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Brasil de opostos: como é viver nas cidades mais e menos conectadas do País?

São Caetano do Sul e Santo Amaro do Maranhão expõem contrastes tecnológicos do País

Tecnologia e Ciência|Por Raphael Andrade, do R7

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Cidades conectadas já são uma realidade, mas ainda há municípios totalmente offline no País
Cidades conectadas já são uma realidade, mas ainda há municípios totalmente offline no País

No bairro Barcelona, em São Caetano do Sul (SP), a manhã tem início às 10h para o estudante Giovane Improta, de 21 anos. Logo ao acordar, ele checa as mensagens no celular e, se está com tempo, joga algum game que tem instalado no aparelho. Depois de levantar, Giovane toma banho, vê TV enquanto se troca e responde alguma mensagem que tenha chegado no seu Moto X, sem se esquecer de olhar se o dia irá esfriar no app de tempo. Feito isso, ele sai de casa rumo à faculdade, quando o relógio já marca quase meio dia.

A 2.377 km dali, na cidade de Santo Amaro do Maranhão (MA), o dia começa mais cedo para o funcionário público Mauro Sousa, de 27 anos. Às 7h30, Mauro levanta e já troca de roupa, para depois tomar café da manhã. Como trabalha perto de casa, ele vai a pé para o serviço e só volta perto do almoço, às 13h. Nessas quase seis horas, Mauro só utiliza o celular uma única vez, como despertador.


Giovane e Mauro exemplificam a grande diferença no perfil dos moradores de São Caetano do Sul e Santo Amaro do Maranhão, cidades com maior e menor índice de acesso à internet no Brasil, respectivamente.

Os dados vêm de um estudo de 2010 feito pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas em parceria com a Fundação Telefônica. A pesquisa tinha como objetivo mapear o acesso digital em diferentes regiões do Brasil.


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Com uma diferença acentuada no acesso, a relação dos moradores com a tecnologia nos dois municípios é bem diferente.


Centro Digital de São Caetano oferece cursos de informática e robótica
Centro Digital de São Caetano oferece cursos de informática e robótica

São Caetano do Sul, em São Paulo, é a cidade com o maior número de computadores conectados à internet, com 74%. Grande parte do acesso pode ser feito diretamente da casa dos moradores sul-caetanenses, realidade inversa do município do Maranhão, como explica Mauro.

— O acesso é muito limitado aqui. A cidade tem em média 4.000 famílias, e dessas 4.000 só umas 300 pessoas possuem internet em casa.


O relato de Mauro reflete no Estado. O Ministério das Comunicações aponta que apenas 9,8% da população do Maranhão tem acesso à internet, ou seja, só 670 mil do total de quase 7 milhões de pessoas no Estado. Em Santo Amaro do Maranhão, a média de acesso é inexpressiva e registra 0% no ranking da FGV com a Telefônica.

Para acessar a internet, a maioria dos 15.375 habitantes utilizam pacotes de dados da operadora Oi, única empresa de telefonia que atende a cidade, pois não existe a infraestrutura de internet necessária. Além disso, o único telecentro do município, que fica na região central, oferece apenas conexão via rádio, que está sujeita a perda de sinal por conta das variações climáticas da região.

Assim, é comum andar por Santo Amaro à noite e encontrar as calçadas cheias de jovens com os olhos grudados na tela do smartphone. Eles aproveitam o Wi-Fi gratuito disponibilizado por algumas pousadas, tipo de estabelecimento presente em grande quantidade no município. Esta é a única forma que os moradores sem acesso a pacote de dados encontram para utilizar a internet.

São Caetano do Sul (SP) é a cidade com maior índice de acesso à internet no Brasil
São Caetano do Sul (SP) é a cidade com maior índice de acesso à internet no Brasil

A situação em São Caetano do Sul é diferente. Nas filas da padaria, no transporte público, nas escolas e até no meio da rua, é fácil encontrar alguém com um celular na mão assistindo algum vídeo, em meio a uma conversa ou preparando-se para postar uma selfie no Instagram. Quase todos os estabelecimentos também oferecem gratuitamente conexão sem fio. Difícil mesmo é achar alguém que não usa alguma rede social.

