Cientes de provável disputa judicial, ativistas pensam em projeto para o Parque Augusta
Movimento a favor da nova área verde no centro de SP faz planos e projeta marco histórico
São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

Sancionado pelo prefeito Fernando Haddad em decreto publicado nesta terça-feira (24), o Parque Augusta deixou de ser um desejo de ativistas e moradores do centro de São Paulo para se tornar uma realidade. Contudo, muito pouco se sabe sobre como será desenvolvida essa nova área verde e em quanto tempo. Quem luta há mais de dez anos pelo espaço sabe disso e já faz planos para projetar o uso da área.
Feliz e com “um peso a menos nas costas”, segundo suas próprias palavras, o produtor cultural Sérgio Carrera, fundador do grupo Aliados do Parque Augusta, conversou com a reportagem do R7 nesta terça e exaltou que a luta valeu a pena. Entretanto, ele mesmo reconheceu que uma “grande batalha foi vencida”, mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido, a começar por como será concebido o parque.
— Até estabelecer tudo, o próprio parque, quais as características que ele vai ter, nós vamos ter que conquistar para que ele mantenha o máximo da integridade daquilo ali, do jeito que ele é, com aquela atmosfera, porque tem de tudo. As pessoas querem fazer pontinhos de cultura, de skate, daqui a pouco até quadra de futebol, e não é isso. Ali a grande característica do Parque Augusta é aquela área de pausa, respiro, enfim, de todo esse turbilhão, de tudo de muito que temos em São Paulo. Ali o menos é o mais.
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A área, de 24.752 m², situada entre as ruas Augusta, Caio Prado e Marquês de Paranaguá, pertence ao ex-banqueiro Armando Conde, desde 1996. O espaço foi adquirido de empresas japonesas e só não se transformou em torres comerciais ainda porque o decreto nº 49.922, de 18 de agosto de 2008, assegura que o terreno é de utilidade pública e destinado à implantação de um parque municipal, desde que haja desapropriação, por meio da Justiça, ou um acordo para aquisição do terreno.
Antes da sanção de Haddad, o parque concorria com dois prédios, planejados pelas incorporadoras Setin e Cyrela. Atualmente, a mata atlântica do local abriga dois estacionamentos. Com a decisão municipal, terá início um processo de desapropriação, e é aí que reside o problema. Em 2009, uma avaliação da gestão Gilberto Kassab avaliou a área em R$ 55 milhões, mas o dono acredita que a área valha pelo menos o dobro. Isso leva a crer que deve se desenrolar uma disputa judicial, já que não há previsão orçamentária definida pela prefeitura para a aquisição da área. Anteriormente, esse era o motivo de Haddad se mostrar resistente à ideia do Parque Augusta.
Enquanto essa possibilidade esteja no raio de atenção dos ativistas e moradores, eles esperam poder usufruir da área de maneira mais ativa, algo no momento bloqueado pela presença de portões e seguranças no local. O fato da existência de um item registrado em cartório, que determina que a área deve ser de livre uso da população, datada dos anos 70, é o que mantém o otimismo dos frequentadores, que pregam a manutenção de uma conduta pacífica, sem conflitos.
— Nós já estávamos recorrendo a advogados, por conta desses bloqueios, fechando com portões, dificultando o acesso, porque a servidão de passagem está determinada na escritura. Inclusive, na mais recente sumiu e não se sabe porque, já que isso é ilegal, e está determinado que a população pode usufruir daquele espaço, seja de quem for. Já é uma ilegalidade o que estão fazendo, não poder entrar ou colocar um portão. Fica claro que estão querendo cercear a entrada das pessoas para usufruir daquele espaço.
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A reportagem do R7 procurou as incorporadoras Setin e Cyrela para comentar a sanção do novo parque, mas não obteve retorno. O ex-banqueiro Armando Conde também não foi localizado até a publicação desta matéria.
Ativistas sugerem aumento do verde e integração social
Chamado de “Espaço de Integração do Homem com a Natureza”, o projeto dos ativistas para o Parque Augusta se baseia na manutenção e aumento da área verde no terreno e o aproveitamento das edificações já existentes para iniciativas voltadas ao meio ambiente e à integração social. Além disso, a sugestão é de que o parque tenha uma autogestão, ou seja, com ampla participação popular sobre a administração da área.
— Temos um projeto que é aproveitar o máximo do que tem ali e usufruir daquilo ali, criando, por exemplo, um espaço de integração do idoso em uma das instalações que já existe lá, uma casinha que tem lá ser um centro de referência do meio ambiente, com tudo sobre o tema e uma biblioteca também, falando sob obter e descartar produtos recicláveis, tudo relacionado a isso. Isso fora as trilhas, você passear ali, inclusive já acontece aula de tai chi pelas manhãs ali, o que é muito bacana, eu mesmo faço. O espaço é para isso.
Sérgio Carrera é crítico acerca de outras ideias já ventiladas por movimentos favoráveis ao parque.
— Ouvi falar sobre fazer festival de teatro, poxa, a gente tem aqui o polo teatral na praça Roosevelt, temos dois teatros na avenida Augusta, para que mais teatro, mais cinema? Para que shopping? O que não temos é verde e área livre para respirar, para conectar com a gente mesmo, e compartilhar, se conhecendo.
O fundador do grupo Aliados do Parque Augusta aproveitou a oportunidade para prestar solidariedade e apoio a outros grupos espalhados pela cidade que pleiteiam a criação de novos parque em São Paulo, como o movimento que quer uma nova área onde hoje fica a Chácara do Jockey, na região do Butantã, na zona oeste da capital. Para ele, a conquista do Parque Augusta é “um marco histórico” e deve conferir ao cidadão ainda mais poder nas tomadas de decisões sobre a cidade que a população quer para si.
— É a força da população, é o exercício da cidadania que nos faz ter força, coragem e determinação para conquistar aquilo que é bom para a gente. As coisas não podem mais vir de cima para baixo, estamos vivendo um novo momento, um novo movimento mundial de transformar as cidades voltadas para o indivíduo. As cidades precisam ser mais humanas. Esse tal de progresso a qualquer preço, colocando em risco a vida humana no planeta, que está indo pelos ares, não dá mais. Essa é a mensagem. O cidadão precisa acreditar que ele pode, que ele consegue e precisa ter convicção dos seus direitos.













