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Luiz Fara Monteiro

Anac abre discussão sobre intervalos de inspeção em aeronaves

Especialista avalia que modernização pode reduzir intervenções desnecessárias e aumentar a disponibilidade das aeronaves

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Especialista alerta: ampliar intervalos exige evidências técnicas e monitoramento contínuo Divulgação Azul Linhas Aéreas

A Anac deu início a duas consultas setoriais que, à primeira vista, tratam de temas distintos, mas defendem o mesmo princípio de segurança por caminhos diferentes.


Publicadas em 24 de agosto e abertas a contribuições até 4 de dezembro, as propostas de Instrução Suplementar (IS) miram dois pontos historicamente sensíveis da manutenção: os intervalos entre inspeções e a saúde dos motores em operação, colocando em evidência uma mudança importante para o setor que, em vez de depender apenas de parâmetros isolados, consiga tomar decisões sobre intervalos de inspeção cada vez mais sustentadas pelo comportamento real dos componentes, por dados confiáveis e pela análise de risco.

Para Glaysson Henrique da Rocha Cruz, engenheiro de produção, especialista em manutenção aeronáutica e integridade estrutural de aeronaves, inspetor de controle e qualidade FAA A&P e profissional de Ensaios Não Destrutivos (END/NDT) Level II, em conformidade regulatória FAA/ANAC, a evolução é positiva, mas exige estrutura técnica para que mais flexibilidade não seja confundida simplesmente com redução de inspeções.


Segundo o especialista, para planejar intervalos com segurança, operadores precisam analisar informações como horas e ciclos, falhas, remoções não programadas, discrepâncias repetitivas, resultados de inspeções, consumo de óleo e tendências de temperatura, pressão, vibração e desempenho.

Os dados também precisam ser precisos e padronizados. Afinal, ambiente operacional, frequência de utilização, histórico de manutenção e configuração das aeronaves influenciam a confiabilidade e ajudam a mostrar uma exposição ao risco que horas e ciclos, isoladamente, não conseguem representar.


Outro ponto central está na capacidade de transformar ocorrências rotineiras da manutenção em informação tecnicamente aproveitável. Quando essas informações são organizadas em taxas de falha, gráficos de tendência e análises de causa raiz, constituem evidências técnicas capazes de apoiar decisões de manutenção.

O histórico dessas inspeções pode demonstrar a evolução de um dano e ajudar a sustentar alterações nos intervalos. Para isso, entretanto, são necessários procedimentos adequados, equipamentos calibrados e profissionais qualificados.


“Não basta dizer que o componente foi inspecionado e não apresentou indicação. É necessário demonstrar que o método possuía sensibilidade suficiente para detectar o tamanho e o tipo de dano considerado crítico. O objetivo não é simplesmente inspecionar menos, mas definir o intervalo adequado com base na condição do componente e no risco associado à falha”, explica Glaysson.

Na avaliação do especialista, uma das maiores dificuldades para oficinas e operadores brasileiros será transformar informações hoje dispersas em um sistema consistente de confiabilidade.

Ordens de serviço, cadernetas, relatórios de END e diferentes sistemas eletrônicos já concentram grande quantidade de informações, mas os registros nem sempre utilizam a mesma nomenclatura ou permitem análises estatísticas confiáveis.

Há ainda o desafio de assegurar que diferentes inspeções sejam comparáveis. Por isso, Glaysson avalia que a implementação deve ser proporcional ao porte e à complexidade de cada operação, sem redução dos critérios mínimos de segurança.

A experiência norte-americana também oferece parâmetros importantes. Segundo Glaysson, uma das principais lições da Federal Aviation Administration (FAA) é que a flexibilidade para alterar intervalos deve estar vinculada a um programa formal de confiabilidade e à supervisão continuada.

Além disso, nem todos os intervalos podem ser modificados por programas de confiabilidade. Diretrizes de aeronavegabilidade, limitações de aeronavegabilidade e outros requisitos obrigatórios possuem restrições próprias.

A possibilidade de alteração também não elimina a responsabilidade do operador. Diante de sinais de deterioração, aumento de falhas ou perda de eficácia de determinada tarefa, o intervalo precisa ser reduzido ou o método de inspeção revisto.

“O Brasil deve evitar que a extensão seja tratada apenas como redução de custos. Antes de modificar qualquer intervalo, é necessário estabelecer indicadores, níveis de alerta, responsabilidades, métodos de análise e critérios claros para reverter a mudança caso o desempenho se deteriore”, ressalta.

Para o especialista, uma manutenção mais orientada por dados, risco e condição real dos equipamentos pode trazer ganhos importantes. Um programa bem estruturado pode reduzir intervenções desnecessárias, aumentar a disponibilidade das aeronaves e direcionar recursos aos pontos de mais risco.

A contrapartida é que qualquer ampliação precisa permanecer condicionada à qualidade das informações e à capacidade de reação diante de sinais de deterioração.

“Na aviação, toda ampliação de intervalo precisa ser sustentada por evidência, e não apenas pela percepção de que o componente está funcionando normalmente”, conclui Glaysson Cruz.

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