Plano chinês e veto europeu pressionam agro brasileiro e demandam atuação estratégica
Recentemente, UE vetou a compra de carnes brasileiras; China planeja construir autossuficiência agrícola
Economia|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Recentes decisões e planos alimentares de dois dos principais parceiros comerciais do Brasil acenderam um alerta no agronegócio local. Especialistas ouvidos pelo R7 entendem que a decisão da União Europeia de vetar a compra de carnes brasileiras e o plano da China de reduzir importações e construir uma autossuficiência agrícola geram pressão no Brasil, o que exige maior estratégia do governo.
No caso da União Europeia, o veto, que passa a valer a partir de setembro, foi decidido após o Brasil não conseguir provar que seus produtores atendem às regras de vigilância exigidas pelo bloco.
Apesar das acusações, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes garante que a carne bovina brasileira “atende aos requisitos sanitários e regulatórios dos principais mercados internacionais, com rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente”.
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Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, o impacto pode ser relevante, mas não necessariamente algo que vai devastar o setor. Como consequência, Campos explica que o principal problema é a perda de um mercado de alto valor agregado, mais exigente e que paga melhor em determinados cortes e produtos.
“A UE pode voltar atrás se o Brasil conseguir demonstrar conformidade com as regras sobre antimicrobianos, rastreabilidade e controles sanitários. Portanto, é uma questão técnica, mas também política e comercial. A reversão é possível, mas não automática”, diz.
O governo brasileiro deve intensificar as articulações com os europeus, entende a internacionalista da BMJ Consultores Ana Beatriz Zanuni. Ela ressalta que, por mais que exista a possibilidade de redirecionar os produtos para outros destinos, é um processo que demanda tempo e esforço.
“A reversão é tecnicamente possível caso o Brasil consiga comprovar o cumprimento das regras sanitárias do bloco. Entretanto, mesmo que a decisão seja técnica, insere-se em um contexto político de forte pressão exercida pelo setor agropecuário europeu, que já era evidente durante as negociações do acordo Mercosul-União Europeia. Com isso, mesmo que o Brasil demonstre conformidade, enfrentará pressão política na Europa para manter as restrições e proteger seus produtores locais”, opina Zanuni.
A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, ficando atrás apenas da China. Em 2025, o bloco foi responsável por 15% das exportações (US$ 25,2 bilhões) do Brasil.
Relação com a China
A decisão dos chineses de investir em um plano que reduz as dependências do país de importações, principalmente, do setor agrícola, trouxe uma nova preocupação ao agro brasileiro.
O receio não vem à toa, mas justamente pelo fato de a China ser o maior parceiro comercial do país, chegando a representar 33% das exportações do agro.
O plano dos chineses é anunciado em meio a uma tentativa do país de reduzir a dependência comercial com os EUA, o que contribuiu para uma aproximação com o Brasil.
A redução nas importações de soja dos Estados Unidos pela China impulsionou um crescimento de 15%, nos últimos sete anos, das compras de soja brasileira por chineses.
O crescimento, de US$ 27,2 bilhões em 2018 para US$ 31,5 em 2024, está atrelado à disputa comercial entre os países, que fez com que a China deixasse de ser o principal comprador da soja americana.
Para Campos, a mudança chinesa pode ser o ponto mais sensível no médio prazo. Então, caso Pequim realmente avance na redução da dependência externa de alimentos, o Brasil pode enfrentar menor crescimento de demanda, o que levará a uma maior pressão sobre preços.
O especialista analisa, ainda, que a decisão ressalta a necessidade de o Brasil diversificar mercados.
“O impacto tende a ser relevante, mas não imediato nem uniforme, porque a China ainda tem limitações de terra, água e produtividade para substituir completamente importações. Para o agro brasileiro, o recado é claro: depender excessivamente de um único comprador virou risco estratégico”, diz Campos.
Apesar do risco da meta chinesa, Zanuni entende que, além do fortalecimento da segurança alimentar por meio da produção agrícola doméstica, o plano também se baseia na diversificação de fornecedores para reduzir a dependência dos EUA, fortalecendo as relações com países do hemisfério sul, especialmente no âmbito dos Brics.
”Nesse contexto, o Brasil pode ocupar uma posição estratégica, sendo visto como um parceiro de menor risco geopolítico devido à sua postura pragmática. Esse interesse tem culminado em investimentos chineses no Brasil e na região para a melhoria da infraestrutura logística e facilitação do comércio entre os países. Portanto, mesmo com a estratégia chinesa de ampliar sua produção interna, existe um horizonte oportuno para a manutenção do Brasil como fornecedor chave — que dependerá também da abordagem diplomática adotada pelo Brasil em relação à China nos próximos anos", explica.
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