Mistério: consumo de energia despenca ao meio-dia sem explicação oficial e pode ser ‘gato’
Queda no consumo não é explicada em dados oficiais e ocorre perto de meio-dia; consumidor deixou de demandar ao menos 7,3 GW
R7 Planalto|Amanda Almeida, do R7, em Brasília
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Sem que se encontre motivo em dados oficiais, próximo ao meio-dia (entre 11h e 14h) o consumidor brasileiro deixou de demandar ao menos 7,3 GW (gigawatts) do sistema sob supervisão do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Essa fatia, chamada de “parcela não explicada” da carga, sextuplicou em apenas três anos e traz risco de instabilidades e apagões ao país.
Uma das suspeitas é que o fenômeno decorra da proliferação de painéis fotovoltaicos sem o devido cadastro por falha das distribuidoras ou mesmo clandestinos, os chamados “gatos de energia solar”. Os dados foram apresentados por representantes do ONS à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) na última quarta-feira (29/7) como parte de um esforço para melhorar a identificação e a fiscalização dessas irregularidades. A fração não explicada corresponde a dois terços da geração de Itaipu.
Nos momentos de sol a pino, os painéis instalados em parte das casas e comércios, que se multiplicaram graças subsídios do governo, atingem o seu pico de geração e injetam a energia excedente na rede das distribuidoras. Isso naturalmente diminui a demanda do SIN (Sistema Interligado Nacional), regido pelo ONS, cuja operação não contempla essa modalidade, chamada de micro e minigeração distribuída.
Esse efeito é considerado pelo operador a partir dos sistemas oficialmente cadastrados. Na reunião com a Aneel, contudo, o órgão sustentou que a alteração no padrão de consumo não se explica apenas pela injeção de energia dos painéis registrados e pode estar ligada àqueles sem registro ou instalados à revelia das autoridades.
Quanto maior a produção dos painéis, mais difícil é para o ONS ter as informações necessárias e prever o comportamento dos consumidores e operar o SIN de forma a equilibrar oferta e demanda. “O comportamento do consumo no meio-dia pode estar mudando, e a geração pode estar deixando de ser cadastrada”, diz trecho de apresentação feita à Aneel.
O ONS desconfia: diz que a energia “no limbo” começou a crescer justamente em 2023, quando o governo passou a cobrar uma tarifa gradual de parte dos comércios e residências com energia solar.
Todas as regiões
Os dados mostram que o consumo entre as 11h e 14h afundou em todas as regiões. No Nordeste, caiu tanto que já é menor que em horários sem sol. Esse fenômeno é comum a outros lugares do mundo em que a modalidade solar também explodiu, como a Califórnia.
O cálculo que aponta 7,3 GW como “parcela não explicada” é o mais conservador. Para chegar a ele, o ONS buscou corrigir, por exemplo, atrasos no cadastramento de painéis regularmente instalados. O estudo também considera cenário em que o número seja de 10,1 GW.
O órgão citou algumas datas, como o dia dos pais do ano passado (5 de agosto). Na ocasião, o país quase teve um blecaute devido à baixa demanda no horário de maior insolação. Quase a metade da geração provinha dos telhados.
“O Operador programa o sistema com antecedência: geração, reserva, tensão e limites partem do comportamento previsto da carga [consumo]. As curvas dos dias de mínima mostram esse comportamento mudando rápido: o vale do meio-dia caiu a 31.804 MW [megawatts] em agosto de 2025, com 44,8% de toda a geração vindo da distribuição. Com 7 a 10 GW de alteração não explicada no meio-dia, a carga real se descola da prevista: cada decisão passa a ser tomada com um mapa que não reflete o sistema”, diz trecho da apresentação feita à Aneel.
O encontro se deu a pedido da agência reguladora para avaliar medidas contra os “gatos solares”. A Aneel solicitou às distribuidoras uma aperto na fiscalização. Dados enviados por 19 delas mostraram irregularidades em seis de cada dez unidades consumidoras inspecionadas.
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