São Paulo Da morte de Gegê à transferência de Marcola: o que mudou no PCC?

Da morte de Gegê à transferência de Marcola: o que mudou no PCC?

Na semana que completou um ano da morte de um dos principais nomes da facção, Governo transferiu líderes presos. Especialista diz que pouco mudou

PCC

Gegê do Mangue morreu em fevereiro do ano passado

Gegê do Mangue morreu em fevereiro do ano passado

Reprodução/Rede Record

Um ano depois da morte de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, apontado pelas autoridades paulistas como um dos principais nomes da facção criminosa PCC (Primeira Comando da Capital) nas ruas, a continuidade da organização dentro e fora do sistema carcerário sofreram modificações.

Um dos maiores golpes sofridos pela facção durante todo seu período de existência aconteceu na semana que a morte de Gegê completou um ano. Na quarta-feira (13), 22 presos apontados pelo Governo de São Paulo como líderes do PCC foram transferidos da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista, para presídios federais.

Entre os presos que foram transferidos está Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como o número um da facção. O delegado Everson Contelli, da Polícia Civil de Presidente Venceslau, que investiga crimes ligados à suposta cúpula do PCC, diz que não tem como precisar se os transferidos eram aliados ou inimigos do Gegê do Mangue, porque a morte não foi totalmente esclarecida.

Os 22 presos vão passar os dias em regime mais rígido em presídios federais, podendo ficar até 22 horas trancados isoladamente em celas individuais. A socióloga e professora Camila Nunes Dias, autora do livro PCC: Hegemonia nas prisões e monopólio da violência, “A morte de Gegê do Mangue foi um fato que até hoje não foi bem resolvida dentro do próprio PCC, porque ele foi morto por ordem da própria facção, mas não se sabe exatamente quem foi”.

Por isso, ainda segundo ela, possivelmente não existem ligações entre as transferências dos 22 presos apontados como líderes da facção. A socióloga acredita que “as transferências estão muito mais relacionadas à dinâmica do Estado, a questão política, do que as questões internas do PCC".

Mesmo com as mortes que aconteceram antes (como a de Edilson Borges Nogueira, o Birosca, em dezembro de 2017), junto (como o Fabiano Alves de Souza, o Paca) ou depois de Gegê do Mangue (caso de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, em maio), e as transferências dos presos apontados como líderes da facção, Camila acredita que a facção não sofre grandes enfraquecimentos. “O que diferencia o PCC de outros grupos semelhantes é que não depende de nomes de individuos e, sim, da organização em si”.

Um exemplo disso, de acordo com a socióloga, é que os presos que foram transferidos já haviam passado pelo RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), em Presidente Bernardes, no interior de São Paulo, e isso não abalou a estrutura da facção. “O PCC desenvolveu uma dinâmica que não depende de pessoas específicas, mas de uma rede descentralizada”.

Retaliação

Diferentemente do que aconteceu em maio de 2006, quando o PCC respondeu a possíveis medidas do Governo de São Paulo que iria afetar o sistema carcerário, resultando em dias sangrentos no Estado, mais centenas de mortos e desaparecidos, Cama acredita que agora é "muito díficil acontecer retaliação".

"O momento político e principalmente do próprio PCC é muito diferente. Em 2006, além da resposta ao Governo, foi a primeira vez que o PCC se mostrou fora das prisões, de forma articulada. Em 2001 houve grandes rebeliões, mas foram no sistema carcerário. Em 2003 também houve ataques, mas mais pontuais". 

A socióloga acredita que, desde maio de 2006, o PCC está cada vez mais buscado a invisibilidade. Isso porque, segundo ele, depois daquele episódios, nomes importantes da facção passaram a responder por crimes como homicídio mesmo estando preso e isso teria sido uma forma de intimidá-los a praticar novos ataques.

Na última quinta-feira (14), um dia após as transferências, o R7 teve acesso à um comunicado de autoria atribuída ao PCC que diz que "o momento é de inteligência e não de força". A mensagem afirma que, no momento, a facção não realizaria ataques, no entanto, "será avaliada toda atitude contra nossos irmãos que foram para federal e cada ação terá uma reação".