Giovane estima que passa cerca de 5 horas na frente do computador, sem contar o uso do WhatsApp e Netflix que aumentam esse tempo em mais algumas horas.

— Fico o dia todo conectado, até quando não estou muito no clima. Na vida cotidiana é quase inconcebível ficar sem internet.

Por outro lado, Mauro já aprendeu que não pode contar com a conexão de Santo Amaro. Cursando administração pela UEMA (Universidade Estadual do Maranhão) em esquema de EAD (ensino à distância), o funcionário público se esforça para conseguir acompanhar o ritmo do curso.

— É muito complicado, temos vídeoaula e webconferências no curso. Mas, por conta da velocidade da internet, não consigo assistir às aulas ao vivo nem pelo celular. A única coisa que posso fazer é tentar pegar a matéria com algum colega de curso, nem sempre dá.

Telecentro de Santo Amaro do Maranhão (MA) funciona em uma pequena casa
Telecentro de Santo Amaro do Maranhão (MA) funciona em uma pequena casa

Problemas (e soluções?)

O Secretário Adjunto de Tecnologia da Informação do Maranhão, Nélio Guilhon, reconhece os problemas de infraestrutura enfrentados pelo Estado, mas justifica-os pela falta de interesse das empresas de comunicação nas cidades maranhenses.

— As operadoras quando vão investir em uma área querem o retorno financeiro rapidamente e nas cidades pequenas não há possibilidade de um retorno rápido, por isso elas não têm interesse em investir no Maranhão.

Para tentar reverter esse quadro, o governo do Estado planeja para o início de 2016 a implantação do projeto Navega Maranhão, que pretende levar banda larga de alta velocidade para as cidades maranhenses por meio de infovias de fibra ótica.

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O projeto deve criar uma estratégia para atrair operadoras de telefonia. A ideia é que as empresas instalem filiais no Estado e invistam na comunicação local. O primeiro passo do plano é a parceria do governo com a Eletronorte, empresa do setor elétrico que deve ajudar na expansão das redes de internet no Maranhão. A parceria é estratégica, uma vez que a empresa elétrica já possui uma malha de fibras no Estado. A Telebras também deve participar das operações.

— O Governo não quer competir com as empresas, queremos incentivar o aumento das empresas, por isso fizemos a parceria com a Eletronorte, para trazer as empresas de comunicação para mais perto de nós.

Santo Amaro do Maranhão (MA) é a cidade com menor índice de acesso à internet no País
Santo Amaro do Maranhão (MA) é a cidade com menor índice de acesso à internet no País

Outro problema que afeta Santo Amaro é sua localização. Além do difícil acesso, mais da metade do território da cidade é composta por mata, lagoas e dunas de areia, dificultando a instalação do cabeamento de fibra - que não é o padrão no Estado do Maranhão.

Segundo o secretário, o Navega Maranhão está dividido em várias fases. A primeira está orçada em R$ 20 milhões.

A Secretaria de Comunicação do Estado, junto da Secretaria de Ciências e Tecnologia, tem outros projetos em fase de elaboração que visam diminuir o atraso tecnológico do Maranhão em relação ao resto do Brasil. A reportagem do R7 solicitou mais informações sobre estes projetos, mas a assessoria de imprensa do Maranhão disse que as propostas ainda estão em fase muito inicial para serem divulgadas. Segundo Guilhon, no ano passado o governo não investiu em tecnologia e internet.

