Matar, morrer... Tim, Texas e Rio
Agora em junho, completam-se 20 anos do assassinato do jornalista Tim Lopes, trucidado por traficantes incrustados na favela da Vila Cruzeiro, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro
Arquivo Vivo|Percival de Souza, da Record TV

Escrevi, com dor e lágrimas, um livro in memoriam (Narcoditadura) do meu amigo. Volto ao assunto porque as coisas continuaram as mesmas na Vila Cruzeiro, piores até, com um massacre recente ondemais de 20 pessoas perderam a vida num bangue-bangue com forças do Bope, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar, e um incompreensível grupo da Polícia Rodoviária Federal, corporação que nada tem a ver com esse tipo de ação.
Lágrimas... por quê? É bem diferente você ficar frente a frente diante de um caso, pisando no palco dos acontecimentos, constatando aos poucos um cenário de brutalidade e estupidez completas. Tim, que foi ao morro para fazer uma reportagem sobre as atrocidades tidas ali como coisas normais. Foi capturado. Cortaram as suas pernas, os olhos foram vazados, o peito aberto com um enorme punhal. Diante do espetáculo macabro, até os bandidos à sua volta tremeram. Elias Maluco, porém, como chefe do bando assassino, berrou: “Bandido que é bandido tem que olhar”.
O corpo esquartejado foi colocado dentro de um tonel, repleto de borracha de pneus e querosene, para que fosse ateado fogo e se reduzisse a zero qualquer vestígio da existência de Tim. Restaram ossos, e, mais de um mês depois, um pedaço de costela, com não mais do que 30 centímetros, identificou Tim por meio de exame de DNA, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Vila Cruzeiro, 2002-2022: absolutamente nada mudou. Piorou e piora cada vez mais, em meio a discussões, algumas histéricas, outras bizantinas, mas inúteis, sobre o que se deve ou não fazer. Lembro-me das minhas desventuras subindo ao morro camuflado numa caminhoneta com mercadorias a serem entregues em mercadinhos, deitado entre sacos de batatas e pacotes de cigarros e café. Não me senti, por isso, um homem de coragem. Senti-me, isto sim, humilhado em ter que fazer alguma coisa para me esconder e reportar. Vinham à minha memória, automaticamente, cenas em que colegas jornalistas, indo ao morro para a cobertura sequencial do assassinato, ouviam gritos partidos de becos e vielas: “Vai ter mais Tim, vai ter mais Tim”. Um recado sonoro mais do que direto.
Episódio recente desenrolou-se no Texas, Estados Unidos: um jovem de 18 anos, armado com um poderoso e mortífero fuzil AR-15, entre os norte-americanos chamado de “espingarda americana”. Salvador Roma, o agressor, dirigiu-se a uma escola de ensino médio disposto a matar, como se possuído por um desejo incontrolável, e foi disparando, causando a morte de muitas crianças e uma professora. A polícia chegou, procurou proteger outras crianças, ainda não tombadas sem vida, até o confronto, inevitavelmente fatal, com o tresloucado agressor.
Foram tantas as mortes que ninguém lamentou a eliminação do atirador. Mas muita gente fez críticas pesadas à ausência da chamada “inteligência” e, mais ainda, perguntou-se por que o atirador não foi alvejado antes que a matança prosseguisse.
Exige-se muito do que se convencionou chamar de “inteligência”. Consiste num sistema de coleta de informações, sigilosas, reservadas ou secretas, que permite a previsão de determinado acontecimento, antecipando-se a ele com eficácia. Entre nós, muitos fazem uso da expressão sem ter a menor ideia do que estão falando. “A inteligência falhou”, dizem, sem que se possa aquilatar o que poderia se passar na cabeça de um rapaz recém-saído da adolescência, num país, os EUA, onde a aquisição de armas de fogo é considerada absolutamente normal, possuindo inclusive amparo legal.
