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Ciência para o Dia a Dia

Alzheimer e som: a ideia ‘improvável’ que pode abrir novos caminhos no tratamento

E se fosse possível investigar uma das doenças mais desafiadoras da humanidade?

Ciência para o Dia a Dia|Ada Jamile Gomes de Oliveira

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A doença de Alzheimer afeta mais de 55 milhões de pessoas no mundo e representa 60% a 70% dos casos de demência.
  • Estimulações sonoras, como as ondas binaurais, estão sendo estudadas como potenciais terapias para impactar positivamente o tratamento da doença.
  • O projeto MeMO, desenvolvido no Colégio Militar de Manaus, investiga os efeitos das ondas binaurais em células humanas e apresentou resultados promissores.
  • O trabalho conquistou reconhecimento em competições científicas e destaca a necessidade de alternativas de tratamento acessíveis, utilizando tecnologias simples.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Alzheimer Imagem Gerada por AI

A doença de Alzheimer é uma das principais condições neurodegenerativas do mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55 milhões de pessoas vivem atualmente com algum tipo de demência no mundo, e o Alzheimer representa cerca de 60% a 70% desses casos.

Marcada pela perda progressiva de memória, declínio cognitivo e impacto direto na autonomia dos pacientes, sua incidência vem crescendo de forma significativa com o envelhecimento populacional, enquanto os tratamentos disponíveis ainda atuam majoritariamente no controle dos sintomas, sem uma cura definitiva ou intervenções que atuem diretamente na causa biológica da doença.


Diante dessas limitações, cresce o interesse por abordagens complementares que possam auxiliar no cuidado dos pacientes e potencializar os efeitos dos tratamentos já existentes. Estratégias baseadas em estímulos sensoriais têm ganhado destaque, especialmente aquelas relacionadas à música.

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Não é incomum, por exemplo, que pacientes com Alzheimer consigam lembrar letras de músicas ou reagir emocionalmente a canções mesmo em estágios mais avançados da doença. A partir dessa observação, a musicoterapia vem sendo utilizada para estimular funções cognitivas e emocionais nesses pacientes.


Ao explorar os efeitos do som no cérebro, um fenômeno específico chama atenção: as ondas binaurais. Do ponto de vista técnico, elas ocorrem quando duas frequências sonoras ligeiramente diferentes são apresentadas separadamente a cada ouvido.

Esses estímulos são processados pelo sistema auditivo e integrados no complexo olivar superior, no tronco encefálico, onde ocorre a comparação entre os sinais. Como resultado, o cérebro percebe uma terceira frequência correspondente à diferença entre as duas iniciais.


De forma simplificada, é como se cada ouvido recebesse um som diferente, e o cérebro “criasse” um terceiro som a partir dessa diferença. Essas ondas podem influenciar, ou modular, estados mentais como concentração, relaxamento e atenção.

A partir desse conceito, surgiu a ideia de desenvolver o projeto MeMO, no Colégio Militar de Manaus, sob orientação do professor Roberto Alexandre Alves Barbosa Filho.


Iniciado em 2024, o trabalho começou com uma pergunta central: será que as ondas binaurais poderiam ir além dos efeitos cognitivos gerais e influenciar também processos celulares associados ao Alzheimer?

Para investigar isso, o projeto foi estruturado em duas frentes principais: uma abordagem computacional e uma abordagem experimental, com testes em células humanas.

Na parte computacional, investiguei como as ondas binaurais se comportavam e, considerando diferentes regiões cerebrais, analisei sua possível penetração em áreas mais internas do cérebro.

Além disso, estudei redes de interação molecular associadas às proteínas relacionadas ao Alzheimer, buscando conexões entre os mecanismos da doença e regiões do cérebro ligadas à percepção sonora.

Na etapa experimental, foram realizados testes de exposição a ondas binaurais em células humanas, acompanhados da avaliação de possíveis efeitos tóxicos por meio de ensaios de citotoxicidade.

O objetivo foi analisar o impacto da exposição no metabolismo celular. Os resultados indicaram baixa toxicidade, inferior a 8%, sugerindo que o protocolo utilizado é biologicamente seguro nas condições testadas.

Além disso, foi observada uma redução na expressão de genes associados à doença de Alzheimer após um período de uma hora de exposição, avaliada por RT-qPCR. Esse achado aponta para um possível efeito biológico relevante, ainda que preliminar e dependente de validações adicionais.

Esses resultados foram apresentados durante a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), em que o projeto conquistou o segundo lugar na categoria de Ciências da Saúde, além de garantir credenciamento para a Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), a maior feira pré-universitária do mundo, realizada em Phoenix, Arizona.

Pessoalmente, sinto-me muito feliz com o reconhecimento alcançado ao longo dessa trajetória e com o quanto pude evoluir durante esses anos de projeto. Ainda assim, mais do que o próprio avanço científico, o que sempre me motivou foi a possibilidade de pensar em alternativas mais acessíveis para o futuro da saúde.

Sob essa perspectiva, a investigação de estímulos sonoros como ferramenta complementar abre espaço para soluções de baixo custo, baseadas em tecnologias simples, como fones de ouvido, com potencial para ampliar o acesso a terapias em diferentes contextos, especialmente em regiões mais remotas do Brasil.

Ada Jamile Gomes de Oliveira Acervo Pessoal de Ada Jamile Gomes de Oliveira

Também é importante destacar que o MeMO foi construído de forma profundamente colaborativa. Ao longo dessa trajetória, foi fundamental contar com o apoio da Universidade Federal do Amazonas, por meio de seu Laboratório de Cultura de Células e Animais, do Colégio Militar de Manaus, da Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial do Exército, além do suporte financeiro da Bemol e de seu diretor-presidente, Denis Minev.

Desde as etapas iniciais, contei com o apoio do meu orientador, Roberto Alexandre Alves Barbosa Filho, e de colegas como Isabela Rogério e Guilherme Pansini, que contribuíram de forma significativa para a consolidação do projeto. Atualmente, o trabalho segue com novos integrantes, Nina Pitch e Costa Júnior, que darão continuidade às próximas etapas da pesquisa.

Também é importante ressaltar que todas as atividades foram conduzidas sob supervisão laboratorial, utilizando linhagens celulares humanas (H4) e seguindo rigorosamente protocolos de biossegurança, sem uso de animais ou riscos aos envolvidos.

Por fim, deixo um pedido às escolas do Brasil, apoiem os sonhos dos jovens, mesmo quando vierem acompanhados de ideias que parecem “malucas”. Muitas das transformações mais importantes da ciência começaram exatamente assim, parecendo irreais antes de mudarem completamente a forma como entendemos o mundo.

O MeMO só existe porque nasceu dessa forma, como uma ideia distante que ganhou forma a partir de persistência, apoio, curiosidade e oportunidade. A iniciação científica não é simples, mas é transformadora, e poucas experiências são tão marcantes quanto ver um projeto crescer e começar a impactar a sociedade.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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