Saída de Ibaneis da disputa ao Senado dá fôlego à esquerda e pode enfraquecer MDB no DF
Desistência do ex-governador muda correlação de forças entre as pré-candidaturas, fortalece nomes da direita e amplia as negociações
Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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A desistência do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) da disputa pelo Senado reconfigura o tabuleiro político do Distrito Federal, abrindo espaço para o fortalecimento de candidaturas de esquerda e deixando o MDB em uma posição de vulnerabilidade para as eleições deste ano. Em entrevista ao R7, cientistas políticos avaliam que a decisão altera a estratégia dos partidos, a correlação de forças entre as pré-candidaturas e os rumos da sucessão ao Governo do Distrito Federal.
Para o cientista político Márcio Coimbra, quem mais ganha com a saída de Ibaneis são os nomes do campo progressista, como a senadora Leila Barros (PDT) e a deputada Érika Kokay (PT), que, segundo ele, ganham “sobrevida”, além do PL, que agora herda o caminho livre para “monopolizar o voto conservador” com Bia Kicis e Michelle Bolsonaro em dobradinha.
“Por outro lado, o grande perdedor é o bloco governista tradicional e o próprio partido do ex-governador [MDB], que perdem um puxador de votos de peso e ficam com o ônus político do escândalo envolvendo o BRB e o Banco Master sem o bônus eleitoral que Ibaneis representava na chapa majoritária”, afirmou.
Na avaliação do cientista político Gabriel Amaral, a desistência de Ibaneis retira da disputa não apenas um candidato competitivo, mas também o principal articulador da coalizão que governa o Distrito Federal. “Embora o desgaste decorrente do caso Banco Master tenha reduzido seu protagonismo eleitoral nos últimos meses, ele continuava sendo o principal ativo político do grupo governista. Seu capital político não desaparece com a renúncia à candidatura e ainda pode ser utilizado para impulsionar um novo nome ao Senado dentro do prazo das convenções partidárias.”
Segundo Amaral, Michelle Bolsonaro permanece como favorita a uma das vagas ao Senado, enquanto o espaço deixado por Ibaneis tende a ser disputado por candidatos de centro-direita que buscarão herdar parte desse eleitorado. “Ao mesmo tempo, a fragmentação desse campo também pode favorecer candidaturas de centro e centro-esquerda, já que, em uma eleição com dois votos para o Senado, a segunda escolha do eleitor costuma ser mais volátil e sensível às mudanças do cenário”, explica.
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Reorganização da direita
Para Coimbra, o recuo de Ibaneis consolida o PL como a principal força da direita na disputa pelo Senado no Distrito Federal. Sem uma candidatura de centro-direita competitiva e pragmática, o eleitorado conservador do DF é empurrado para a ala mais ideológica do bolsonarismo, tendo Michelle Bolsonaro como nome principal e a deputada federal Bia Kicis como alternativa.
Gabriel Amaral também avalia que Michelle reforça sua posição como a principal referência eleitoral da direita no DF. “As pesquisas mais recentes já apontavam sua liderança, e a saída de Ibaneis elimina um ator com capacidade de organizar parte desse mesmo campo político.”
Apesar disso, ele pondera que o cenário permanece aberto. “Se o MDB e os partidos aliados conseguirem construir rapidamente uma candidatura competitiva, esse espaço poderá ser ocupado. Caso contrário, a tendência é de pulverização dos votos entre os demais candidatos desse espectro”, avalia.
Reflexos na disputa pelo GDF
Para Coimbra, a decisão também produz efeitos na corrida pelo Palácio do Buriti e fortalece a posição da governadora Celina Leão (PP). De acordo com Márcio Coimbra, o desgaste reputacional de Ibaneis devido às investigações sobre o BRB ameaçava se tornar um fardo político na chapa.
“Sem a sombra de Ibaneis exigindo protagonismo ou dividindo palanques polêmicos, Celina ganha autonomia total para costurar alianças de centro-direita e capitanear o uso da máquina pública como a cabeça isolada do consórcio governista.”
Gabriel Amaral avalia que a coalizão também ganha maior flexibilidade para organizar a chapa majoritária e distribuir espaços entre aliados, tornando a vaga ao Senado um dos principais ativos das negociações políticas para garantir a unidade da base.
Segundo o cientista político, a vaga ao Senado passa a ser um dos principais ativos das negociações políticas. “A definição de quem ocupará esse espaço poderá influenciar diretamente o grau de unidade da base e a capacidade de mobilização em torno da candidatura ao Governo do Distrito Federal.”
Impacto no MDB
Para Coimbra, a desistência representa um duro golpe para o MDB, que perde seu principal nome para a disputa majoritária. Segundo Coimbra, o partido, que antes planejava ditar as regras da sucessão, agora é rebaixado ao papel de “coadjuvante” e deve focar na preservação de suas bancadas e na negociação da vaga de vice na chapa de Celina Leão para garantir influência futura.
Gabriel Amaral, por sua vez, avalia que, apesar de perder seu candidato natural ao Senado, o MDB preserva relevância na articulação política local. “O partido continua ocupando posição central na coalizão governista e ainda dispõe de uma curta, porém decisiva, janela até as convenções para redefinir sua estratégia.”
Para ele, as próximas semanas serão decisivas para o futuro da legenda. “O partido poderá optar por lançar um novo candidato ao Senado, tentando transferir parte do capital político construído por Ibaneis, ou utilizar essa vaga como elemento de composição da chapa majoritária. Em ambos os casos, a decisão será menos sobre substituir um nome e mais sobre preservar a capacidade de liderança do grupo político na sucessão distrital.”
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