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Vigência provisória do acordo Mercosul-UE é aposta do Brasil, mas pode gerar incertezas

Estratégia do governo tenta acelerar benefícios, mas pode abrir ‘zona cinzenta’ se a UE alterar cláusulas do tratado

Brasília|Clarissa Lemgruber, do R7, em Brasília

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Presidente do bloco europeu estará em Assunção para a assinatura do acordo Ricardo Stuckert / PR - 16.01.2026

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  • A Câmara dos Deputados do Brasil busca acelerar a implementação do acordo Mercosul-União Europeia para obter benefícios econômicos imediatos.
  • A validade provisória do acordo pode gerar incertezas, já que a UE pode alterar cláusulas antes da ratificação final.
  • O setor agrícola brasileiro teme que mudanças no acordo, impostas pela Europa, possam afetar sua competitividade no mercado europeu.
  • O acerto vislumbra diversificar as relações comerciais do Brasil, reduzindo a dependência de parceiros instáveis, como os EUA e a China.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A tentativa do governo brasileiro de acelerar a tramitação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e defender uma “vigência provisória” pode funcionar como um empurrão para destravar benefícios econômicos no curto prazo — mas também pode abrir uma fase de incertezas para setores exportadores do Brasil.

A avaliação é da professora de relações internacionais Natali Hoff, doutora em Ciência Política, que aponta que a aplicação antecipada do tratado, antes do fim do processo europeu, pode deixar o Mercosul exposto a mudanças no texto negociado.

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“Isso geralmente tem o potencial de gerar uma certa fragilidade, principalmente para os países do Mercosul”, afirma.

A preocupação é que, enquanto o Brasil corre para concluir sua parte interna, o acordo ainda esteja sujeito a reinterpretações e ajustes na União Europeia, especialmente após o envio do texto ao Tribunal de Justiça do bloco, que deve avaliar se o tratado está em conformidade com o direito comunitário.

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Segundo Natali, o risco é o país avançar em um compromisso que, mais à frente, pode voltar ao Parlamento Europeu com pressões por mudanças.

“Eles vão ratificar um acordo que pode talvez vir a ser alvo de algum tipo de alteração no Parlamento Europeu decorrente da interpretação do Tribunal”, diz.

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Setores mais sensíveis podem sentir primeiro

Na leitura da especialista, essa possível instabilidade tende a atingir principalmente áreas historicamente mais sensíveis na negociação, como o setor agrícola, que também é um dos maiores interesses do Brasil na abertura do mercado europeu.

“Isso pode gerar alguns pontos mais cinzentos, ou algumas fragilidades jurídicas para os setores, principalmente setores agrícolas”, afirma.

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Natali explica que a resistência dentro da UE está ligada ao receio de que produtos do Mercosul, como carne e itens agrícolas brasileiros, entrem no mercado europeu em condições competitivas e provoquem perdas para produtores locais — um argumento frequentemente associado também a diferenças nas regras ambientais e de produção.

‘Vigência provisória’ aumenta exposição a mudanças

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o Brasil quer acelerar o processo interno e trabalhar por uma vigência provisória do acordo.

“O presidente Lula deve encaminhar [a proposta] ao Congresso, e o senador Nelsinho [Trad, do PSD-MS] dará toda a celeridade. Isso ajudará a Comissão Europeia, para que haja uma vigência provisória [do acordo] enquanto há uma discussão na área judicial”, disse Alckmin a jornalistas.

A reação do governo veio após o parlamento europeu enviar, na última quarta-feira (21), o tratado para análise do Tribunal de Justiça da União Europeia; assim, ele só poderá entrar em vigor se receber aval da Corte.

A estratégia também é defendida por países como a Alemanha, que veem no tratado um instrumento para fortalecer a economia europeia em um cenário global mais instável.

Acordo vira teste de equilíbrio para o Brasil

Apesar do interesse em avançar, Natali ressalta que a fase atual pode transformar o acordo em um teste delicado para o Brasil: tentar colher resultados econômicos e estratégicos sem entrar em um cenário de regras instáveis, caso a União Europeia use o processo jurídico e político para reabrir cláusulas sensíveis.

A especialista afirma que, mesmo após décadas de negociação, a resistência interna no bloco europeu segue ativa e pode continuar usando mecanismos institucionais para atrasar ou modificar o texto.

“Como esses atores vão continuar usando estratégias e mecanismos que estão disponíveis para tentar conseguir modificar algumas cláusulas […] e até mesmo tentando atrasar e barrar a aplicação efetiva desse acordo”, conclui.

Por outro lado, na avaliação do especialista em relações internacionais Uriã Fancelli, o momento geopolítico mundial, em que grandes potenciais pressionam por protagonismo econômico, o acordo representa uma importante entrada da UE na América do Sul, o que fortalece a defesa de uma vigência provisória.

“A Europa está sendo espremida pela competição que acontece entre as grandes potências: China de um lado, EUA de outro, ambos tentando manter uma presença firma na América Latina. Então, a Europa assinar esse acordo é importantíssimo porque é uma maneira de ela também ter um espaço e uma presença geopolítica”, defende, Uriã Fancelli em entrevista à Record News.

Uriã ressalta a relevância da relação em uma América Latina com potenciais marcados pela presença de terras raras e recursos naturais e lamenta resistências alguns de países do bloco europeu quanto à adesão.

“Triste ver como algumas lideranças europeias, como é o caso do presidente francês Emmanuel Macron, têm cedido a pressões internas em um momento no qual as lideranças do bloco precisam agir com um pouco mais de ousadia”, avalia.

Apoio da indústria brasileira

Em meio à contestação do tratado na Justiça, a indústria brasileira reiterou apoio ao acordo.

“Este é um tratado maduro, equilibrado e amplamente negociado, que prevê uma parceria estratégica com impactos comprovados sobre emprego, renda e produção. É fundamental que esse processo seja concluído e que o acordo entre em vigor o quanto antes”, afirmou o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Ricardo Alban.

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