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Famílias têm de deixar prédio ocupado em Pinheiros após 3 anos

Ocupação Independente Aqualtune, próximo do Largo da Batata (SP), abriga 13 famílias e oferece cursinho pré-vestibular. Justiça decretou reintegração

São Paulo|Kaique Dalapola, do R7

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Entrada da Ocupação Independente Aqualtune, na zona oeste de São Paulo
Entrada da Ocupação Independente Aqualtune, na zona oeste de São Paulo

Esgotaram os recursos na Justiça e o diálogo agora é praticamente inexistente: os moradores de um prédio ocupado há três anos na rua Butantã, a cerca de um km do Largo da Batata, no rico bairro de Pinheiros (zona oeste de São Paulo), precisam sair do local.

“Vamos ter que deixar nossa vida já estabelecida aqui e somos tratados como terroristas por cumprir o papel do Estado de garantir moradia digna para as pessoas”, afirma a porteira e coordenadora da ocupação, Karina Holanda, 39 anos.


Desde quando chegaram no imóvel, em 2016, os moradores da Ocupação Independente Aqualtune conversaram uma única vez com o proprietário. E, segundo a coordenação, não houve nenhum acordo. Portanto, desde então eles travam uma guerra para seguir no prédio.

Nas últimas semanas, no entanto, os moradores foram notificados de que um oficial de Justiça irá, a qualquer momento, levar a ordem de despejo. No dia 31 de abril, uma assembleia informou as 13 famílias que moram no prédio que agora precisam pensar no que fazer.


Uma semana se passou da assembleia, e a fala da moradora Ivone Ferreira Queiroz, 56 anos, segue a mesma linha dos demais ocupantes do prédio: “se sair daqui, não tenho a menor ideia para onde ir. Depois desse papel [da reintegração de posse], nem consigo mais dormir”.

Karina Holanda, coordenadora da ocupação
Karina Holanda, coordenadora da ocupação

Anos de dúvidas


As incertezas de por quanto tempo continuariam na Ocupação Aqualtune fizeram com que a rotatividade de moradores no imóvel fosse alta ao longo desses três anos. “Já chegou a ter 30 famílias aqui, mas vão saindo por não ter nenhuma garantia”, afirma a Karina.

Karina é a primeira moradora do imóvel ocupado. Segundo ela, o grupo de sem-teto o qual integrava entrou no prédio após uma outra ocupação da região sofrer alerta de reintegração.


A desocupação do outro prédio não foi realizada e os moradores voltaram para lá. Com isso, apenas ela seguiu no imóvel da rua Butantã.

Sob a coordenação de Karina, as famílias com situações parecidas a dela iam chegando no local. “Algumas porque não conseguiam pagar aluguel, outras porque passaram por processos de reintegração”, explica a coordenadora sobre quem são os moradores.

Aos poucos, os quatro andares do prédio do antigo Colégio Butantã passaram a ser ocupados novamente. Os três primeiros pisos por moradias e o último é a área comum, com banheiro, espaço para estender roupas e a área que acontecem as aulas do cursinho pré-vestibular.

Karina está na ocupação há três anos
Karina está na ocupação há três anos

Karina passou pelos dois casos mais comuns para se chegar a uma ocupação: não conseguir pagar aluguel ou ser despejada de um prédio ocupado. Na primeira situação, foi quando conheceu um movimento sem-teto no centro de São Paulo.

“Eu não tinha muito conhecimento político, não conhecia a luta por moradia, e pagava aluguel caro em um lugar sem saber que era uma ocupação”, lembra a coordenadora.

Ela afirma que pagava R$ 600 por mês para morar com uma mulher e uma criança em um quarto de hotel ocupado na região da Luz, no centro de São Paulo. O valor do aluguel subiu para R$ 1.000 quando chegaram outras três crianças para morar no mesmo quarto.

A renda que Karina e a outra moradora do quarto tinham não era suficiente para pagar o aluguel. Por isso, elas passaram a ser ameaçadas pelo líder do local e foram obrigadas a sair.

Em busca de um novo lar, se aproximaram de um movimento por moradia no centro e deixaram o hotel para morar em uma ocupação, pela primeira vez, há 13 anos. De lá para cá, Karina já passou por 10 imóveis ocupados — sofrendo algumas reintegrações.

Sem emprego, sem teto

Também foi por falta de condições de pagar aluguel para morar com os sete filhos que Deise da Silva Aline, 40 anos, foi parar na Ocupação Independente Aqualtune.

Nascida na Bahia, ela veio para São Paulo ainda com poucos dias de vida e morou a infância na casa da mãe, na Vila Maria (zona norte).

Quando cresceu, viu que não teria espaço para construir e ser independente no terreno da mãe. Passou a pagar aluguel para sustentar os filhos.

Quando foi mandada embora do serviço, no entanto, não encontrou outra solução para continuar tendo teto a não ser ocupar imóveis que não cumprem a função social.

Aline também está na ocupação desde o começo e afirma que, graças a essa moradia digna e acessível, tem a oportunidade de ser a primeira mulher da família a estudar.

