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Menopausa está bem longe de ser um problema apenas do ginecologista

Com o aumento da expectativa de vida e a atuação da mulher na sociedade, esse período passa a ter cada vez mais importância no dia a dia

Saúde em Perspectiva|Do R7

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Manter uma rotina de sono, alimentação e atividade física ajuda a aliviar os sintomas da menopausa e melhora a qualidade de vida Imagem: Kostikova Natalia | Shutterstock

Livros como A Menopausa e o Cérebro, da neurocientista Lisa Mosconi, se propõem a discutir um outro lado da menopausa, nada ligado à simples ginecologia, e vêm fazendo muito sucesso. Mas ele apenas revela o que ficou escondido por tanto tempo: a menopausa é um período da vida humana, no caso, da vida da mulher, e por isso não pode ser lido apenas como um problema de uma especialidade médica.

Durante séculos, a mulher teve sua importância dentro da sociedade relativizada. E, dessa forma, todas as suas questões.


Com as conquistas políticas e sociais do sexo feminino, a mulher passou a ocupar mais lugares e a evolução da medicina permite que ela ocupe esses lugares por mais tempo. Isso faz com que, finalmente, a menopausa mereça entrar em discussão.

Recentemente, tivemos a discussão sobre o quanto a reposição hormonal foi culpabilizada por dezenas de problemas de saúde, notadamente o câncer de mama. E é muito bom que isso seja desmistificado, pois a reposição hormonal tem transformado a vida de mulheres que sofriam com os efeitos da menopausa.


O alerta permaneceu na bula por 20 anos, mesmo quando os próprios dados da Women’s Health Initiative já mostravam que entre mulheres com menos de 70 anos.

É importante lembrar que os problemas de saúde da mulher não começam somente quando o fluxo menstrual para definitivamente. O climatério começa por volta dos 40 anos, já mudando várias coisas na vida da pessoa, e, por isso, as mulheres vêm se preocupando cada dia mais com sua saúde, mais cedo.


E isso pode ser por questões como a resposta ao etarismo: ninguém mais se aposenta aos 40 e poucos anos. “A vida começa aos 50!” tem sido bradado por aí.

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Para a ginecologista e especialista do Instituto da Menopausa e do Climatério do Hospital Moriah, Carolina Ambrogini, “a mulher passa por uma reflexão nesse período, porque ela vê o seu tempo passando e começa a avaliar sua vida toda. A menopausa causa divórcios”.


Essa afirmação está longe de ser uma generalização para a médica, mas vai ao encontro do grey divorce – onda de separações que acontecem quando os filhos do casal crescem e não veem mais razão para ficarem juntos.

Por isso que a menopausa está bem longe de ser um problema apenas para discutir com o ginecologista.

Sim, tudo começa com o estrogênio, que é um modulador do sistema nervoso central, e a menopausa é a queda e ausência desse hormônio no corpo da mulher. A queda da produção do estrogênio afeta os neurotransmissores e faz com que o cérebro meio que “entre em surto”.

“A principal consequência é o esquecimento, essa névoa mental, que é muito ruim porque a mulher tem uma queda da produtividade e isso afeta a autoestima. Por outro lado, como a falta de estrogênio bagunça os neurotransmissores, a mulher fica mais suscetível a ter depressão e irritabilidade, trazendo muitos conflitos familiares, no ambiente de trabalho e isso é sofrido para a mulher”, completa Ambrogini.

É aí que entram a reposição hormonal e o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, em que o olhar do ginecologista – profissional fundamental nessa fase – deve ser múltiplo também.

Os comprimidos, adesivos e géis podem ajudar sobremaneira, mas precisam ser muito bem personalizados. E há outras recomendações que precisam ser dadas às mulheres, mesmo antes da menopausa em si.

“Toda atividade física é melhor que nenhuma, então toda mulher tem que ter seus 150 minutos semanais. Porém, a atividade ideal para a menopausa é a que tenha exercícios resistidos, como musculação, Pilates e ioga”, recomenda a médica, pois o envelhecimento traz a perda de massa muscular e a tendência a engordar.

“Sabemos que a quantidade de músculos, principalmente de membros inferiores, também tem relação com demência”, alerta Carolina Ambrogini.

Mas e as mulheres que tiveram câncer de mama? Como ficam, sem poder fazer a reposição hormonal? Porque a terapia hormonal foi inocentada de causar o câncer, mas ter tido câncer de mama é uma condição incompatível com repor os hormônios. Isso porque a grande maioria dos tumores de mama se alimenta do estrogênio.

Essas mulheres precisam ainda mais do olhar individual porque o seu tratamento deve ser ainda mais multidisciplinar. Se não podem fazer a reposição hormonal, têm que buscar o bem-estar através do exercício físico, da alimentação e do sono. “Sabemos que a menopausa afeta bastante o sono, então a mulher tem que ter uma higiene do sono adequada”, alerta a médica.

“Se ela tem muitas ondas de calor, sabemos que alguns antidepressivos ajudam e, também, foi recentemente aprovada uma nova droga para os fogachos”. Essa novidade é o fezolinetanto, que não contém nem progesterona nem estrogênio e bloqueia os receptores NK3 no hipotálamo, para regular o termostato do corpo.

“E temos que fazer uso das opções naturais, como a amora, cimicífuga e outros fitoestrogênios, com o acompanhamento médico. Lembrando que a mulher que teve câncer de mama não pode usar as isoflavonas, presentes na soja, por exemplo”, inclui Ambrogini.

Mas quais mulheres podem ou não ser beneficiadas pela reposição hormonal? Não existe uma resposta segura. O que existe é a individualização do tratamento. Se todas as medidas não medicamentosas não surtirem efeito para essa mulher ter uma vida mais produtiva e saudável, devemos buscar os remédios que vão ajudar.

“Para aquela mulher que teve um câncer de mama que não é hormônio-dependente, ou seja, o triplo negativo, já existem estudos que levantam a possibilidade de ela fazer a reposição hormonal, mas ainda não está consolidada pela literatura médica. Então, se você seguir a Sociedade Brasileira de Mastologia, qualquer câncer de mama é uma contraindicação. Mas a ciência está buscando respostas”, diz a médica.

Da mesma forma, mulheres que tiveram câncer de endométrio e de ovário podem ter no estrogênio o fator de estímulo das células malignas. Diferente de quem teve o câncer de colo de útero, que não tem essa dependência, liberando para a reposição. Por isso, o olhar tem que ser tão particular.

O mais importante é que a mulher pode ter uma vida melhor, com seu cérebro protegido e sua continuidade dentro da sociedade garantida, apesar da sua idade. E fazendo da sua idade, justamente, a sua importância.

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