Joaquim foi morto enquanto dormia, diz promotor
Marcus Tulio Nicolino sustenta a tese de que criança foi vítima de superdosagem de insulina
São Paulo|Ana Cláudia Barros, do R7

Promotor de Justiça do caso Joaquim, Marcus Tulio Nicolino sustenta a tese de que o menino, de três anos, foi morto enquanto dormia. O representante do Ministério Público está convicto de que o técnico em informática Guilherme Raymo Longo, 28, padrasto da vítima, aplicou uma superdosagem de insulina na criança. Longo e a mãe de Joaquim, a psicóloga Natália Mingoni Ponte, 29, foram denunciados por homicídio triplamente qualificado. O acusado, que está preso, responde ainda por ocultação de cadáver. Ambos já são considerados réus.
Em entrevista ao R7, Nicolino falou sobre como teria sido a dinâmica do crime, discutiu a personalidade do técnico de informática e explicou o papel de Natália na morte do filho. Nesta segunda-feira (27), a Justiça de São Paulo negou o pedido de trancamento do processo contra a psicóloga.
O corpo do menino foi encontrado boiando no rio Pardo, em Barretos, no interior de São Paulo, no dia 10 de novembro do ano passado. A criança havia desaparecido de dentro de casa, em Ribeirão Preto, na mesma região, cinco dias antes.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
Omissão
“Desde o início, eu dizia e continuo defendendo a tese de que ela foi omissa, porque ela tinha totais condições de saber que estava convivendo com uma pessoa de caráter deformado, com uma pessoa violenta, com uma pessoa viciada em drogas e que já havia demonstrado que não gostava do menino [Joaquim]. Já havia, inclusive, ameaçado jogar contra a parede o filho mais novo do casal, de apenas quatro meses de idade. Dizia constantemente que a criança era um pedacinho do ex-marido dela”.
“Ele [Longo] ameaçava a Natália, a agrediu fisicamente. O menino, ele ainda não tinha agredido fisicamente, mas tomava algumas atitudes, como por exemplo, em uma certa oportunidade, colocou a criança à força debaixo do chuveiro, com roupa e tudo”.
Participação de Natália
“Nós não encontramos provas da participação dela, a não ser com relação a sua omissão. Agora, que ela tenha ajudado o Guilherme, nós não encontramos evidências nesse sentido. E ele mesmo descarta isso. Diz que ela estava dormindo”.
Ciúme
“O menino foi morto na madrugada do dia 5 [de novembro]. No dia 4, Natália passou o dia todo com o filho no hospital, porque ele havia tido uma elevação, acho que da taxa de insulina. Guilherme havia ingerido 10 ou 12 comprimidos de um sonífero, não para se matar, mas para mostrar para Natália que não estava contente com o tratamento que ela dispensava para ele, com ciúme do menino. Ele [Longo] passou o dia todo internado em um hospital. À noite, ao invés de ela, diante deste quadro, se precaver, ir para a casa dos pais ou tirar a criança, não, ela voltou para a casa, ele [Longo] também voltou, e Natália simplesmente foi dormir. Deixou o menino a sós, à mercê do Guilherme, que já vinha trazendo aquele sentimento negativo”.
Histórico de agressividade
“Uma pessoa desequilibrada [Longo]. Já havia dado mostra nas clínicas de recuperação de viciados pelas quais ele passou. Ela era uma psicóloga e tinha condições de saber que tudo aquilo poderia resultar no que resultou. Ela lidou com o Guilherme na clínica de dependentes. Sabia de reclamações de internos de que ele era agressivo, de que era um sujeito complicado”.
Acusação de homicídio
“Se ela tivesse tomado todas as cautelas, o menino não teria sido morto pelo Guilherme”.
