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Cidade sem memória

Depois de quatro décadas no topo de uma das torres do Edifício JK, em Belo Horizonte, relógio digital vai ser retirado por empresa

Eduardo Costa|Eduardo Costa

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Relógio fica em cima de prédio desenhado por Oscar Niemeyer
Relógio fica em cima de prédio desenhado por Oscar Niemeyer

A notícia de que o tradicional relógio instalado há quase meio século em uma das torres do Conjunto JK, na Praça Raul Soares, será arrancado dos céus de Belo Horizonte é mais um atestado de nossa pobreza cultural, nosso desinteresse pela história e nosso fracasso enquanto povo que deveria cultivar suas raízes e se empenhar em transmiti-las às futuras gerações. Sorrateiramente, como acontece quando alguma coisa errada é feita, ele foi desligado e agora vem a notícia de que será retirado.

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O mais triste é o tom das explicações. O banco Itaú, que fatura dezenas de bilhões todos os trimestres age como instituição sem coração, sem compromisso e diz que revisou a estratégia de exposição da sua marca. Mas, em seguida dá uma pista de que não é o único responsável, ao afirmar que “por mudanças na legislação de várias cidades brasileiras nos últimos anos foi estimulada a retirar o relógio. Aí, quando a gente espera que a Prefeitura vai reagir energicamente, protestar, exigir que o banco volte atrás vem a Fundação Municipal de Cultura e diz em nota que, de fato, a presença da marca configura publicidade irregular e contraria o Código de Posturas da cidade. Em seguida, a PBH deixa escapar que também faltou vontade política do condomínio, cuja administração não incluiu o relógio no processo de tombamento em curso.


Posso estar equivocado. E, se me convencerem, me desculpo. Não sou poste. Mudo. Mas, em princípio, considero uma covardia sem limites contra a cidade. Banco não tem alma, a gente sabe, mas, a Prefeitura deveria zelar por nossa história. Aquele relógio era mais que hora certa; era referencia, por ele a gente sabia onde estava e para onde deveria se dirigir. Era como um farol, como uma bússola, mas, nós, que já perdemos os relógios digitais, que não temos banheiros públicos, que carecemos de símbolos, somos um povo sem memória, esquivando do cocô no meio das ruas, sentindo-se ameaçado nas praças, com medo de por a cara na janela; incomodados pela fedentina da lagoa da Pampulha... Que tristeza!

Tudo que é ruim, de buraco a chantagistas disfarçados de guardadores de carros, pode, segundo o Código de Posturas; pode usuário de droga escancarada, pode sujeira, ratos, pombos, venda de produtos sem procedência... Nosso código só não permite o relógio.


E a administração do JK não briga pela história. Deveria sugerir o tombamento das brigas históricas pelo comando do condomínio, muitas vezes com um nível baixíssimo de comportamento nas decisões.

Em Londres, o Big Ben está sendo reformado. Porque é história. Aqui, o tombamento e as posturas derrubaram o relógio. Amo Belo Horizonte, mas, é mesmo uma roça grande.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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