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O futebol é paixão nacional! A minha não, meu negócio é a festa!

O repórter que aprende sobre o esporte todas as vezes que precisa cobrir o assunto

Bloco de Notas com Gabriel Graciano|Gabriel GracianoOpens in new window

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O futebol não é meu forte, realmente, mas o talento para driblar os perrengues tá carimbado no meu DNA Arquivo pessoal

Em 2002, as ruas estavam todas amarelas. Eu fiz muita bandeirinha. Como eu era bom com desenho, os personagens e mascotes eram por minha conta também. Lembro-me até hoje de misturar o cal com a água e os pigmentos. A Copa é uma mini junção dos feriados nacionais, na época, uma oportunidade de faltar à escola, e isso, por si só, já valia a pena.

​Em casa, a TV de 29 polegadas, altamente tecnológica para a época, era a aquisição do ano. A gente vivia na pobreza, mas o aparelho era a nossa única janela para o mundo, e não se podia abrir mão das poucas alegrias que se podia vivenciar. Ver Ronaldo, Cafu, Roberto Carlos... E tinha o Raul Gil, que era o American Idol da época; eu torcia muito para o Rinaldo e a Liriel.


Nunca chutei uma bola acertando o alvo desejado. Sempre fui muito ruim em qualquer esporte. Na escola, era o último a ser escolhido, e até o professor de educação física me liberava das aulas. Passava a tarde conversando com ele. De papo eu era ótimo. Percebe-se!

Essas coisas eram costumeiras. O investimento na televisão, nas tintas e nas bandeirinhas era de alto retorno. As ações da seleção brasileira estavam muito bem cotadas. Duas coisas eram fatos: nosso talento para o futebol e a nossa desenvoltura na Fórmula 1. São carimbos que Pelé e Ayrton Senna pressionaram no nosso DNA.

Esta introdução é tudo o que eu sei sobre o esporte. Se eu fosse ler isso ao vivo, daria um link de apenas um minuto.


Pensa comigo! Os jornalistas esportivos de carreira são praticamente funcionários públicos do futebol. Têm bagagem desde a infância. Então podem comparar o jogo passado com o campeonato de 1970; o rendimento do Neymar com o do Romário na Copa de 1994. Podem relembrar a formação em campo da seleção de 54 e dizer se a Noruega tem um histórico de não saber lidar com o ataque brasileiro.

Esse é o meu fantasma. Eu fui uma criança desinteressada por futebol e vou lhe explicar o motivo de maneira simples: trauma!


Nunca chutei uma bola acertando o alvo desejado. Sempre fui muito ruim em qualquer esporte. Na escola, era o último a ser escolhido, e até o professor de educação física me liberava das aulas. Passava a tarde conversando com ele. De papo, eu era ótimo. Percebe-se!

​Um repórter da CazéTV sendo amontoado por uns dez santistas com copos de bebida e bandeiras na mão. Pensei com as minhas chuteiras: “Só falta acontecer isso comigo”. Entendi a Fátima, era estratégia pura.

E aí, o destino traiçoeiro cobra essa dívida ferrenha 20 anos depois! Virei repórter de televisão generalista na cidade mais futebolística do país: o município de Santos.


O boleto chegou rápido! Com um mês de trabalho, Pelé morreu. Foram duas semanas de futebol puro e um silêncio estranho e sorrateiro. Decorei — disso eu manjo — tudo o que podia para reportar a morte do craque.

A sorte é que Pelé era mais um movimento político do que apenas um jogador. Ele parou guerra, foi cavaleiro da rainha Elizabeth, foi o símbolo máximo do Brasil. Isso me ajudou muito! Obrigado, viu?

Mas você acha que parei por aqui? Santos prestes a cair para a segunda divisão! Cavalaria da PM nas ruas, clima tenso da torcida organizada. Marcelo Fernandes, técnico do clube, comendo o pão que o diabo amassou, e a pressão imensa em cima dos jogadores.

Vila Belmiro, o estádio do Santos, em 2024 Arquivo pessoal

​E o santo Neymar! Minha primeira cobertura de beira de estádio. Lembro-me como se fosse hoje! Neymar chegando para o jogo da sua reestreia oficial como recontratado pelo Santos.

Do lado de fora, a torcida bebendo todas, e eu com quatro minutos decorados para preencher com a história da partida, do craque e uma aula que fiz com o santista roxo e apresentador Alex Frutuoso.

Fui me posicionar e vi toda a imprensa reunida: a Fátima do SBT, que é pau para toda obra, como eu. Ela estava fechadíssima, dura e inquebrável; não dava moleza para qualquer maluco que se aproximasse.

Num outro canto da minha visão panorâmica, um repórter da CazéTV sendo amontoado por uns dez santistas com copos de bebida e bandeiras na mão. Pensei com as minhas chuteiras: “Só falta acontecer isso comigo”. Entendi a Fátima, era estratégia pura.

Fiz a minha entrada aos trancos e barrancos, mas, para a surpresa dos desesperados, a chefia anunciou:”Vou precisar de você daqui a 20 minutos! Quero mais 4 de link".

​Meu Senhor Jesus! Você deve estar pensando agora: gastei todo o meu repertório de futebol. O que eu ia falar? Para não estender a história, vou resumir. Achei um cantor que fez uma música para o Neymar (sem palavrões), achei uns dois santistas centrados e fiz entrevistas ao vivo para render o tempo.

Esse foi apenas um dos episódios. Hoje aprendi a lidar melhor com isso e até me divirto. Encontro o Madson nas matérias, o jogador mais farreiro que já existiu. Já entrevistei a lenda Pepe, que dispensa apresentações, e até o pai do Neymar já foi meu colega de tela.

​O futebol não é meu forte, realmente, mas o talento para driblar os perrengues, esse tá carimbado no meu DNA.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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