Brasília Médico da Prevent teria instruído estratégia para subnotificar covid

Médico da Prevent teria instruído estratégia para subnotificar covid

Em conversa obtida pela CPI, médico orienta procedimento que causaria subnotificação de covid-19; empresa nega

  • Brasília | Sarah Teófilo, do R7, em Brasília

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 investiga uma conversa por Whatsapp em que um médico da Prevent Senior orientaria outros funcionários da empresa a usar uma estratégia para reduzir as notificações por covid-19. Na conversa, obtida pelo R7, ele instrui outros profissionais a mudar a identificação do problema para qualquer outra doença, o que mascararia os indíces. A comissão suspeita de uma atuação para subnotificar os casos.

Na quarta-feira (22), o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, será ouvido pela CPI. A situação deve ser um dos questionamentos dos senadores. Informações que chegaram a eles apontam que a orientação para mudar o CID teria começado em julho do ano passado. A mensagem em questão é de novembro.

"Precisamos padronizar o CID B34.2 para todos os pacientes com suspeita ou confirmação de covid-19 para que estes possam ser adequadamente contabilizados independente do status de exame e/ou da unidade. Reforcem com os médicos do PA para preencher a solicitação corretamente, e corrijam as solicitações incorretas. Após 14 dias do início dos sintomas (pacientes de enfermaria/apto) ou 21 dias (pacientes com passagem em UTI/leito híbrido), o CID deve ser modificado para qualquer outro exceto B34.2, para que possamos identificar os pacientes que já não tem mais necessidade de isolamento. Início imediato”, diz a mensagem. Ao menos dois médicos responderam, mostra a reprodução da conversa, para dizer que estavam cientes da orientação.  

Mensagem de WhatsApp enviada pela Prevent Sênior a médicos da empresa

Mensagem de WhatsApp enviada pela Prevent Sênior a médicos da empresa

Reprodução/R7

A Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID) citada pelo médico é de infecção pelo coronavírus de localização não especificada. Segundo a empresa, a conversa foi retirada de contexto. A Prevent pediu à Procuradoria-Geral da República (CPI) que investigue quem foram os responsáveis pelas denúncias. 

EPIs

Outra denúncia encaminhada à CPI por médicos da operadora de saúde aponta que a rede teria limitado o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) no atendimento dos clientes, chegando a proibir o uso de máscaras em algumas situações. A questão teria, segundo a denúncia, o propósito de facilitar a disseminação do vírus da covid-19 no ambiente hospitalar a fim de iniciar um protocolo de testes para tratamento da doença.

O referido protocolo usava medicamentos sem eficácia comprovada do chamado "kit covid", como cloroquina e ivermectina. A denúncia foi enviada à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no último dia 24 por uma advogada do grupo de 12 médicos. O R7 teve acesso a uma análise do documento, que aponta ainda que o protocolo de testes adotado pela Prevent Senior teria sido acordado com assessores do governo federal. Conforme denunciado, a pesquisa supostamente pactuada entre o governo e a Prevent precisaria comprovar a eficácia de cloroquina e azitromicina no tratamento da covid-19.

Na denúncia, há uma mensagem de whatsapp de 25 de março do ano passado na qual a direção da rede teria indicado aos médicos o início do protocolo de uso de hidroxicloroquina combinada com azitromicina nos pacientes ambulatoriais, pontuando o seguinte: “Por favor, não informar o paciente ou familiar sobre a medicação e nem sobre o programa”. Segundo denunciado, o objetivo seria manipular os resultados da pesquisa para comprovar a eficácia do tratamento.

Os pacientes, então, estavam sendo testados, sem saber, e sem que os estudos fossem submetidos à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). A pesquisa só foi autorizada em 14 de abril, segundo a denúncia, mas foi suspensa seis dias depois após irregularidades serem verficadas, como a inexistência de grupo de controle.

Conforme denúncia, diante das críticas do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, a rede decidiu se aproximar de assessores próximos ao presidente Jair Bolsonaro e ao Ministério da Economia para evitar conflitos. Além disso, diante do descontentamento do presidente com Mandetta, teria sido elaborada por pessoas próximas a Bolsonaro uma estratégia de focar nas questões econômicas da pandemia, ao mesmo tempo em que Bolsonaro indicava medicamentos como cloroquina para a população, deixando-a mais “segura”.

Apesar de se falar que o médico tem autonomia para receitar medicamentos off label, ou seja, para usos que não estão previstos em sua bula, desde que haja concordância do paciente, a denúncia aponta que a Prevent não permitia que os médicos atuassem com autonomia, devendo receitar os medicamentos que constavam no kit.

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