PF vê relação de ‘mutualismo ilícito’ entre Ciro Nogueira e Vorcaro no caso Master
Relatórios descrevem amizade, viagens de luxo, pagamentos mensais e atuação legislativa em favor do ex-banqueiro
Brasília|Augusto Fernandes e Gabriela Coelho, do R7, em Brasília, e Natália Martins, da RECORD
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O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça retirou nesta terça-feira (16) o sigilo de inquéritos relacionados ao Banco Master, revelando novos detalhes da investigação conduzida pela Polícia Federal sobre a relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do banco.
Os documentos produzidos pela PF descrevem uma relação de forte proximidade pessoal entre os dois, marcada por viagens internacionais, encontros privados, conversas frequentes, voos em jatinhos particulares e demonstrações públicas e privadas de amizade. Segundo os investigadores, porém, a intimidade não era apenas pessoal, mas fazia parte de uma relação estruturada de troca de vantagens.
O R7 tenta contato com as defesas de Vorcaro e Ciro. O espaço segue aberto para manifestação. No mês passado, quando foi alvo de mandados de busca e apreensão por causa da relação com o ex-banqueiro, o senador disse estar com a consciência tranquila.
“Acusações, todos os políticos em algum grau já sofreram, ainda mais o presidente de um grande partido, com muita influência, como é meu caso. Não serei o primeiro nem o último. Agora, comprovar é outra história”, afirmou o senador à época.


A Polícia Federal afirma que a amizade entre o senador e o banqueiro “transcende a mera relação pessoal, revelando-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo extraído por cada um dos envolvidos”.
Para a corporação, a relação entre os dois se caracteriza como um “típico mutualismo ilícito”. Na avaliação da corporação, a relação de afeto era consequência da convergência de interesses entre ambos.
Entre as provas reunidas estão fotografias que mostram Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro juntos em viagens ao exterior, registros dentro de aeronaves particulares e conversas extraídas de aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação.
Nas mensagens, os dois utilizam expressões como “saudades”, “meu amigo”, “quero lhe ver” e “irmãozão”. Em conversa com sua então namorada, Martha Graeff, Vorcaro afirma que desejava apresentá-la ao senador, descrevendo-o como “muito amigo meu” e “um dos meus grandes amigos de vida”.
Luxo, viagens e repasses
A Polícia Federal afirma ter encontrado evidências de que Vorcaro financiava uma série de benefícios destinados ao senador.
Os investigadores apontam que o banqueiro custeava viagens internacionais em aeronaves particulares, hospedagens em hotéis de luxo e despesas pessoais de Ciro Nogueira e de sua companheira, Flávia Rosalen.
Entre os gastos listados estão:
- Uma hospedagem em uma suíte em Nova York, no valor de US$ 47.779,80;
- Viagens para Courchevel, nos Alpes Franceses, com estadias em hotéis cinco estrelas e refeições em restaurantes renomados;
- Despesas em Paris, incluindo uma conta de US$ 1.981,12 em um restaurante;
- Além de aproximadamente R$ 91 mil em gastos durante uma viagem a Portugal.
Os relatórios também registram que Ciro utilizou, ao menos três vezes, aeronaves particulares pertencentes a Vorcaro em voos internacionais.
Além das viagens, a PF afirma que o senador usufruía de um apartamento pertencente ao empresário como se fosse seu imóvel.
‘Mesada’ e dinheiro em espécie
Outro ponto destacado pelos investigadores diz respeito aos supostos pagamentos periódicos feitos por Vorcaro ao parlamentar.
Segundo a Polícia Federal, documentos financeiros e mensagens indicam a existência de repasses mensais, inicialmente fixados em R$ 300 mil e posteriormente elevados para R$ 500 mil. Os valores, de acordo com a investigação, seriam ocultados por operações entre empresas ligadas aos dois.
Os investigadores também relatam a identificação do transporte de R$ 350 mil em dinheiro vivo. Em mensagens apreendidas, aparece a anotação “Espécie Ciro 350k”, referente ao transporte dos recursos em uma sacola durante um voo entre São Paulo e Brasília para posterior entrega ao senador.
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