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Brasil busca novos parceiros para minerais críticos enquanto resiste a acordo com os EUA

Impasse em fechar negócio com os Estados Unidos se dá pela tentativa dos americanos de moldar a cadeia mineral brasileira

Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O Brasil está negociando acordos sobre minerais críticos com Coreia do Sul, Índia e Espanha, enquanto resiste a um pacto com os EUA.
  • O presidente Lula afirma que o país deve controlar sua riqueza mineral e explorar suas terras raras para potencializar sua economia.
  • Especialistas alertam que a proposta dos EUA visa moldar a cadeia mineral brasileira para garantir acesso preferencial em meio a rivalidades geopolíticas.
  • Os acordos já firmados são vistos como uma forma de cooperação estratégica, com foco em sustentabilidade e desenvolvimento conjunto de tecnologias.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva and Spain's Prime Minister Pedro Sanchez (Not Pictured) attend a press conference during the summit between Spain and Brazil in Barcelona, Spain, April 17, 2026. REUTERS/Nacho Doce
Lula diz que nenhum outro país será dono da riqueza mineral do Brasil Nacho Doce/Reuters - 17.4.2026

Em meio ao desejo dos Estados Unidos por terras raras e minerais críticos brasileiros, o governo avança em acordos sobre o tema com outros países, como Coreia do Sul, Índia e Espanha, mas resiste a assinar uma parceria com os EUA em função da tentativa do governo americano de moldar a cadeia mineral do país.

Nessa sexta-feira (17), ao anunciar um acordo com a Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a intenção do governo em expandir as parcerias com outros países e disse que o Brasil precisa tirar proveito de suas terras raras e minerais críticos para não desperdiçar uma oportunidade histórica. Além disso, ele frisou que “ninguém, ninguém a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza mineral”.


“Nós não podemos agora permitir que a riqueza que a natureza nos deu não permita que a gente fique rico. Nós estamos dispostos a fazer acordo com todos os países que fizerem acordo com o Brasil. E o processo de transformação se dará dentro do Brasil”, ressaltou Lula.

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Os minerais raros são usados para fabricação de diversos produtos de alta tecnologia, como celulares, computadores, turbinas eólicas, equipamentos médicos e até mesmo mísseis e caças. O Brasil é o segundo país com a maior reserva de terras raras no mundo, com 23%, atrás só da China, que tem 49%.


Apesar da resistência do Brasil em negociar com os EUA, especialistas entendem que a conversa com outros países não deve afetar a relação com Washington, mas é necessário que a diplomacia brasileira aja com estratégia e definição clara de limites.

O coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Nyegray, explica que a proposta americana indica uma tentativa de moldar a cadeia brasileira desde a origem. Na prática, não seria um acordo apenas para comprar minério ou cooperar em pesquisa, mas, sim, para a garantia de acesso preferencial a insumos estratégicos em um contexto de rivalidade com a China.


“Em termos geopolíticos, isso coloca o Brasil em uma posição sensível: aceitar esse tipo de arranjo pode acelerar a agregação de valor no curto prazo, mas também cria vínculos estruturais com a estratégia industrial e de segurança americana. Há uma diferença clara entre memorandos diplomáticos e propostas com capital, tecnologia e integração industrial”, aponta Nyegray.

Segundo o especialista em comércio exterior Jackson Campos, os Estados Unidos tendem a priorizar a segurança de suprimento, ou seja, “garantir acesso rápido e estável às matérias-primas em um contexto de disputa geopolítica, muitas vezes com menor ênfase na agregação de valor local”.


Ao contrário da proposta americana, as parcerias já firmadas funcionam como um acordo de cooperação, que ajuda o Brasil a se posicionar como fornecedor relevante em uma agenda global emergente.

“Falar em cooperação científica, troca de informações, desenvolvimento de cadeias de valor e, eventualmente, aproximação empresarial é útil para a diplomacia e diversificação de parceiros, mas, isoladamente, não reorganiza a estrutura produtiva do setor mineral brasileiro”, completa Nyegray.

Pontos de atenção

Nyegray acredita, ainda, que as parcerias buscadas pelo Brasil podem até fortalecer a posição negociadora brasileira. Para ele, ao mostrar que tem alternativas — seja com Canadá, Europa ou Ásia —, o Brasil reduz o risco de aceitar termos desfavoráveis e amplia seu poder de barganha.

Entretanto, o especialista aponta que o risco surge quando essa diversificação é percebida, por Washington, não como autonomia, mas como ambiguidade estratégica.

“Em um contexto de disputa tecnológica e industrial cada vez mais intensa com a China, os EUA tendem a valorizar previsibilidade e alinhamento mínimo em cadeias críticas. Se o Brasil der sinais contraditórios — por exemplo, aceitando capital americano para refino, enquanto simultaneamente mantém abertura irrestrita para atores ligados a cadeias dominadas por rivais estratégicos —, isso pode gerar desconfiança e reduzir a disposição americana de oferecer condições mais vantajosas, como financiamento subsidiado ou transferência tecnológica. A crítica ao governo Lula, nesse ponto, é de consistência estratégica. A ideia de ‘negociar com todos’ é válida, mas não pode ser conduzida de forma difusa”, concluiu.

Apesar da diversificação comercial brasileira, os especialistas entendem que os acordos não devem interferir na relação entre o Brasil e Estados Unidos.

“Os EUA tendem a acompanhar esse movimento de perto, porque minerais críticos são estratégicos, mas a relação entre os dois países é ampla e vai além desse tema. O mais provável é um ajuste diplomático, com tentativas dos Estados Unidos de negociar condições mais atrativas, e não um impacto direto ou imediato na relação bilateral”, completa Campos.

Distribuição das terras raras Luce Costa/Arte R7

Países que já fizeram acordos com o Brasil

Espanha: além da cooperação em áreas de exploração e investimentos, a parceria tem como objetivo desenvolver políticas públicas focadas em práticas sustentáveis de mineração, com foco em rastreabilidade, economia circular e descarbonização, além do intercâmbio de experiências em regulação e governança.

Coreia do Sul: o acordo prevê que os dois países mantenham conversas focadas em estabelecer marco para o diálogo e a cooperação bilateral sobre recursos minerais, inclusive com vistas a promover a cooperação na exploração conjunta, desenvolvimento e processamento de minerais estratégicos, intercâmbio de tecnologia e pesquisa geológica.

Arábia Saudita: a parceria estabelece bases para o intercâmbio de conhecimento, o estímulo a investimentos e o desenvolvimento conjunto de tecnologias aplicadas à geologia e à mineração. Com duração de 5 anos, as ações preveem cooperação técnica em geologia, exploração, mineração, avaliação de minérios e a troca de especialistas.

Índia: em fevereiro, os representantes do Brasil e Índia assinaram acordo envolvendo minerais críticos e terras raras. Na época, Lula afirmou que a parceria “é um grande passo em direção a construir cadeias de suprimento resilientes”.

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