O futebol é paixão nacional! A minha não, meu negócio é a festa!
O repórter que aprende sobre o esporte todas as vezes que precisa cobrir o assunto

Em 2002, as ruas estavam todas amarelas. Eu fiz muita bandeirinha. Como eu era bom com desenho, os personagens e mascotes eram por minha conta também. Lembro-me até hoje de misturar o cal com a água e os pigmentos. A Copa é uma mini junção dos feriados nacionais, na época, uma oportunidade de faltar à escola, e isso, por si só, já valia a pena.
Em casa, a TV de 29 polegadas, altamente tecnológica para a época, era a aquisição do ano. A gente vivia na pobreza, mas o aparelho era a nossa única janela para o mundo, e não se podia abrir mão das poucas alegrias que se podia vivenciar. Ver Ronaldo, Cafu, Roberto Carlos... E tinha o Raul Gil, que era o American Idol da época; eu torcia muito para o Rinaldo e a Liriel.
Nunca chutei uma bola acertando o alvo desejado. Sempre fui muito ruim em qualquer esporte. Na escola, era o último a ser escolhido, e até o professor de educação física me liberava das aulas. Passava a tarde conversando com ele. De papo eu era ótimo. Percebe-se!
Essas coisas eram costumeiras. O investimento na televisão, nas tintas e nas bandeirinhas era de alto retorno. As ações da seleção brasileira estavam muito bem cotadas. Duas coisas eram fatos: nosso talento para o futebol e a nossa desenvoltura na Fórmula 1. São carimbos que Pelé e Ayrton Senna pressionaram no nosso DNA.
Esta introdução é tudo o que eu sei sobre o esporte. Se eu fosse ler isso ao vivo, daria um link de apenas um minuto.
Pensa comigo! Os jornalistas esportivos de carreira são praticamente funcionários públicos do futebol. Têm bagagem desde a infância. Então podem comparar o jogo passado com o campeonato de 1970; o rendimento do Neymar com o do Romário na Copa de 1994. Podem relembrar a formação em campo da seleção de 54 e dizer se a Noruega tem um histórico de não saber lidar com o ataque brasileiro.
Esse é o meu fantasma. Eu fui uma criança desinteressada por futebol e vou lhe explicar o motivo de maneira simples: trauma!
Nunca chutei uma bola acertando o alvo desejado. Sempre fui muito ruim em qualquer esporte. Na escola, era o último a ser escolhido, e até o professor de educação física me liberava das aulas. Passava a tarde conversando com ele. De papo, eu era ótimo. Percebe-se!
Um repórter da CazéTV sendo amontoado por uns dez santistas com copos de bebida e bandeiras na mão. Pensei com as minhas chuteiras: “Só falta acontecer isso comigo”. Entendi a Fátima, era estratégia pura.
E aí, o destino traiçoeiro cobra essa dívida ferrenha 20 anos depois! Virei repórter de televisão generalista na cidade mais futebolística do país: o município de Santos.
O boleto chegou rápido! Com um mês de trabalho, Pelé morreu. Foram duas semanas de futebol puro e um silêncio estranho e sorrateiro. Decorei — disso eu manjo — tudo o que podia para reportar a morte do craque.
A sorte é que Pelé era mais um movimento político do que apenas um jogador. Ele parou guerra, foi cavaleiro da rainha Elizabeth, foi o símbolo máximo do Brasil. Isso me ajudou muito! Obrigado, viu?
Mas você acha que parei por aqui? Santos prestes a cair para a segunda divisão! Cavalaria da PM nas ruas, clima tenso da torcida organizada. Marcelo Fernandes, técnico do clube, comendo o pão que o diabo amassou, e a pressão imensa em cima dos jogadores.

E o santo Neymar! Minha primeira cobertura de beira de estádio. Lembro-me como se fosse hoje! Neymar chegando para o jogo da sua reestreia oficial como recontratado pelo Santos.
Do lado de fora, a torcida bebendo todas, e eu com quatro minutos decorados para preencher com a história da partida, do craque e uma aula que fiz com o santista roxo e apresentador Alex Frutuoso.
Fui me posicionar e vi toda a imprensa reunida: a Fátima do SBT, que é pau para toda obra, como eu. Ela estava fechadíssima, dura e inquebrável; não dava moleza para qualquer maluco que se aproximasse.
Num outro canto da minha visão panorâmica, um repórter da CazéTV sendo amontoado por uns dez santistas com copos de bebida e bandeiras na mão. Pensei com as minhas chuteiras: “Só falta acontecer isso comigo”. Entendi a Fátima, era estratégia pura.
Fiz a minha entrada aos trancos e barrancos, mas, para a surpresa dos desesperados, a chefia anunciou:”Vou precisar de você daqui a 20 minutos! Quero mais 4 de link".
Meu Senhor Jesus! Você deve estar pensando agora: gastei todo o meu repertório de futebol. O que eu ia falar? Para não estender a história, vou resumir. Achei um cantor que fez uma música para o Neymar (sem palavrões), achei uns dois santistas centrados e fiz entrevistas ao vivo para render o tempo.
Esse foi apenas um dos episódios. Hoje aprendi a lidar melhor com isso e até me divirto. Encontro o Madson nas matérias, o jogador mais farreiro que já existiu. Já entrevistei a lenda Pepe, que dispensa apresentações, e até o pai do Neymar já foi meu colega de tela.
O futebol não é meu forte, realmente, mas o talento para driblar os perrengues, esse tá carimbado no meu DNA.
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