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Luiz Fara Monteiro

O novo luxo das viagens à Europa é ter tempo

Brasileira radicada em Paris há mais de cinco anos observa avanço da viagem com propósito, das viagens multigeracionais e da busca por curadoria local

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Tendência que vem ganhando força: a viagem com propósito Divulgação

Com a proximidade das férias de julho, período de alta temporada na Europa, Paris se prepara para receber milhares de turistas brasileiros. Muitos deles estão abandonando as tradicionais maratonas turísticas para investir em viagens mais autênticas, personalizadas e conectadas à cultura local. É o que observa a brasileira Mel Rolan, guia e travel designer radicada na capital francesa há mais de cinco anos e especializada na criação de roteiros personalizados para famílias.

Ao acompanhar centenas de viajantes ao longo desse período, Mel identificou uma mudança clara no comportamento dos brasileiros que visitam o continente. Se antes o objetivo era conhecer o maior número possível de cidades e atrações em poucos dias, hoje cresce a busca por experiências mais autênticas, roteiros sob medida e uma conexão mais profunda com os destinos.


“O que mudou foi a intenção da viagem. Antes, o sucesso estava ligado à quantidade de lugares visitados. Hoje, as famílias querem viver o destino, entender a cultura local e construir memórias que façam sentido para elas”, afirma.

Segundo a especialista, a mudança acompanha uma tendência global de viagem com propósito — conhecida internacionalmente como meaningful travel —, modelo que valoriza a profundidade da experiência em detrimento da quantidade de atrações visitadas, com itinerários mais alinhados ao perfil e ao ritmo de cada viajante e família. Relatórios da Expedia, Hilton e Minor Hotels apontam que 2026 marca uma virada do turismo de massa para experiências mais profundas, em que o foco deixa de ser quantas cidades cabem no roteiro e passa a ser o quanto cada vivência realmente toca a vida de quem viaja. Em vez de percorrer cinco ou seis cidades em duas semanas, muitas famílias têm optado por passar mais tempo em um único local, explorando bairros, mercados, cafés, parques e experiências que fazem parte da rotina dos moradores.


O paradoxo da era da informação

A transformação acontece em um momento em que nunca houve tanta informação disponível sobre viagens. Redes sociais, vídeos, blogs e aplicativos oferecem milhares de sugestões sobre o que fazer em cidades como Paris, Londres ou Roma. Paradoxalmente, essa abundância de conteúdo tem aumentado a necessidade de curadoria.

“Hoje existe informação de sobra. O que falta é contexto. Uma recomendação que funciona para um casal pode não funcionar para uma família com crianças pequenas. O que os viajantes buscam é alguém que consiga transformar informação em decisão”, explica.


Segundo Mel, cresce a procura por especialistas locais capazes de reduzir aquilo que ela chama de “custo invisível da viagem”, formado por escolhas inadequadas, deslocamentos desnecessários, perda de tempo e desgaste logístico.

“O que as famílias buscam não é mais informação. Elas buscam orientação. Querem saber o que realmente vale a pena para o perfil delas, no período em que viajarão. Esse tipo de curadoria dificilmente é encontrado em uma pesquisa genérica na internet”, afirma.


Menos cidades, mais experiências

Para Mel, a mudança está diretamente relacionada à forma como as famílias passaram a valorizar o tempo durante as férias. “Existe uma preocupação maior em aproveitar a viagem com mais tranquilidade e presença. As famílias querem criar memórias juntas, sem a sensação de que precisam correr de uma atração para outra para que a viagem valha a pena”, afirma.

Na prática, atividades como passeios de barco, visitas a mercados locais, experiências gastronômicas, piqueniques em parques e pequenas cidades fora dos roteiros tradicionais têm conquistado espaço nos roteiros de brasileiros que visitam a Europa.

“Quando a viagem deixa de ser uma corrida contra o relógio, as pessoas conseguem aproveitar melhor o destino. Criam uma conexão mais genuína com o lugar e voltam para casa com histórias, não apenas com fotos”, completa.

