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Como a invasão chinesa está acabando com a indústria automotiva do Brasil

O problema não nasceu agora. Ele vem sendo construído há pelo menos 40 anos

Blog do Galante|Raphael GalanteOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A invasão automotiva chinesa tem impactado o mercado brasileiro, com carros chineses ganhando quase 20% de participação de mercado devido à sua tecnologia e design avançados.
  • Esse fenômeno é parte de um processo de desindustrialização no Brasil que vem ocorrendo há 40 anos, impulsionado pela globalização e pela ascensão da China como potência manufatureira.
  • Setores como brinquedos, calçados, têxtil e eletrônicos já sofreram com a concorrência chinesa, resultando em fechamento de fábricas e perda de empregos no Brasil.
  • O setor automotivo agora enfrenta desafios semelhantes, e a falta de políticas industriais e inovação local pode levar a uma dependência ainda maior de importações chinesas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Linha de produção da fábrica da BYD em Camaçari (BA) Divulgação/BYD

Caros leitores, digníssimas leitoras: o que o setor automotivo — e a gente, como sociedade — vem presenciando nos últimos anos é a ascensão dos carros chineses.

E, sejamos justos: os carros são fenomenais, isso a gente tem que dar o braço a torcer. Eles ajudaram a popularizar a eletrificação, trazem tecnologia embarcada de sobra e ainda chegam com design arrojado. Em resumo: são bons para chuchu e já estão “tocando o terror” na concorrência, abocanhando quase 20% do mercado.


Tudo isso é lindo e maravilhoso — e excelente para o consumidor. Mas essa história só dura até a página 2.

O problema não nasceu agora. Ele vem sendo construído há pelo menos 40 anos. Os carros chineses são apenas a pá de cal em um processo de desindustrialização brasileira associado ao avanço da China. E agora, esse filme está passando no setor automotivo.


Para entender como chegamos aqui, vale olhar a linha do tempo.

Anos 1980 — O início da mudança estrutural

A globalização produtiva começa a transferir manufaturas para a Ásia, especialmente para a China. É o início da perda de densidade das cadeias produtivas locais em vários países, incluindo o Brasil. Por aqui, o movimento ainda era tímido, mas já sinalizava perda de complexidade industrial.


1990–1999 — Abertura comercial e vulnerabilidade crescente

A abertura comercial dos anos 1990 expõe a indústria nacional à concorrência internacional. É a época em que Collor chama nossos carros de “carroças” (com razão) e abre espaço para novas montadoras.

A China ainda não domina o jogo, mas começa a ganhar espaço como fornecedora de manufaturados baratos. As primeiras vítimas são setores intensivos em mão de obra: têxtil, brinquedos, eletroeletrônicos simples. O roteiro que hoje ameaça o automotivo já estava sendo escrito.


2001 — China na OMC: onde a porca torce o rabo

Com a entrada da China na OMC, o país acelera sua integração às cadeias globais de valor e se torna rapidamente o maior exportador mundial de manufaturas.

Para o Brasil, isso significa competição crescente e transversal em praticamente todos os setores industriais.

2003–2010 — Boom das commodities e “especialização regressiva”

O Brasil passa a exportar majoritariamente commodities (minério, soja, petróleo) e a importar manufaturados de maior valor agregado.

O resultado?

  • A indústria perde participação no PIB e no emprego.
  • O país se “reprimariza”.
  • A famosa especialização regressiva se aprofunda: deixamos de produzir bens complexos e voltamos a focar em produtos básicos.

É como se a gente, Homo sapiens, voltasse a ser homem de Neandertal.

2010–2018 — Dependência, perda de densidade e desindustrialização

A China se consolida como principal parceiro comercial do Brasil. A participação da indústria de transformação no PIB cai a níveis historicamente baixos.

O avanço chinês é transversal (atinge vários setores) e heterogêneo (alguns sofrem mais). Vemos fechamento de fábricas em brinquedos, têxtil, calçados, eletroeletrônicos. Políticas industriais tentam reagir, mas não conseguem reverter a tendência.

A estrutura produtiva brasileira se torna mais dependente de commodities e menos diversificada.

2019–2026 — E-commerce e a nova onda de pressão chinesa

Plataformas como AliExpress, Shein e Temu ampliam drasticamente a entrada de produtos chineses de baixo valor. A competição atinge especialmente vestuário, brinquedos, eletrônicos simples e utilidades domésticas.

Pequenas e médias indústrias nacionais perdem mercado rapidamente. A desindustrialização se acelera. E, enquanto isso, o setor automotivo começa a sentir o mesmo tipo de pressão — só que agora com carros elétricos e híbridos.

Parece devaneio do estagiário, né? Mas vamos a alguns exemplos concretos: o que já aconteceu com outros setores:

Brinquedos

A entrada massiva de produtos chineses a partir dos anos 1990 provocou uma crise profunda. Muitas empresas deixaram de produzir o brinquedo completo e passaram a operar em regime CKD. Hoje, mais de 60% dos brinquedos vendidos no Brasil são chineses. Marcas icônicas como Estrela, Glasslite e Trol praticamente desapareceram.

Calçados

O setor está sendo massacrado por preços impossíveis de igualar. Resultado: fechamento de fábricas no Vale dos Sinos (RS), redução de empregos e migração da produção para a importação.

Têxtil e vestuário

Após o fim da “taxa das blusinhas”, Shein e Temu aceleraram a perda de mercado da indústria nacional. Confecções fecharam, empregos formais evaporaram e polos tradicionais se desindustrializaram.

O déficit na balança comercial de manufaturados em 2025 foi de US$ 134 bilhões e, neste ano, deveremos ter novo déficit superior a US$ 150 bilhões.

Eletrônicos e informática

CCE, Gradiente e a antiga Philco Nacional foram praticamente aniquiladas. Smartphones e notebooks chineses dominam a faixa de entrada. A indústria local perdeu escala e relevância tecnológica.

Pneus e siderurgia

Importações de pneus subiram mais de 40% desde 2024. No aço, o produto chinês chega a 20–30% mais barato. Aqui ainda há investigações antidumping, mas o estrago competitivo já está em curso.

E o que tudo isso tem a ver com o setor automotivo?

Tudo!

Os exemplos acima sugerem que estamos vivendo o paradoxo de Orloff: eu sou você amanhã. O que já aconteceu com brinquedos, calçados, têxtil, eletrônicos e aço tende a se repetir — com suas particularidades — no setor automotivo.

Mesmo com exigências de conteúdo local e barreiras regulatórias, o estrago no curto e médio prazo já está em andamento. Montadoras chinesas podem até montar carros aqui, mas a inteligência, o P&D, o coração tecnológico do produto tende a ficar do outro lado do mundo.

O carro chinês é fenomenal. A pergunta é: a que custo?

Se não discutirmos seriamente política industrial, inovação local e estratégia de longo prazo, corremos o risco de repetir o roteiro de outros setores. E, nesse filme, o último que sair não só apaga a luz — ele descobre que a chave do interruptor nem é mais nossa.

E aí? O que achou?

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