Ela terminou e ensino médio e, com bolsa de estudo, faz curso de auxiliar de enfermagem em uma escola técnica de Osasco (Grande São Paulo).

De dentro da ocupação, viu os filhos mais velhos (de 22 e 20 anos) se tornarem independentes. E os mais novos (de 12 a 17 anos) ganharem bolsa para estudar em um colégio da região. “Se sair daqui não sei o que fazer, só sei que vai desestruturar toda minha família”.

Ivone Queiroz começou morar na ocupação neste ano, e é porteira do local
Ivone Queiroz começou morar na ocupação neste ano, e é porteira do local

“É aqui ou a rua”

A moradora Ivone, que também trabalha de porteira do prédio, afirma que além de teto, o movimento que ocupa o imóvel a ajudou na reconstrução de sua vida.

“Eu cheguei aqui praticamente só com a roupa do corpo, e fui ganhando doações. Hoje trabalho na portaria e lavo banheiro para as pessoas que trabalham fora também, para ajudar na renda”, conta.

Ela é uma das mais novas moradoras da ocupação, chegou apenas neste ano. “É aqui ou a rua, porque voltei para São Paulo sem saber o que fazer e tem a maior dificuldade de todas, que é arrumar um emprego com a minha idade e sem ter estudado”, diz a mulher, que frequentou apenas a primeira série do ensino fundamental.

Antes de chegar na ocupação, ela realizava trabalhos agrícolas no interior de São Paulo, juntamente com o ex-marido, “mas a idade chegou e trabalhar na roça é muito puxado”.

Retornou para a capital paulista na tentativa de reconstruir novamente a vida. Ficou na casa de uma amiga até ser indicada para procurar a liderança da Aqualtune.

Não passou por nenhum tipo de problema para ser aceita para morar no prédio. Agora, está prestes a perder os serviços que presta na ocupação e ficar, pela primeira vez desde seus 8 anos de idade, sem trabalhar — e sem morar.

Difícil adaptação

Regras de limpeza na ocupação
Regras de limpeza na ocupação

Conforme a coordenadora da Aqualtune, o relacionamento entre os moradores da ocupação e a vizinhança melhorou muito ao longo dos anos.

“No começo, o pessoal da vila não gostava da gente, porque achavam que erámos vagabundos. Mas conquistamos mostrando que aqui só tem família e seguimos regras”, afirma Karina.

Agora, Karina afirma que os moradores vizinhos frequentam eventos que acontecem na ocupação e tentam ter uma convivência mais saudável.

Mas a aceitação não foi completa, conforme afirma Ivone: “Quando estou andando por aqui pelas ruas e alguém me vê, até muda de calçada. Eu fico pensando se estou fedendo. Mas acho que é por causa que sou preta”, diz a moradora, que emenda perguntando “como é mesmo nome disso”. “Racismo”, responde Karina.

Além de todas questões de conseguir novo teto, a coordenadora da ocupação destaca que as crianças devem sofrer na adaptação caso saiam do prédio.

“Mudar de escola é sempre difícil. Falar para os novos amiguinhos que moram em ocupação e não são vagabundos, é bem desgastante”, diz a coordenadora.

Ocupar em SP

Conforme os relatos dos moradores da ocupação, a gestão Bruno Covas (PSDB) tem dificultado a manutenção das ocupações em São Paulo e a entrada de sem-teto em prédios abandonados.

A intensificação na fiscalização e combate aos movimentos populares que buscam por moradia, no entanto, começou ainda com João Doria (PSDB) prefeito, logo após a queda do prédio do Paissandu, em maio do ano passado.

Após a tragédia que deixou, oficialmente, sete mortos, começou uma série de fiscalização aos prédios do centro de São Paulo.

Segundo a prefeitura, na primeira fase de vistorias, finalizada em agosto, 75 imóveis foram visitados, sendo que 51 deles estavam ocupados.

“Destes, 35 são prédios particulares e, nestes casos, embora o Município não possa intervir diretamente, busca solução para diminuição dos riscos junto aos proprietários e famílias”, disse a nota da Sehab (Secretaria Municipal de Habitação).

Leia também: Após 1 ano, moradores do Paissandu cobram promessa de Prefeitura

Para as outras 16 ocupações, a secretaria afirma que o município tem proposta de intervenção para transformar 11 delas em moradia popular ou equipamento público.

“Para estes casos, a Prefeitura iniciou negociação com a Caixa Econômica Federal para agilizar a análise dos projetos e busca recursos junto ao Governo Federal para revitalização desses prédios”, afirma.

A primeira fase de visitas também resultou, ainda segundo a pasta, na criação de um “grupo permanente que atua com plano de trabalho a longo prazo no sentido de propor medidas para mitigar os riscos nesses locais”.

De acordo com a secretaria, desde a criação do grupo, quatro prédios já foram interditados e outros três foram desocupados por decisão judicial de reintegração de posse.

A pasta afirma que iniciou, em dezembro do ano passado, a segunda fase de vistorias, que pretende fiscalizar a execução das recomendações feitas nos prédios durante a primeira fase.

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