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Joel Rennó Jr
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Felicidade natalina não combina com consumismo

A percepção distorcida de que a felicidade está diretamente associada ao poder de compra é recorrente na sociedade atual

Joel Rennó Jr|Do R7

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O consumismo desenfreado pode colocar as pessoas em um círculo vicioso e perigoso

(Dr Joel Rennó Jr)

Recebo, no meu consultório, muitas pessoas que atribuem à situação econômica difícil e outros fatores externos a causa de alguns transtornos mentais, como a depressão. Há questões conceituais coletivas que devem ser trabalhadas e retificadas pelos terapeutas, sem dúvida.

Para alguns, o comprar torna-se o ideal de felicidade, porém, as questões são mais complexas e uma análise reflexiva faz-se mister, principalmente, no período natalino, onde o consumismo é estimulado ao extremo, abdicando-se de valores vitais muito mais importantes e sólidos na busca da paz e alegria de viver.

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O consumismo desenfreado pode colocar as pessoas em um círculo vicioso e perigoso. Todos trabalham cada vez mais, estressando-se até o limite, a fim de manter o poder para gastar mais. A mídia e os publicitários trabalham com o inconsciente coletivo das pessoas, estimulando o desejo impulsivo e cultivando a insatisfação com aquilo que elas conquistaram com suor. Estimula-se uma competição consumista desvairada e até favorecedora de ódio e inveja. Essa estratégia de marketing apresenta armadilhas perigosas.

A felicidade não é medida pelo acúmulo de riquezas e isso não é um “chavão”. As metas inatingíveis- fomentadas pelos publicitários-, embora sedutoras, merecem ser repensadas. Parece-me que nos períodos de estabilidade da economia tais compulsões são ainda mais estimuladas, tudo em nome dos juros baixos.

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As recentes tecnologias incorporadas, apesar de nos fornecerem inúmeros benefícios, também nos trazem uma preocupação excessiva para mantê-las e atualizá-las. Portanto, o pobre se estressa para manter a sua subsistência, enquanto os mais ricos para poderem ter TV a cabo, internet, roupas de griffe, etc. Tudo em nome de um culto ao consumismo, gerador de sofrimento e escravidão.

A manutenção de um determinado status também é um fator gerador de estresse. Segundo Clive Hamilton, autor do relatório do Instituto da Austrália publicado anos atrás, cerca de 25% dos britânicos, na faixa dos 30 aos 59 anos, resolveram diminuir os seus ganhos para melhorar a qualidade de vida. Ou seja, começa a haver uma conscientização de que o dinheiro não é o principal fator no alcance da real felicidade. Claro que tudo isso tem validade após condições dignas de alimentação, saúde, educação, vestimenta e lazer.

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O americano Gregg Easterbrook escreveu o livro “Progress Paradox” (paradoxo do progresso). Segundo ele, apesar da vida material das pessoas ter evoluído, isso não causa um impacto positivo na felicidade das pessoas. Pelo contrário: a sociedade ocidental enfatiza as reclamações; a mídia estimula a raiva nas pessoas. Inicialmente, as energias ficam focalizadas no sucesso material e na sobrevivência; uma vez atingidos tais objetivos há mais tempo para ficar aborrecido e insatisfeito, aí entra a mídia.

Como psiquiatra, eu, realmente, observo tais impactos negativos da mídia no estímulo exagerado ao consumismo e frustração das pessoas. Todos acabam tendo a percepção distorcida de que a felicidade está diretamente relacionada ao poder de compra. Se assim o fosse, com certeza, o mundo seria bem mais simplificado e óbvio. Não passa tudo de uma ilusão mercantilista desencadeadora, em pessoas vulneráveis geneticamente, de quadros depressivos e ansiosos, cada vez mais crescentes na minha prática clínica.

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A publicidade sempre terá a sua importância, de forma inquestionável. Comprar é inexorável ao ser humano. O que deve haver, em alguns segmentos, é uma rediscussão ética, com toda a sociedade, para a mudança do enfoque, estabelecendo-se limites e parâmetros- dentro de uma liberdade de expressão-, que possam nortear campanhas publicitárias com projetos sociais implícitos e sem armadilhas de comunicação- eliciadoras de comportamentos compulsivos.

Um feliz natal a todos vocês, prezados leitores do R7, com consumismo moderado, alegria e paz! 

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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