Obstruir a ação do matador seria matá-lo com o emprego de um atirador especial, o sniper. Teria sido possível. Vejamos: na academia do FBI, a Polícia Federal dos Estados Unidos, localizada em Quântico, Virginia, ensina-se algo considerado fundamental: em situações semelhantes, deve-se preservar a vida da vítima, nesse caso, das vítimas, a qualquer preço. Chama-se a isso chegar a um resultado que possa ser considerado satisfatório. No caso do Texas, o “satisfatório” não foi alcançado.
Entre nós, uma profusão babélica domina esse tema. Palpiteiros, falsos especialistas, curiosos e achistas confundem a eles mesmos com pensamentos obscuros. É um poço de contradições: ao mesmo tempo que consideram o Bope, a unidade de choque da PM, uma “tropa de elite”, gostam de defini-la (à semelhança da Rota, em São Paulo) como “tropa letal”. Elementar, Watson: elite e letal, como água e azeite, não podem se misturar.
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Na Babel contemporânea, muitos falam e poucos se entendem. A Polícia Militar do Rio, corporação repleta de problemas, atribuiu o morticínio na Vila Cruzeiro a uma operação desenvolvida com base em informações colhidas pela “inteligência”, segundo as quais um gigantesco comboio de traficantes iria se deslocar do Alemão para a favela da Rocinha e, com dia e hora marcados, poderia ser interceptado.
A “inteligência”, porém, não escancarou uma evidência operacional: numa ação desse tipo, a PRF, a Polícia Rodoviária Federal, simplesmente nada tem a ver com isso. Principalmente, não possui o preparo para emprego de armas pesadas em confronto com bandidos de alta periculosidade, segundo o que foi revelado pela “inteligência”. Sem contar que, conforme os parâmetros constitucionais, as ações de polícia investigativa (judiciária) são atribuições específicas da Polícia Civil ou da Federal, em caso de crimes contra a União.
Portanto, nas estradas federais, tudo bem: roubo de cargas, tráfico de entorpecentes, roubo de veículos, contrabando, descaminho, interceptação de armas e munições. Mas é evidente que nos morros não existem becos e vielas federais. Não se justifica, de maneira alguma, a participação da PRF na operação na Vila Cruzeiro. Relembrar é preciso: trata-se do mesmíssimo lugar onde Tim Lopes pagou com a vida a pretensão de denunciar as mesmas atrocidades contemporâneas.
Há um ingrediente a mais na balbúrdia: o Supremo Tribunal Federal exigiu que a polícia do Rio informasse com antecedência a realização de operações nos morros. Uma espécie de aviso prévio a escalões superiores (judiciais) para evitar escaladas da letalidade. Pelo menos, é o que consta. Após a questionada operação na Vila Cruzeiro, a Polícia Militar do Rio, por meio de seu secretário de Estado (sim, no Rio a PM tem secretário, do mesmo modo que a Polícia Civil), reagiu dizendo que a decisão restritiva do Supremo teria favorecido uma migração mais do que significativa de traficantes de vários outros estados. O STF defendeu-se: seu presidente, ministro Luiz Fux, disse que “não vai polemizar com a PM”, mas informou que exigiu “satisfações” e está “aguardando”. Não se sabe como vai terminar a celeuma.
Tim foi executado. Lá no alto do morro, vi nas proximidades de uma gruta muitos aros de pneu, reluzentes à luz do sol. O pneu se queimou, os aros metálicos não. O sinal silencioso da morte de Tim. Mas também o sinal de que muitos ali já haviam sido executados. As provas do crime.
Nada mudou pós-Tim. Em vários morros, traficantes desfilam portando os mais variados tipos de arma. Para entrar lá, você precisa ser autorizado. Barreiras formadas por traficantes agem como se estivessem fazendo uma bliz policial. A ditadura do tráfico. O poder de fato, não apenas paralelo.
Voltei para o hotel na zona sul, onde estão os consumidores que retroalimentam toda a desgraça que acabara de ver. Vi, então, uma passeata com pessoas vestidas de branco portando cartazes onde se lia “paz”. Engoli em seco de novo, amargurado.















