Repórteres locais para uma guerra sem jornalistas na Síria
Jornalistas-cidadãos, espalhados pela Síria, dão a perspectiva do que ocorre no país
Internacional|Do R7

Em uma guerra na qual quase não há jornalistas no local, um grupo de ativistas sírios se propôs a dar informações da forma mais profissional possível através da revista Enab Baladi, que chega a leitores do norte do país e no exílio.
O que começou há pouco mais de três anos como um projeto com dez jornalistas-cidadãos em Daraya, na periferia de Damasco, foi crescendo até se transformar em uma publicação em papel e online com 30 pessoas espalhadas por toda a Síria e um estrangeiro.
Sua tiragem semanal é de sete mil exemplares, sendo cinco mil distribuídos na metade norte do território sírio e dois mil em Istambul e no sul da Turquia, onde a equipe tem um escritório. O diretor-executivo Amer Mahdi Doko ainda lembra o lançamento em janeiro de 2012.
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"Queríamos oferecer uma perspectiva do que ocorre realmente no país, não do ponto de vista da propaganda do regime, porque na Síria não havia jornalismo independente, tudo é regime", afirmou Doko à Agência Efe em uma conversa realizada através da internet. Enab Baladi, que significa "as uvas do meu país", faz referência direta a Daraya, terra de origem dos fundadores.
"Buscávamos um nome que representasse nossa identidade como indivíduos de lá, e Daraya é muito conhecida por suas uvas. Quando mencionamos a cidade na Síria sempre perguntam pelas uvas, que são muito boas", explicou. O nome também remete à "revolução" contrária ao regime de Bashar al-Assad, porque a Síria "é considerada um horto com diferentes frutos".
Mesmo assim, Doko defende que o enfoque da revista é "neutro", já que o objetivo é "oferecer uma imprensa livre" ao público sírio, sem influência de ideologias ou afiliações partidárias.
Por este motivo, tentam cobrir cada canto do país, embora "as zonas do regime sejam difíceis porque os repórteres são alvo das forças governamentais". De fato, três membros de sua equipe morreram quando cobriam ações de soldados de Assad.
Uma questão a parte é trabalhar nos domínios do grupo terrorista Estado Islâmico (EI). Em Deir al-Zour, uma província quase totalmente conquistada pelos jihadistas, a Enab Baladi tem um repórter, que tem sérias dificuldades para se comunicar com os colegas por conta da situação de segurança.
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"Nesses lugares, estamos presentes através da nossa rede de amigos para informar o que acontece, mas é difícil porque (os radicais) são violentos com quem envia notícias", contou Doko. Os temas que a publicação aborda são os mais variados, já que a prioridade é "escrever sobre qualquer coisa que afete os sírios no momento atual".
Dessa forma, na mais recente edição há artigos sobre a explosão da prisão de Palmira realizada pelo EI, os últimos ataques da aviação militar e a história de uma adolescente campeã de tênis de mesa, que jogará com a seleção da Turquia após refugiar-se nesse país.
Os repórteres recebem capacitação de organizações internacionais que apoiam a iniciativa, como a Internews Europe, a holandesa Free Press Unlimited e a francesa Association de Soutien aux Médias Libres (ASML). Justamente as ajudas destas ONGs que permitem que a Enab Baladi seja gratuito e que seus funcionários, que começaram como voluntários, recebam uma pequena compensação financeira.
Uma característica interessante da "Enab Baladi" é que 40% de seu quadro de funcionários é composto por mulheres. "Quando começamos, queríamos que houvesse representação de todos, e em Daraya havia muitas mulheres ativistas que desempenharam o trabalho muito bem", elogiou Doko.
O resultado deste esforço são mais de 170 edições de uma revista publicada ininterruptamente nos últimos três anos, exceto na semana "em que as forças de Assad invadiram Daraya". Doko está satisfeito com o trabalho desenvolvido, mas quer mais. "De acordo com o perfil de meios sírios da 'BBC', a 'Enab Baladi' está entre as cinco principais publicações da Síria. As outras quatro são do regime.
O que conseguimos até agora é bom, mas não é suficiente. Queremos nos tornar uma publicação local reconhecida, respeitada e profissional", comentou. Nesse sentido, querem apontar mais alto "para se transformar em uma janela para um diálogo público sobre diversos assuntos entre os sírios".









