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Como a sociedade omissa fecha os olhos e facilita a ação dos pedófilos

Tema fica restrito a um pequeno grupo que se diz "especialista", acadêmico ou cientista social

Arquivo Vivo|Percival de Souza, da Record TV

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O assunto é assustador, tanto quanto devastador. As crianças são vítimas inocentes de uma fúria e forte atração sexual por parte de gente que sente prazer em vê-las e cobiçá-las. Em paralelo, trafegam assassinatos, espancamentos, brutalidades e impunidades. A sociedade não se preocupa, como deveria, diante da desafiadora questão. O resultado aí está.

O tema fica restrito a um pequeno grupo que se diz “especialista”, acadêmico ou cientista social. Em verdade, ficam bem distantes dos casos desse tipo, revelados em detalhes apenas pelos meios de comunicação- não raro, criticados severamente, sempre depois de divulgados, porque analistas em profusão adoram a postura do avestruz.


A ave – maior do planeta, anda rápido, mas não pode voar. Enterra a cabeça num buraco para não ver o perigo. Existem mais avestruzes entre nós do que se possa imaginar. Parece uma metáfora. Avestruz é capaz de correr velozmente, mas não gosta de ver aquilo que pode assustá-la. Acredita que seja melhor não ver.

Quando a criança percebe que é vítima seletiva, pode não compreender a situação, descobrir do que se trata quando já é tarde demais. O inimigo, muitas vezes, mora perto. Incapaz de se defender, porque vulnerável, sofre, é aterrorizada e sucumbe.


Bem sei que você não gostaria de estar lendo sobre o tema, o que está fazendo agora. Nem eu gostaria de estar escrevendo sobre isso. Mas é necessário. Não podemos ser avestruzes. O buraco não fica mais em baixo.

Precisando ver para que certas coisas não aconteçam outra vez, poucos descobriram, já que as avestruzes abundam, que cerca de 90% dos autores que promovem os massacres em escolas, são do sexo masculino. Há um mundo girando em torno disso.


Segundo pesquisa da Unesco, órgão das Nações Unidas (ONU) para assuntos relacionados à ciência, educação e cultura, são os meninos que mostram chances bem menores do que as meninas - fato atestado na análise dos alunos que alcançam proficiências em matemática, ciências e cultura.

A consequência é que, mais tarde, quando a mesma Unesco revela que, em 136 países pesquisados, são os meninos que repetem as séries iniciais. No planeta, ainda mais para a frente, vemos que são as mulheres que estão sete vezes mais do que os homens cursando ensino superior.


Há mais, ainda: os homens, de novo, são os que ficam mais deslocados nas relações familiares (pesquisa em 38 países), pois a cada cinco deles, um não mora com os filhos e são uma nova causa mortis, tragados pelo alcoolismo, as drogas e desistindo a vida, buscando na morte o refúgio da não-razão.

Mas o que tem a ver tais situações em relação ao quem estamos falando? Tem, tal abordagem interessa cada vez mais, a ponto de surgir, em Washington, Estados Unidos, um projeto de lei para ser criada uma comissão lei que se chamaria significativamente “Meninos e Homens”.

Perceba o quanto isso é importante quando vimos, em casos de massacres em escolas, recentes no Brasil, considerou-se uma “solução” magistral, diante dos atentados, simplesmente não divulgar os nomes dos autores das chacinas, genericamente descritos como seres em busca da fama efêmera.

O que deixamos de revelar, o nome dos autores, simplesmente não aconteceria mais? O problema não são os fatos, mas a divulgação deles? Temos que ver, não enfiar a cabeça no buraco. Até porque, pense bem, bem, só temos medo daquilo que desconhecemos. Isto sim, é rigorosamente exato.

Como diz Ana Maria Diniz, fundadora do Instituto Península, é por coisas desse tipo que não devemos fechar os olhos para os problemas dos meninos e das meninas – “a vida deles está bem mais difícil do que deveria e podemos ajudá-los”. Obrigado, professora.

