Calote da Argentina pode afetar exportações brasileiras
Terceiro maior destino das exportações brasileiras, a Argentina já vinha comprando menos
Economia|Da Agência Brasil

Com a quinta maior reserva internacional do mundo e a dívida externa sob controle, o Brasil deve sofrer em decorrência da dívida argentina, com quedas pontuais na bolsa de valores e uma pequena alta do dólar. Apesar da relativa tranquilidade do lado financeiro, a crise no país vizinho pode respingar na economia brasileira.
Segundo especialistas, o provável aprofundamento da recessão argentina deve reduzir ainda mais as exportações e afetar a indústria brasileira.
Terceiro maior destino das exportações brasileiras, a Argentina vinha comprando menos do Brasil por causa da crise cambial que resultou na desvalorização do peso (moeda do país). Nos seis primeiros meses de 2014, as vendas para o país vizinho acumulam queda de 20,4% em relação ao mesmo período do ano passado, somando R$ 168 bilhões (US$ 7,42 bilhões).
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Para os economistas, o calote técnico agravará uma situação que não estava boa. O economista-chefe da Sulamérica Investimentos, Newton Rosa, analisa a situação.
— O que muito provavelmente vai acontecer é a piora da recessão na Argentina, que consumirá menos e comprará menos do resto do mundo. Como 8% das exportações brasileiras vão para lá, é provável que haja impacto na balança comercial [do Brasil] ao longo do tempo.
Professor da Unicamp (Universidade de Campinas) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Julio Gomes de Almeida adverte que a redução nas exportações para a Argentina prejudicará principalmente a indústria brasileira.
— Nos últimos 20 anos, o Brasil perdeu mercado de produtos manufaturados, mas a Argentina e os demais países da América do Sul continuaram os principais destinos das mercadorias industrializadas (...) O calote ameaça não apenas as exportações de veículos, mas também de todos os produtos industrializados.
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A crise cambial na Argentina tinha afetado a venda de veículos para o país vizinho, que passou a instituir barreiras comerciais, como taxação e licenças de importação que atrasam os embarques. Em junho, os governos brasileiro e argentino fecharam um novo acordo automotivo. Para cada R$ 2,27 milhões (US$ 1 milhão) em automóveis comprados da Argentina, o Brasil poderá exportar até R$ 3,4 milhões (US$ 1,5 milhão) isento de tarifa. Acima desse valor, os veículos pagam 35% para entrar na Argentina.
Para Alexandre Espírito Santo, professor de macroeconomia do Ibemec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), a deterioração do comércio com a Argentina é muito mais preocupante para o Brasil do que eventuais reflexos no mercado financeiro.
— Diferentemente de 2001 [quando a Argentina deixou de pagar a dívida pela primeira vez], não vejo efeito cascata no mercado financeiro internacional. A situação é muito específica, com um país que tem dinheiro, mas está impedido de pagar.
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Newton Rosa reiterou que os fundamentos econômicos do Brasil são bastante diferentes dos da Argentina.
— Apesar de um grande déficit nas contas externas, o Brasil tem a dívida externa sob controle e grandes reservas internacionais. Os agentes financeiros sabem diferenciar cada país. A chance de fuga de capitais do Brasil por causa da situação argentina é pequena.
Julio Gomes de Almeida defende que o Brasil ajude a Argentina por meio de linhas de crédito para o comércio exterior. A ideia chegou a ser discutida nas reuniões do acordo automotivo, mas não avançou.
— O ideal seria que o país, sozinho ou por meio do Mercosul, ajudasse a Argentina, mas isso é difícil num momento em que o próprio Brasil tem pouca folga de recursos e pouca bala na agulha.















