Logo R7.com
RecordPlus
‌

Ex-ministro Roberto Rodrigues aponta quatro desafios que pressionam o agro

Professor emérito da FGV, ele afirma que conflitos globais ampliaram a importância de alimentos, energia e tecnologia tropical

Fonte Agro|Kelly GodoyOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Foto: Roberto Rodrigues em entrevista para a jornalista Kelly Godoy - Record News

Os conflitos internacionais estão mudando as prioridades do mundo e ampliando o papel estratégico do agronegócio brasileiro. Para o professor emérito da FGV e ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, duas questões ganharam força. A primeira é a segurança alimentar. A segunda envolve a produção de energia a partir de fontes agrícolas.

Em entrevista ao Agro Record News, Rodrigues avaliou os impactos da geopolítica sobre o agronegócio brasileiro. Segundo ele, as guerras atuais colocaram a energia novamente no centro das preocupações globais. O petróleo ficou mais caro, enquanto o diesel passou a enfrentar dificuldades de abastecimento. Nesse cenário, o mundo voltou a olhar para os biocombustíveis como uma alternativa estratégica.

‌

Guerras ampliam importância da agroenergia

Rodrigues destacou que o mundo demorou décadas para reconhecer novamente a importância da agroenergia. Ele lembrou o surgimento do Proálcool, há 50 anos, como marco dessa trajetória brasileira. Agora, os conflitos ampliaram o interesse por combustíveis de origem agrícola. Além do transporte terrestre, essa tecnologia também avança sobre setores como aviação e navegação.

O professor também citou o biodiesel entre as alternativas que ganharam relevância diante da crise energética. Para Rodrigues, a guerra colocou a agroenergia em uma dimensão ainda maior.

‌

Segurança alimentar volta ao centro das decisões

A pandemia de 2020 também deixou uma importante lição para os países, segundo Rodrigues. A crise mostrou que a segurança alimentar influencia diretamente a estabilidade social e política. Durante aquele período, países com baixa produção buscaram alimentos no mercado internacional para abastecer suas populações. Além disso, a redução dos estoques contribuiu para uma forte inflação global de alimentos. Carne, açúcar e café registraram grandes altas em dólar durante aquele período.

Assim, Rodrigues considera que a pandemia evidenciou a importância estratégica da produção de alimentos. Para ele, o mundo atualmente enfrenta quatro grandes desafios: alimento, energia, mudança climática e desigualdade social.

‌

Brasil pode liderar produção tropical

Nesse cenário, Rodrigues vê uma oportunidade estratégica para o Brasil. O país pode ampliar simultaneamente a produção de alimentos e energia, segundo o ex-ministro. Além disso, o Brasil pode usar tecnologia para produzir com menor impacto climático.

‌

Rodrigues considera que o país desenvolveu uma agricultura tropical sustentável e capaz de ser replicada. Ele também defende que o Brasil exporte conhecimento, tecnologia e modelos produtivos. Essa estratégia inclui usinas de açúcar e álcool, biodiesel, etanol de milho e celulose. Para Rodrigues, o país pode ensinar outras regiões tropicais a produzir alimentos e energia.

América Latina, África e Ásia ainda possuem áreas disponíveis para ampliar a produção agrícola. Ao mesmo tempo, essas regiões apresentam menor nível tecnológico em comparação com áreas temperadas. Por isso, o Brasil poderia assumir uma posição de liderança nesse processo.

Tecnologia aumenta produção sem ampliar a área

Rodrigues citou números da agricultura brasileira para defender a eficiência tecnológica do setor. Segundo ele, a área plantada com grãos cresceu 120% desde 1995. No mesmo período, a produção de grãos aumentou 527%.

Para o professor, esses números mostram o impacto da tecnologia tropical sobre a produtividade. Ele também destacou o uso da mesma área para diferentes safras durante o ano.