Essa deficiência na conectividade do Estado é resultado de uma política fragmentada de inclusão digital, afirma o professor da Universidade Federal do ABC e doutor em ciência política, Sérgio Amadeu. Na visão dele, o Plano Nacional de Banda Larga não foi colocado em prática. Além disso, Amadeu pontua a falta de interesse das empresas de telefonia por certas áreas brasileiras. Juntas, essas duas situações ocasionam a baixa qualidade no serviço de internet em diversos locais do Brasil.

— A politica de aplicação de infraestrutura de acesso à internet se chama Plano Nacional de Banda Larga e foi anunciada na gestão do ex-presidente Lula com poucos resultados. Atualmente, esse plano se encontra muito parado e não tem cumprido suas metas, o que acabou deixando a conectividade do Brasil nas mãos das empresas de telefonia.

Um dos fatores que atrapalha a chegada da internet de banda larga em Estados mais carentes, principalmente em locais no Norte e Nordeste do País, é a falta de cabeamento de fibras.

— Temos um grave problema de acesso à internet de qualidade porque não temos uma infraestrutura adequada e o custo do megabyte no Brasil é um dos mais elevados do mundo.

Presença da conexão de internet no Sudeste do País é de 61%
Presença da conexão de internet no Sudeste do País é de 61%

Realidade diferente

Voltando para o universo conectado da cidade da Grande São Paulo, o secretário de comunicação de São Caetano Fernando Scarmelloti explica que no município do ABC, a escola é o principal ponto de acesso à internet para a população. As ações para permitir que os alunos estejam sempre conectados são constantes.

— São vários investimentos que foram feitos nos últimos anos na questão da educação principalmente. Todas as escolas são informatizadas, temos o centro digital, cursos de informática e bibliotecas públicas. A prefeitura também entrega tablets quando o aluno conclui o ensino fundamental.

Nas salas de aula de São Caetano, são cerca de 6.300 tablets para utilização, além de quase 1.500 alunos participantes das aulas de informática oferecidas pelo município. O centro digital, local onde os moradores da cidade podem acessar à internet e fazer cursos, atendeu 6.229 pessoas de janeiro até outubro deste ano.

Crescimento da disponibilidade de internet no País pode aumentar também o PIB (Produto Interno Bruto)
Crescimento da disponibilidade de internet no País pode aumentar também o PIB (Produto Interno Bruto)

Daqui para o futuro

No futuro, São Caetano planeja ampliar os pontos de acesso à internet em alguns locais da cidade, disponibilizando conexão sem fio gratuita.

Já Santo Amaro do Maranhão tem necessidades mais básicas: questões de mobilidade devem ser resolvidas antes da ampliação do acesso à rede mundial de computadores, afirma Guilhon.

— As tecnologias que chegam a cidade vêm via radio. Agora, o governo assinou um convênio para a construção das rodovias, e as estradas irão permitir a chegada da tecnologia de fibra. Em cada região do Maranhão está sendo estudado qual o tipo de sinal de internet será mais adequado. Santo Amaro está na lista de prioridades porque é uma região que precisa muito de internet [por conta de sua localização turística].

A conexão do município pode ajudar no aspecto financeiro da cidade e do Estado. Amadeu, explica que cada vez mais as pessoas vão consumir dados, o que acaba sendo revertido em verba.

— A Coréia do Sul, por exemplo, teve grandes ganhos no PIB (Produto Interno Bruto) com a expansão das redes de alta velocidade. Não dá para dizer que nós não temos demanda. Está aumentando cada vez mais a necessidade de consumir uma quantidade grande de informação. No lugar de levar 50 mil livros, em uma biblioteca física, para uma cidade muito pobre do Brasil, seria muito mais barato levar a conexão de banda larga e ter um processo de digitalizar essas obras.

Guilhon está otimista em relação a Santo Amaro e todo o Estado do Maranhão.

— Com certeza o interesse deve aumentar. O Estado fazendo inicialmente o investimento na área de comunicação, as empresas poderão aproveitar e vir para cá. Será uma situação boa para todos.

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