Como a influência de uma artista à frente de seu tempo constrói um repórter
Conheci a obra de Rita Lee tarde, mas a música dela toca em todas as minhas reportagens

Fui com uma amiga do trabalho jantar após o expediente. Eram umas onze da noite. Esperei o motorista dela e, em seguida, chamei o meu no aplicativo. Demorou um pouco e, no meio-tempo, olhei a vida passar. Ao meu lado, havia uma mãe e um filho cantando o samba-enredo da escola Mocidade Independente deste ano, que competiu contando a história da cantora Rita Lee.
Achei aquilo tão bonito que me marcou a memória. Hoje, esse samba tocou na minha playlist e fiquei emocionado. Além de ser lindo, inteligente e ousado, como era a Rita, eu vi o menino pequeno nele, o mesmo que cantarolava com a mãe.
O que faço, na verdade, é gritar de maneira formal, pelas ondas das antenas, país afora, a violência sofrida pelas mulheres, as maldades contra os pobres, os costumes esquisitos dos que concentram a renda e a importância de zelar pelo planeta.
Na música, há um trecho que diz:
“Aos seus bons costumes, eu sinto informar, formei outras ovelhas negras.”
Eu conheci Rita Lee tarde, para lá dos vinte e poucos anos. Ouvi sempre, claro, mas a entendi quase na ponta da existência dela. Muita gente a achava maluquinha, divertida, inteligente, excêntrica. Eu vi uma Rita incomodada com o mundo, cantando, vestindo e passando tinta no cabelo para gritar aos quatro ventos as atrocidades da humanidade.
Fez isso com sublime inteligência. Era popular, escrevia de forma simples, direta, mas tinha um requinte criativo. Genial mesmo!
Rita é jornalismo puro, mas com uma pitada de ousadia e poesia. Nas letras dela, você encontra os critérios de noticiabilidade que tanto estudamos na faculdade e, ao mesmo tempo, sorri, chora, se incomoda, reflete.
O papel da minha vida profissional é usar o mesmo microfone e, apesar de não ser um cantor, o que faço, na verdade, é gritar de maneira formal, pelas ondas das antenas, país afora.
Denunciar a violência sofrida pelas mulheres, as maldades contra os pobres, os costumes esquisitos dos que concentram a renda e a importância de zelar pelo planeta.
São as causas da Rita, são as minhas, são as do jornalismo brasileiro. Talvez eu seja uma ovelha negra da roqueira mais famosa do Brasil; talvez todos os jornalistas sejam também.
Rita quis libertar o povo com música, conversou com marcianos, não aceitou desculpas e foi corajosa ao ponto de dispensar a política do politicamente correto, abandonar o preto e as correntes de ferro do rock e usar a feminilidade como arma de protesto. Enfrentou a macharada usando rosa-choque.
Eternizou na pele mutante do brasileiro os símbolos que vão nos fazer lembrar desse ícone: os óculos de lentes coloridas, o cabelo ruivo, o batom vermelho, os tênis escolares usados pelos astros do rock ‘n’ roll.
Eu sou menos sublime, sigo o manual. Visto cores sóbrias, uso cabelos organizados, tons padrão. Mas possuo a missão dos incomodados, que é dar voz aos que não são ouvidos, jogar luz no que querem esconder...
O jornalismo brasileiro sustenta a democracia como um dos seus pilares, baseando-se na transparência de uma máquina que pulveriza aos quatro cantos o conhecimento dos fatos. Assim como a roqueira, dizemos, doa a quem doer, o que precisa ser dito.
Eu sou menos sublime, sigo o manual. Visto cores sóbrias, uso cabelos organizados, tons padrão. Mas possuo a missão dos incomodados, que é dar voz aos que não são ouvidos, jogar luz no que querem esconder e libertar o povo das amarras da desinformação.
Rita é mulher do pós-guerra. Viu as mães sustentarem os filhos sozinhas, viu a força feminina reconstruir a paz. Só uma tragédia mundial poderia produzir uma artista tão completa, tanto quanto produziu o jornalismo que combateu golpes, efervesceu a consciência democrática e não desistiu.
Rita não era eterna, embora eu ache isso injusto, mas deixou uma obra vasta, com muitas palavras penduradas nas escalas diatônicas, nos livros e no imaginário coletivo.
A imprensa é soberana ao tempo; vai persistir mais forte, reforçada por mais um manual.
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