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Superdosagem
“Esta é uma prova forte, em que nos apoiamos para denunciar o Guilherme. Ele foi até à farmácia e comprou cinco ampolas de insulina rápida. O menino usava muito pouco essa insulina rápida. Três ampolas a polícia apreendeu. E uma quarta, semiconsumida. Uma quinta estava desaparecida. Depois, a polícia, diligenciando na casa, encontrou a quinta ampola, que estava cheia também. Agora, se pegar a que estava semiconsumida — e tem como saber o histórico das aplicações que foram feitas no menino —, estavam faltando mais de 170 doses. Foi exatamente esta quantia que ele aplicou na criança”.
Coma
“Quando se aplica uma dose de insulina rápida, a criança perde a consciência e já evoluiu para o coma. Então, a criança deve ter morrido entre cinco e dez minutos depois da aplicação dessa dose”.
“O homicídio é triplamente qualificado: meio cruel, motivo fútil e recurso que impossibilitou a defesa do Joaquim, porque o menino foi morto dormindo. Com aquela agulhinha, é quase que imperceptível [a aplicação]. O menino não sentiu”.
Autoaplicação
“Ele [Longo] também fala uma hora duas doses, outra hora, 30. Mesmo que ele tivesse aplicado essa quantidade nele, faltariam aquelas tantas doses que foram aplicadas no menino. E quando você faz a aplicação, não há desperdício”.
Excesso não detectado
“Já era esperado, porque a insulina é uma substância que se processa rápido no organismo. O corpo foi encontrado cinco dias depois, já em avançado estado de putrefação. Então, era normal que não se achasse nada [no exame feito em tecidos do corpo de Joaquim]”.
Ajuda para descartar o corpo
“Não acredito. Pela forma como ele mesmo narrou. É lógico que ele não confessou. Pelas atitudes que ele tomou naquela noite, nós acreditamos que ele tenha colocado o menino nos braços, era uma noite chuvosa, ele usou um guarda-chuva para cobrir o corpo do menino e se proteger. Da casa até o córrego, não temos uma distância maior do que 100 metros. Ele desceu aquela rua. O córrego não é muito grande, mas naquela noite, o volume de água era muito forte em razão das chuvas e lá ele descartou o corpo do menino”.
Alegação de inocência
“Sempre com a mesma postura, sempre distante, sempre negando de forma não convincente. Ele nega e não dá explicação. Diz que pode ser que alguém tenha entrado [na casa], que pode ser que alguém tenha sequestrado. As coisas mais absurdas e vagas possíveis”.
Defesa preliminar
“A denúncia foi recebida [pela Justiça]. Eles já viraram réus no processo. Agora, tem uma fase em que eles apresentam a defesa preliminar. Podem arrolar testemunhas, fazer a requisição de perícias. Depois da defesa preliminar, o juiz vai marcar audiência para serem ouvidas as testemunhas de acusação e de defesa”.
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Mãe em liberdade
“Ela está solta em razão de uma liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo, um habeas corpus [...] Não sei [se retorna para a cadeia]. É difícil fazer uma previsão. Sempre defendi a tese de que se não fosse a omissão dela, não só com relação ao crime, mas também com relação às informações que poderia ter prestado à polícia e ao Ministério Público no começo, nós teríamos conseguido evidências maiores. Ela só foi falar dessa personalidade agressiva do Guilherme, desse ciúme que ele tinha da criança, enfim, de todo esse histórico negativo recente do casal, quando o corpo do menino foi encontrado, cinco dias depois”.
Pena em caso de condenação
“A pena de homicídio qualificado vai de 12 a 30 anos. Depende do que o juiz vai entender, da intensidade do dolo com que eles agiram, das qualificadoras que vão ou não ser reconhecidas. Mas se reconhecidas todas as qualificadores que o Ministério Público articulou na denúncia, a pena, com certeza, passará de 20 anos, para cada um. No caso do Guilherme, vai ter um crime a mais [ocultação de cadáver] e uma intensidade maior, porque foi ele que executou. Entendo que a pena da Natália deva ser menor do que a dele, embora entenda que ela tem que ser responsabilizada penalmente”.













