Aproximação de Milei pode ser desfavorável para Flávio Bolsonaro, avaliam especialistas
Segundo pesquisa, apoio do presidente argentino pode dificultar conquista do eleitor de centro por parte do candidato do PL
2026|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília
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O apoio do presidente argentino Javier Milei à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) pode acabar produzindo um efeito contrário ao esperado pelo bolsonarismo e favorecer o campo adversário na disputa presidencial, avaliam especialistas ouvidos pelo R7.
A última pesquisa Genial/Quaest, divulgada na semana passada, mostra que 34% dos brasileiros afirmam ter maior chance de votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após Milei declarar apoio à candidatura de Flávio, enquanto 27% dizem ficar mais propensos a escolher o candidato do PL. Outros 17% afirmam que a chancela do líder argentino à campanha de Flávio aumenta a possibilidade de votar em um candidato que não seja nenhum dos dois.
Para o cientista político Gabriel Amaral, o resultado do levantamento não deve ser interpretado como uma simples transferência de votos, mas mostra que a associação com Milei pode criar dificuldades para Flávio entre eleitores que ainda não definiram o voto.
“Milei possui uma identidade política muito definida, capaz de reforçar Flávio Bolsonaro entre parcelas do eleitorado que já compartilham dessa visão, mas essa mesma nitidez pode impor dificuldades na expansão para além da base”, pondera.
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Segundo Amaral, o principal desafio do candidato do PL é justamente ampliar o eleitorado para além do bolsonarismo. Nesse cenário, a presença de Milei pode gerar efeitos tanto nos eleitores favoráveis a Flávio quanto nos que se posicionam no campo contrário.
“O dado mais relevante é perceber que a entrada de Milei na eleição brasileira também mobiliza quem está do outro lado. [...] Se a experiência argentina ocupar espaço relevante na campanha, a questão central não será simplesmente se Milei é popular no Brasil, mas qual interpretação sobre o que aconteceu na Argentina conseguirá prevalecer entre os eleitores que ainda podem mudar de posição”, aponta.
Milei no Brasil
A aproximação entre Milei e Flávio ganhou maior visibilidade em 25 de julho, quando o presidente argentino viajou a São Paulo para participar da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio à Presidência. Durante o evento, o argentino declarou apoio ao senador e atacou diretamente Lula e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.
A participação de um chefe de Estado estrangeiro na disputa presidencial brasileira, segundo Amaral, permite a Lula “deslocar a discussão do confronto tradicional entre esquerda e direita para o terreno da soberania nacional”.
A repercussão ultrapassa as fronteiras nacionais. Pesquisa da consultoria argentina Zuban Córdoba aponta que 70,5% dos argentinos desaprovam os ataques de Milei a Lula, enquanto 20% aprovam as críticas, e outros 9,5% não souberam responder.
Aliança
O advogado e doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade do Museu Social Argentino Artur Ratc também avalia que a aproximação deve ser analisada para além da ideologia.
“Independentemente da ideologia, se o ambiente social estiver bom e os acordos entre os países forem produtivos, Milei pode, de alguma maneira, trazer um benefício para o outro Brasil”, afirma.
Ratc ressalta, porém, que a associação com Milei pode se tornar um problema para a campanha de Flávio caso a situação econômica ou política na Argentina seja vista negativamente pelos brasileiros.
“Pode ser que exista um efeito contrário, na medida em que o governo argentino vai muito mal, juntamente com o governo brasileiro. Com isso, a ideia já não é mais só sobre ideologia, mas sim sobre o problema doméstico que é mal administrado e aí, por consequência, a imagem de Flávio pode ficar ruim”, argumenta.
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