Viagens multigeracionais ganham espaço

Outra mudança observada nos últimos anos é o crescimento das viagens multigeracionais, reunindo avós, pais e filhos em uma mesma experiência. O formato exige um planejamento mais cuidadoso para equilibrar diferentes ritmos, interesses e necessidades, garantindo que todos consigam aproveitar a viagem.

“O desafio é construir uma experiência que funcione para todos. Enquanto os avós buscam conforto e tranquilidade, as crianças precisam de atividades que despertem interesse. Sem planejamento, a viagem pode se transformar em uma negociação permanente”, explica.

Nesse contexto, passeios ao ar livre, experiências gastronômicas, atividades culturais leves e momentos de convivência familiar têm substituído agendas excessivamente carregadas.

Na prática, menos correria e mais conexão

A mudança de comportamento também pode ser percebida nas atividades escolhidas pelos viajantes. Piqueniques em parques, passeios de barco, visitas a mercados de bairro, oficinas culturais e pequenas cidades fora dos roteiros tradicionais passaram a ganhar espaço nas preferências dos brasileiros que visitam a Europa.

A cliente Gabi Werberich, que viajou pelo continente com as duas filhas pequenas utilizando um roteiro sob medida, afirma que a experiência foi muito diferente das preocupações que tinha antes da viagem.

“Sempre ouvimos que seria complicado viajar pela Europa com crianças pequenas, mas tudo aconteceu de forma muito leve. Conseguimos aproveitar cada momento e criar lembranças que vamos levar para sempre. Voltamos com as crianças já pedindo o próximo destino.”, relata.

Um mercado em transformação

Com mais de 650 famílias atendidas e NPS de 9,97 em uma escala de zero a dez, construído ao longo dos últimos cinco anos, Mel acredita que a personalização continuará ganhando espaço à medida que os viajantes passarem a valorizar cada vez mais a qualidade da experiência.

Para ela, a tendência reflete uma nova forma de enxergar o turismo, em que o valor da viagem deixa de estar na quantidade de atrações visitadas e passa a estar na qualidade das vivências.

“As pessoas estão percebendo que viajar bem não significa fazer mais coisas. Significa viver experiências que façam sentido para elas. No fim, o que permanece não são apenas as fotos, mas as histórias, os encontros e as memórias construídas ao longo do caminho”, conclui.

Sobre a Mel Rolan

Mel Rolan é guia e travel designer brasileira radicada em Paris há mais de cinco anos. Formada em Turismo e especializada em famílias brasileiras, conduz tours privativos a pé pelos bairros históricos da cidade e transforma a experiência urbana em algo que roteiros convencionais raramente entregam: uma Paris vivida a céu aberto, no ritmo de quem a conhece por dentro.

Seus tours acontecem exclusivamente em espaços abertos — ruas, praças e jardins. Mais do que uma escolha operacional, é uma convicção: para Mel, andar pelas ruas e descobrir os diferentes bairros de Paris é uma das formas mais ricas de conhecer a cidade de verdade. É nas calçadas do Marais, nos jardins do Luxemburgo, nas bancas dos mercados de bairro e nos cafés onde os locais param toda manhã que Paris revela suas camadas mais ricas e mais interessantes.

Com mais de 650 famílias atendidas e NPS de 9,97/10, construiu ao longo de cinco anos um método próprio de leitura da cidade — desenvolvido especificamente para quem viaja com crianças, considerando ritmo, pausas, logística e o que de fato cria memória em diferentes faixas etárias.

Antes de se estabelecer em Paris, atuou nas áreas de compliance e gestão de riscos, com passagem pela francesa Cardif BNP Paribas. Fundou seu negócio em 2020. Além dos tours, oferece roteiros sob medida, consultorias de planejamento de viagem e guias digitais para famílias que buscam planejamento especializado.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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