PEDÓFILO REAL

Chegamos ao doloroso ponto em que a pedofilia adquire novos formatos. É o caso, que se repete a cada dia, em que gostar de criança adquire nova conotação – ou seja, vê-la como um obstáculo a ser removido ou destruído. 

Refiro-me aos parceiros e padrastos, que tendo nova companheira, passam a ver no menino ou na menina um entrave, estorvo mesmo, potencial ameaça de que mulher atual possa ter inclinações para voltar ao relacionamento anterior.

Não se fala nisso por aqui, não consigo entender a razão, nem por parte de acadêmicos e pelos que se arvoram “especialistas”. Sendo assim, conto eu: a criança, sem querer, passa a lembrar de um caso antigo.

Os agressores projetam na criança um tipo de ódio diferenciado. A criança, na cabeça dele, deveria comportar-se com o se fosse um bibelô: não pode chorar, não pode deixar de dormir à noite, não pode sentir dores, não pode fazer xixi na cama, não pode fazer traquinagens. Deve ser um robô de estimação.

Aí, então, entra em cena um fenômeno à brasileira: algumas mulheres, mães biológicas da vítima, mesmo vendo o filho ser alvo de agressões constantes, muitas delas gravíssimas, preferem ficar solidárias ao crápula e não ao filho.

Vamos a um exemplo, um só, que pode ser escolhido entre dezenas e dezenas: o caso Henry Borel. A mãe saiu de um bairro suburbano para morar na chique Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, com um troglodita vereador e, veja se pode, também médico. Ele espancava sem só. A mãe assistia, complacente. Henry foi trucidado, a necrópsia mostrou muitas lesões por todo o corpo, inclusive hemorragia interna. Foram muitos os socos, chutes e pontapés.

Não se trata aqui de julgar precipitadamente. No apartamento da morte, só estavam os três: mãe, padrasto e garoto. Ninguém mais. Tudo aconteceu neste círculo fechado. Haverá julgamento da dupla, pelo júri popular, mas como não há como rechaçar a verdade, envolvendo-a com a névoa da impunidade.

Não restará alternativa aos jurados. É mais fácil tentar prever de quanto tempo será a condenação do que acreditar em inocência, basicamente porque além da mãe e do parceiro ninguém mais estava no apartamento. Não existem fantasmas assassinos.

Moral da escabrosa história: em nova vida social, no bem-bom, a mãe preferiu continuar desfrutando das benesses da nova vida, repleta de regalias, do que preocupar-se com o filho trucidado.

Esta situação se repete, independentemente da condição financeira do novo cônjuge. Que se saiba, então, quem crianças são arremessadas contra a parede, asfixiadas, afogadas, absurdamente violentadas, envenenadas, queimadas. Já sem vida, os responsáveis, melhor dizendo, irresponsáveis, inventam ficções como “caiu da cama”.

Uma sinistra constatação acompanha tais fatos: 76,5% desses casos acontecem, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, dentro da própria casa onde elas vivem. Ou seja: o autor dos barbarismos não raro mora junto nesse ambiente doméstico.

O silêncio que gravita em torno dessa estupidez humana não pode esquecer ou ignorar as atrocidades, banalizadas e repetitivas, desse tipo.

Há casos e casos. Afeto, repulsa, preferência sexual, raiva gratuita e matar a criança desse modo parar ferir profundamente a mãe. Isso faz parte do cotidiano.

Como explicar e definir tais situações? Derrama-se, de múltiplas formas, o sangue dos inocentes. Síndrome de Herodes? Talvez. Com medo de estar vindo ao mundo uma ameaça ao seu trono, ele – com medo do nascimento de Jesus – déspota morreu em agonia, sofrendo dores insuportáveis, coberto por vermes de uma doença incurável.

Os Herodes de nosso tempo estão muito à vontade. Repetem o que fazem. São insensíveis e sádicos. Exterminam inocentes. Acordem omissos quer deveriam agir.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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