O que a pesquisa que monitorou as igrejas durante as eleições descobriu
Avaliação inédita analisou mais de 7 mil cultos e missas
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Uma pesquisa inédita, divulgada nesta semana, analisou mais de 7 mil cultos e missas durante o período eleitoral. Foram mais de 13 mil horas de gravações examinadas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O objetivo era identificar propaganda eleitoral, possíveis irregularidades e manifestações políticas nos púlpitos de igrejas cristãs.
Os resultados chamam atenção e devem ter surpreendido muita gente: as mensagens de conscientização política, incentivo ao voto responsável e combate à polarização foram cinco vezes mais frequentes do que a propaganda eleitoral. Em outras palavras, o estudo encontrou muito mais estímulo à cidadania do que tentativas explícitas de direcionamento do voto.
Segundo o levantamento, a propaganda eleitoral apareceu em apenas 0,7% das missas católicas, 1,4% dos cultos batistas e 8,3% das celebrações das Assembleias de Deus.
Por que nas igrejas cristãs?
Os pesquisadores justificam a escolha pelo peso demográfico de católicos e evangélicos na sociedade brasileira. Trata-se de um recorte legítimo, que não invalida o levantamento.
Mas, será que observar apenas esses ambientes é suficiente para compreender as diferentes formas de influência política sobre a população?
Afinal, a formação da opinião eleitoral não acontece somente dentro de igrejas. Universidades, movimentos sociais, sindicatos, organizações comunitárias, associações culturais e também outros espaços religiosos participam, de diferentes maneiras, do debate político brasileiro.
A proibição de propaganda eleitoral em bens de uso comum alcança templos de todas as religiões, incluindo terreiros, sinagogas, mesquitas e centros espíritas, além de espaços como clubes, lojas e centros comerciais. A mesma distinção entre liberdade de expressão e propaganda irregular precisa ser observada em sindicatos, associações e movimentos sociais.
Diante disso, por que não ampliar o olhar das pesquisas?
A influência do crime
Existe outra realidade que deveria ocupar lugar nessa discussão. Enquanto pesquisadores conseguem acompanhar milhares de horas de celebrações religiosas, há comunidades onde o exercício da cidadania enfrenta ameaças muito mais graves.
A interferência de organizações criminosas na política não é uma hipótese abstrata.
Um artigo acadêmico publicado em 2026 na Revista Eletrônica de Direito Eleitoral e Sistema Político, do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, analisa os mecanismos de interferência de facções criminosas nos processos eleitorais brasileiros.
O estudo identifica cinco formas de atuação: coação de eleitores, financiamento ilícito de campanhas, imposição de candidaturas, intimidação de adversários e corrupção de agentes públicos.
Estamos falando de situações nas quais a liberdade de escolha pode ser comprometida pela ameaça, pelo medo e pelo controle territorial.
Assim, uma coisa é estudar se um líder religioso manifesta preferência por determinado candidato. Outra, muito mais importante, é investigar situações em que o cidadão pode sofrer represálias por exercer livremente seu direito ao voto.
Por isso, o debate precisa ser mais amplo. E não sobre o que os pastores e padres dizem sobre política, mas sobre quem realmente influencia o voto brasileiro, de que maneira, com quais interesses e, principalmente, se o eleitor tem liberdade para decidir.
E, para compreender essa realidade, é preciso olhar além dos púlpitos.
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