Mudança histórica na Síria não mobiliza Senado brasileiro
Grupo parlamentar criado para estreitar relações entre os dois países recebeu apenas uma adesão além da do autor da proposta
Brasília|Deborah Hana Cardoso, da RECORD
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Criado em 2024, mas nunca instalado, o Grupo Parlamentar Brasil-Síria expõe o desinteresse do Senado pela pauta. A iniciativa foi apresentada pelo senador Esperidião Amin (PP-SC), mas não encontrou apoio suficiente entre os colegas para sair do papel.
Dos 81 senadores da Casa, apenas Mara Gabrilli (PSD-SP) aderiu ao grupo além do próprio autor da proposta. O número ficou abaixo do mínimo necessário para a instalação: nove parlamentares, o equivalente a 10% da composição do Senado.
O objetivo do colegiado era incentivar e fortalecer as relações bilaterais entre os Legislativos do Brasil e da Síria. A proposta previa o intercâmbio de experiências por meio de visitas oficiais, conferências, estudos e encontros voltados para temas políticos, jurídicos, sociais, científicos, culturais, educacionais e econômicos.
A falta de interesse chama atenção porque a iniciativa surgiu justamente em um momento de profunda transformação na Síria. O país vivia os desdobramentos da queda do ditador Bashar al-Assad, encerrando mais de duas décadas no poder e abrindo caminho para uma nova configuração política.
O colapso do regime foi precedido por uma guerra civil que provocou uma enorme crise humanitária. Milhões de sírios foram obrigados a abandonar suas casas, a maioria buscou abrigo em países vizinhos, como Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito.
Uma eventual aproximação institucional também encontraria respaldo na significativa presença de sírios e descendentes no Brasil. Segundo pesquisa do Ibope Inteligência, divulgada em 2019 pela CCAB (Câmara de Comércio Árabe-Brasileira), o país abriga mais de 11,6 milhões de pessoas de origem árabe. Desse total, cerca de 1,4 milhão de origem síria.
Dados de 2024 da Acnur (Agência da ONU para Refugiados) mostram que mais de 4 mil sírios foram acolhidos pelo Brasil por meio de vistos humanitários especiais.
Ao site, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o Censo de 2022 identificou 3.645 residentes nascidos na Síria. O órgão ressaltou, porém, que os levantamentos não coletam informações sobre ascendência. “Por isso, não sabemos o número de descendentes de sírios que residem no Brasil”, informou o instituto em nota.
O IBGE destacou ainda que a Síria ocupa a 24ª posição entre os países de nascimento da população estrangeira residente no Brasil.
Se o assunto não mobilizou o Senado, o mesmo não ocorre na esfera diplomática mais alta. O Ministério das Relações Exteriores informou que Brasil e Síria mantêm relações diplomáticas regulares e possuem representações diplomáticas em suas respectivas capitais.
Uma nova Síria
A Síria vive atualmente um período de reconstrução sob a liderança do presidente Ahmed al-Shar’a, também conhecido anteriormente como Abu Mohammad al-Julani. Ele assumiu o poder em janeiro de 2025 após liderar as forças que derrubaram o regime de Bashar al-Assad.
Em um dos gestos mais simbólicos da nova fase do país, Al-Shar’a discursou na Assembleia-Geral das Nações Unidas e apresentou à comunidade internacional sua visão para a reconstrução e superação dos efeitos deixados pelo antigo regime.
“Nossa história é uma das lições da história e constitui a incorporação de nobres significados e valores humanos”, afirmou.
Em outro momento, atribuiu ao governo anterior a responsabilidade pela devastação vivida pelo país.
“O regime anterior usou a pior espécie de tortura contra o nosso povo: armas químicas, bombardeios, tortura em prisões, deslocamentos, conflitos sectários e o uso de drogas contra o nosso povo e o mundo”, declarou.
Ao defender a nova administração, afirmou que o governo passou a atuar com base em três pilares: “Diplomacia equilibrada, segurança e estabilidade e desenvolvimento econômico”.
Bashar Al-Assad está refugiado na Rússia desde 2024.
A reportagem procurou a Embaixada da Síria no Brasil, mas não obteve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.
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