Logo R7.com
RecordPlus

Como a influência de uma artista à frente de seu tempo constrói um repórter

Conheci a obra de Rita Lee tarde, mas a música dela toca em todas as minhas reportagens

Bloco de Notas com Gabriel Graciano|Gabriel GracianoOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Rita Lee é jornalismo puro, mas com uma pitada de ousadia e poesia Reprodução/Instagram/@ritaleejones

Fui com uma amiga do trabalho jantar após o expediente. Eram umas onze da noite. Esperei o motorista dela e, em seguida, chamei o meu no aplicativo. Demorou um pouco e, no meio-tempo, olhei a vida passar. ​Ao meu lado, havia uma mãe e um filho cantando o samba-enredo da escola Mocidade Independente deste ano, que competiu contando a história da cantora Rita Lee.

Achei aquilo tão bonito que me marcou a memória. Hoje, esse samba tocou na minha playlist e fiquei emocionado. Além de ser lindo, inteligente e ousado, como era a Rita, eu vi o menino pequeno nele, o mesmo que cantarolava com a mãe.


O que faço, na verdade, é gritar de maneira formal, pelas ondas das antenas, país afora, a violência sofrida pelas mulheres, as maldades contra os pobres, os costumes esquisitos dos que concentram a renda e a importância de zelar pelo planeta.

Na música, há um trecho que diz:​

“Aos seus bons costumes, eu sinto informar, formei outras ovelhas negras.”


​Eu conheci Rita Lee tarde, para lá dos vinte e poucos anos. Ouvi sempre, claro, mas a entendi quase na ponta da existência dela. Muita gente a achava maluquinha, divertida, inteligente, excêntrica. Eu vi uma Rita incomodada com o mundo, cantando, vestindo e passando tinta no cabelo para gritar aos quatro ventos as atrocidades da humanidade.

Fez isso com sublime inteligência.​ Era popular, escrevia de forma simples, direta, mas tinha um requinte criativo. Genial mesmo!


Rita é jornalismo puro, mas com uma pitada de ousadia e poesia. Nas letras dela, você encontra os critérios de noticiabilidade que tanto estudamos na faculdade e, ao mesmo tempo, sorri, chora, se incomoda, reflete.

​O papel da minha vida profissional é usar o mesmo microfone e, apesar de não ser um cantor, o que faço, na verdade, é gritar de maneira formal, pelas ondas das antenas, país afora.


Denunciar a violência sofrida pelas mulheres, as maldades contra os pobres, os costumes esquisitos dos que concentram a renda e a importância de zelar pelo planeta.

São as causas da Rita, são as minhas, são as do jornalismo brasileiro. Talvez eu seja uma ovelha negra da roqueira mais famosa do Brasil; talvez todos os jornalistas sejam também.

​Rita quis libertar o povo com música, conversou com marcianos, não aceitou desculpas e foi corajosa ao ponto de dispensar a política do politicamente correto, abandonar o preto e as correntes de ferro do rock e usar a feminilidade como arma de protesto. Enfrentou a macharada usando rosa-choque.

Eternizou na pele mutante do brasileiro os símbolos que vão nos fazer lembrar desse ícone: os óculos de lentes coloridas, o cabelo ruivo, o batom vermelho, os tênis escolares usados pelos astros do rock ‘n’ roll.

Eu sou menos sublime, sigo o manual. Visto cores sóbrias, uso cabelos organizados, tons padrão. Mas possuo a missão dos incomodados, que é dar voz aos que não são ouvidos, jogar luz no que querem esconder...

​O jornalismo brasileiro sustenta a democracia como um dos seus pilares, baseando-se na transparência de uma máquina que pulveriza aos quatro cantos o conhecimento dos fatos. Assim como a roqueira, dizemos, doa a quem doer, o que precisa ser dito.

​Eu sou menos sublime, sigo o manual. Visto cores sóbrias, uso cabelos organizados, tons padrão. Mas possuo a missão dos incomodados, que é dar voz aos que não são ouvidos, jogar luz no que querem esconder e libertar o povo das amarras da desinformação.

​Rita é mulher do pós-guerra. Viu as mães sustentarem os filhos sozinhas, viu a força feminina reconstruir a paz. Só uma tragédia mundial poderia produzir uma artista tão completa, tanto quanto produziu o jornalismo que combateu golpes, efervesceu a consciência democrática e não desistiu.

​Rita não era eterna, embora eu ache isso injusto, mas deixou uma obra vasta, com muitas palavras penduradas nas escalas diatônicas, nos livros e no imaginário coletivo.

A imprensa é soberana ao tempo; vai persistir mais forte, reforçada por mais um manual.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.