Inchaço nas pernas ou braços pode ser sinal de linfedema; saiba quando a cirurgia é indicada
Homens e mulheres podem desenvolver a doença, que provoca acúmulo de líquido e inchaço em diferentes partes do corpo
Saúde em Perspectiva|Do R7

A linfa é um líquido que circula em nosso corpo, responsável pelo controle de volume e combate a infecções, tumores, toxinas. O sistema linfático – que carrega a linfa por todo nosso corpo – é paralelo ao sistema sanguíneo e circula das extremidades para o coração.
Quando há algum distúrbio nesse sistema ocorre o acúmulo de líquido no local levando a um edema. A linfa é rica em proteínas, então isso gera uma inflamação em volta dos vasos que vai causando o depósito de gordura no longo prazo, quando não tratada.
O linfedema pode acometer os braços, pernas, a região da cabeça e pescoço, a região genital, basicamente, qualquer parte do corpo onde haja vasos linfáticos.
E como é que a gente faz o diagnóstico de que é um linfedema?
O diagnóstico é feito a partir da história do paciente e o exame físico que vai detectar esse inchaço que tem características específicas. Esse inchaço vai ser diferente, por exemplo, do lipedema. Mas existem também exames como a linfocintilografia e a linfografia com contraste.
Também pode ser necessária a realização de ressonância magnética linfática para entender, anatomicamente, onde há áreas de obstrução e de extravasamento. O ultrassom de alta frequência pode ser usado para verificar esses vasos mais superficiais e para ajudar no planejamento cirúrgico.
E qual é a causa?
No mundo, a principal causa de linfedema é a infecção por filária, mas ela é mais vista em países como a Índia, alguns países da África e, no Brasil, nos Estados do Norte e Nordeste.
Em países desenvolvidos, onde a infecção por filária é incomum, o tratamento do câncer pode ser a causa mais habitual. Mas é importante frisar que não é o câncer que causa o linfedema e sim quando, em razão de um câncer de mama ou ginecológico, por exemplo, é feita a retirada dos linfonodos.
Vamos por partes.
A filária acontece, no Brasil, pela picada do Culex quinquefasciatus, um tipo de mosquito (pernilongo ou muriçoca) que, quando infectado, deposita algumas larvas e elas se instalam dentro do sistema linfático provocando a filariose que, se não tratada, evolui para uma condição popularmente conhecida como elefantíase.
No caso de pacientes após o tratamento do câncer, quando se tiram os linfonodos, há a fibrose causada pela cirurgia e agravada pela radioterapia. A drenagem piora e dificulta a subida da linfa da extremidade para o centro do corpo.
Quem pode ter linfedema?
A prevalência do linfedema no Brasil não é conhecida com precisão, mas de acordo com dados do Datasus de 2019, tivemos 184 mil casos registrados. Esse número pode ser muito maior em decorrência da subnotificação e deficiência de acesso.
Segundo um levantamento da Fiocruz, 80% dos pacientes são mulheres entre 40 e 59 anos1. Embora não se tenham dados suficientes, é possível associar também o linfedema aos cânceres mais comuns nas mulheres, como os ginecológicos e o de mama.
Quando operar?
Segundo o Dr. Eduardo Montag, cirurgião plástico do Hospital Moriah, especialista no tema, “o tratamento do linfedema é basicamente clínico, mas há pacientes que não respondem ao tratamento e nesses casos é importante associar à cirurgia”. Atualmente as pacientes se beneficiam da fisioterapia especializada, drenagem linfática manual, compressão e uso de laser com LED. Isso tudo é chamado de terapia descongestiva complexa e é o tratamento principal.
A cirurgia se associa a esse tratamento em casos mais refratários. O Dr. Montag explica: “existem duas técnicas para diferentes situações: o bypass desvia o fluxo do sistema linfático para o sistema venoso. Essa é a cirurgia menos invasiva, apesar de ser tecnicamente mais complexa. Casos mais avançados, em que o bypass não pode ser feito podem necessitar do transplante de linfonodos vascularizados2. A lipoaspiração pode ser aplicada em pacientes com linfedema como complemento do tratamento, mas não traz melhora da função linfática”.
No primeiro caso, a paciente pode sair andando logo após a cirurgia e retomar a vida quase normalmente. No transplante, há cuidados extras do ponto de vista da compressão do local por 30 dias e exige outros cuidados. A resposta ao transplante também demora mais tempo para aparecer.
E medicações?
Existem estudos com medicações que são muito promissores. E um estudo experimental usando a metformina – que é um tratamento para diabetes – que tem potencial antifibrótico. Mas trata-se de um trabalho preliminar, ainda em ratos.
Não existe cura cirúrgica do linfedema. A cirurgia ajuda a controlar o quadro e, em que casos iniciais, as pacientes podem não manifestar nunca mais o inchaço. Então, a paciente pode fazer o tratamento clínico, operar, continuar com o tratamento, impedindo assim a progressão do quadro.
Referências
1) Santana JR et al. Perfil de pacientes com linfedema atendidos no serviço de referência nacional em filarioses da Fundação Oswaldo Cruz, Pernambuco, BR. Revista de Patologia Tropical, 2016.
2) Montag E et al. Influence of vascularized lymph node transfer (VLNT) flap positioning on the response to breast cancer-related lymphedema treatment. Rev Col Bras Cir, 2019.
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