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Queda de avião: pressão de empresas é fator para depressão de pilotos

Segundo especialista, questões mercadológicas ainda prevalecem e geram estresse

Saúde|Eugenio Goussinsky, do R7

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Profissão de piloto é uma das que mais exigem preparo mental
Profissão de piloto é uma das que mais exigem preparo mental

As afirmações dos investigadores, de que a queda do voo da Germanwings nos Alpes franceses foi causada deliberadamente pelo copiloto Andreas Lubitz, chocaram o mundo. E colocaram em xeque a própria estrutura que prevalece no cenário mundial da aviação.

A profissão de piloto é uma das que mais exigem preparo, físico e mental, dos profissionais, mas, segundo especialistas questionados pelo R7, os fatores emocional e psicológico ainda não são devidamente valorizados pelas companhias aéreas.


Para o psicólogo Virgínio Pereira Neto, muitas delas, principalmente no Brasil, exigem uma produtividade sobre-humana dos pilotos, atendo-se muito mais às questões técnicas e mercadológicas do que as de qualidade de vida.

— Trata-se de uma questão delicada, as empresas veem os pilotos como máquinas, que devem dar o máximo de produção, mas se esquecem de fragilidades humanas que podem comprometer o trabalho e até esta produtividade. Os funcionários precisam de tempo para lazer, para recompor as energias. Esquece-se de que quem é responsável por muitos seres humanos também é um ser humano.


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Neto observa que, do ponto de vista psicológico, em indivíduos que não tiveram questões da infância bem resolvidas, os problemas tendem a vir à tona na fase adulta, se ele é cobrado excessivamente ou vive um esgotamento físico e mental.

— Em situações assim o indivíduo pode até ter atitudes e comportamentos irresponsáveis, pois, pela falta de uma melhor estrutura emocional, ele não tem suficiente conhecimento de si, de suas limitações e confunde valores familiares, pessoais e sociais.


Em relação à legislação trabalhista, o psiquiatra Isidoro Cobra ressalta que, na grande maioria dos países, não há normas rígidas ou claras para pessoas com tratamento de depressão atuarem em profissões estratégicas como piloto, médico, policial armado e motorista de coletivos.

— Nestas profissões, podem muito bem acontecer casos de surtos. O conhecimento em Saúde vem evoluindo gradativamente. Até 80, 100 anos atrás, pessoas deprimidas eram até vistas como demoníacas. Mas há países que passaram a valorizar mais do que os outros a questão psicológica. Ainda não é algo unânime.

Segundo Cobra, casos de depressão têm como um dos sintomas a baixa autoestima dos indivíduos, o que em geral os direciona a pensamentos suicidas.

— Em torno de 70% das pessoas com depressão já tiveram pelo menos uma ideação (formação de ideia) suicida. A ação depende também de outros fatores da personalidade e ambientais.

No caso de o copiloto ter sido propositalmente responsável, Cobra vê outro aspecto além do suicida.

— Em relação à culpa do copiloto, é tudo uma hipótese. Mas haveria aí um certo grau de psicopatia. Ele teria feito o planejamento, sabia que havia mais de 100 vidas a bordo. Certamente teria algum desvio de personalidade.

Tratamento

Como solução, Cobra afirmou que a ingestão de antidepressivos tiraria o copiloto deste estado dramático de depressão, mas o processo não é imediato, demorando de oito a 15 dias para que os medicamentos comecem a agir.

O psicólogo Neto destaca que a Psiquiatria aborda estas questões de uma maneira mais médica, buscando compreender a depressão a partir de sintomas de uma doença. Já a Psicologia, segundo ele, considera mais a depressão pelo aspecto da dificuldade de relacionamento, de aceitação e da busca do autoconhecimento.

— De qualquer maneira, ambas buscam analisar o histórico da pessoa.

Neste sentido, Cobra não se apega totalmente ao tratamento via medicação. Ele considera a terapia uma outra solução importante.

— Uma maneira de se prevenir casos deste tipo é a implementação, em toda a empresa de aviação, de uma terapia em grupo para todos os pilotos e copilotos, pelo menos uma vez por semana. Um bom profissional detectaria com facilidade este tipo de anormalidade (atribuída ao copiloto).

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