? Como aceitar a invasão da sua casa e as ações aterrorizantes dos invasores? Como olhar a legião de drogados e outros mal-aventurados nas ruas, tolerando-os desde que não fiquem na rua onde você mora? Como engolir que a mulher seja estuprada e a filha violentada à sua frente, dentro da sua casa, por um calhorda bandido? Não dá, é claro que não dá, e por isso mesmo tanta gente muda de opinião a respeito quando se torna personagem indignada, subitamente atingida por um crápula.

A vitória do ódio

A antítese do ódio é o amor que se endereça ao próximo. Podemos ser o próximo da vez, carente de um acolhimento, um ato de solidariedade, um ombro amigo.

Quando o ódio sobrepuja, assistimos ao que se passa no palco da vida. O ódio se acumula, cresce devagar ou rapidamente, explode em formas variadas de violência. Odeia-se o diferente, no agir e no pensar, não se tolera a diversidade, deixa-se dominar por banalidades malignas, permite-se envolver por temperamentos desconectados com a realidade, prende-se a botões e teclados tecnológicos, asfixiando as relações pessoais, a conversa, o olho no olho, o diálogo, o afeto, o carinho, a amizade.

São fatores geradores. Causa é algo que existe. Fato é aquilo que contribui para que uma coisa exista. A bandidolatria odienta inverte papéis, mas fascina a alguns. Robin Hood é ficção. A essas distorções e discrepância, acrescenta-se o ódio. Conquista espaços. Espera-se a descoberta de uma vacina para contê-lo.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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