Atualmente, o Brasil utiliza cerca de 62 milhões de hectares para o cultivo de grãos. Com diferentes safras, essa utilização chega a aproximadamente 84 milhões de hectares. Rodrigues afirmou que o ganho de produtividade também reduziu a necessidade de abertura de novas áreas. Segundo sua estimativa, seriam necessários outros 125 milhões de hectares para produzir o volume atual. Essa conta considera a produtividade média registrada no Brasil em 1995. Na avaliação do professor, esse resultado representa uma forma efetiva de sustentabilidade.

Biocombustíveis reforçam sustentabilidade

Rodrigues também citou os biocombustíveis como exemplo da capacidade brasileira de produzir com menor emissão. Segundo ele, o etanol de cana emite 11% do CO₂ associado à gasolina. Já o biodiesel produzido a partir da soja representa 18% das emissões dos combustíveis fósseis citados.

O professor também destacou a expansão das florestas plantadas no país. Segundo Rodrigues, o Brasil possui atualmente 11 milhões de hectares de florestas plantadas. Para ele, grãos, florestas e biocombustíveis demonstram a dimensão da sustentabilidade brasileira.

Ilegalidade ainda afeta imagem do agronegócio

Apesar dos avanços, Rodrigues afirmou que o Brasil enfrenta um problema de imagem no exterior. Segundo ele, práticas ilegais prejudicam a percepção internacional sobre a sustentabilidade brasileira. O professor citou desmatamento ilegal, invasões de terras e incêndios criminosos. Ele também afirmou que o país possui boas leis ambientais, mas enfrenta dificuldades no cumprimento.

Nesse contexto, Rodrigues defendeu o combate às atividades ilegais para melhorar a imagem brasileira e afirma que o produtor rural que atua dentro da lei não deve ser associado a essas práticas.

Geopolítica exige estratégia comercial

Rodrigues também analisou a posição brasileira diante de Estados Unidos, China e União Europeia. Segundo ele, a atual configuração internacional exige uma estratégia comercial mais ampla. O professor defendeu o fortalecimento do multilateralismo e das instituições internacionais. Entre elas, citou a Organização Mundial do Comércio, a FAO, a OMS e a ONU. Para Rodrigues, a ausência de coordenação amplia o espaço para disputas comerciais e tarifas.

Nesse ambiente, o Brasil ocupa uma posição considerada estratégica pelo professor. O país mantém relações com o Ocidente e possui forte inserção comercial na China. Por isso, Rodrigues considera essa posição híbrida uma oportunidade para ampliar mercados.

Produtor enfrenta custos elevados e preços menores

A conjuntura internacional também afeta diretamente o produtor rural brasileiro. Rodrigues citou o aumento dos custos com insumos, diesel e fertilizantes. Além disso, destacou o impacto das taxas de juros sobre a atividade agrícola. Segundo ele, juros de 20% ao ano são incompatíveis com a realidade da agricultura.

O cenário reúne custos elevados, crédito caro e preços internacionais menores. Por isso, Rodrigues classificou o momento como uma “tempestade perfeita” para o produtor. Apesar das dificuldades, o ex-ministro afirmou que as crises econômicas não são permanentes.

Governo e cooperativas precisam reagir

Para enfrentar o cenário, Rodrigues defendeu ações conjuntas entre governo e setor privado. Segundo ele, o governo precisa criar mecanismos capazes de compensar perdas relacionadas a preços e insumos. Ao mesmo tempo, o setor privado deve fortalecer a organização dos produtores.

Rodrigues defendeu cooperativas mais fortes, integradas e unidas. Na avaliação do professor, essa união aumenta a capacidade de negociação diante do mercado internacional. Assim, ações públicas e privadas podem construir uma reação mais estruturada à crise. Para Rodrigues, o Brasil precisa aproveitar sua posição estratégica e ampliar sua liderança no mundo tropical. O objetivo envolve produzir alimentos e energia, gerar desenvolvimento e enfrentar desafios sociais e ambientais.

✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.