Casos de violência política contra mulheres cresceram 1.080% desde 2022
Segundo especialistas, incentivo a denúncias pode ajudar a explicar salto expressivo dos casos formalizados na Justiça
2026|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília
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Em 2026, o país registrou, até o momento, 177 processos de violência política contra mulheres. Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o montante é 1.080% maior do que o contabilizado nas eleições gerais de 2022.
A advogada Hangra Leite, especialista em direito da mulher, explica que a violência política de gênero é definida legalmente como qualquer conduta voltada a impedir, restringir ou dificultar a participação da mulher na vida política com base em discriminação de gênero. Embora a problemática seja antiga, a jurista observa que a formalização jurídica do tema é recente.
“O Brasil é um país marcado pelo machismo. Embora o problema seja antigo, o reconhecimento jurídico específico é recente. O principal marco ocorreu em 2021, com a Lei 14.192, que criou mecanismos específicos de prevenção e repressão à violência política contra a mulher. A partir das eleições de 2022, o tema ganhou maior espaço na atuação da Justiça Eleitoral, do Ministério Público e no debate público”, afirma.

Por ser um debate ainda recente, Leite aponta que a falta de familiaridade com o conceito pode estar diretamente relacionada às subnotificações.
“Muitas pessoas associam violência apenas à agressão física e não identificam ameaças, perseguições, constrangimentos ou ataques discriminatórios como possíveis formas dessa violência. Isso pode gerar subnotificação, porque quem não reconhece a conduta como ilícita dificilmente procura os canais de denúncia”, alerta.
Na mesma linha, a vice-presidente da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), Anne Cabral, avalia que a maior circulação do debate ajuda a explicar o salto expressivo de casos formalizados na Justiça.
“O tema da violência política de gênero ainda é muito desconhecido. Antes, as próprias mulheres nem percebiam que estavam sofrendo esse tipo de agressão”, pontua a jurista, chamando atenção para a alta incidência de condutas sutis, especialmente no ambiente digital.
“Entre os casos, além dos mais claros, observo bastante — principalmente no período eleitoral — vídeos com falas veladas de preterição das mulheres sob argumentos ideológicos. Esse tipo de conteúdo, muitas vezes, acaba passando batido”, complementa.
Para Cabral, a responsabilidade de educar os filiados recai sobre os partidos políticos, cujos quadros ainda são predominantemente masculinos e marcados por heranças históricas.
“Toda a questão educacional sobre o tema é responsabilidade dos partidos políticos. Não é uma questão secundária. Sem conscientização, qualquer legislação vira letra morta”, destaca.
“Entendo que o mais estratégico é que as mulheres ocupem espaços decisivos nos diretórios partidários; não adianta somente serem candidatas”, acrescenta.
Denúncias registradas no Ligue 180
Os processos judiciais, contudo, refletem apenas uma parcela do cenário real.
De acordo com o Ministério das Mulheres, a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) registrou, de janeiro a agosto de 2026, 1.564 denúncias de violência política contra as mulheres.

Em relação à distribuição geográfica, o estado com o maior número de denúncias é São Paulo (430), seguido por Rio de Janeiro (260), Minas Gerais (149), Bahia (89), Rio Grande do Sul (62), Paraná (61) e Santa Catarina (56).
Do total de 1.564 denúncias, 842 (53,84%) tiveram como vítimas mulheres negras (pretas e pardas), 590 (37,72%) mulheres brancas e 132 (8,44%) corresponderam a outras raças ou cores.
A pasta detalha que as manifestações assumem diversas formas. “As violações incluem discriminação e desigualdade de tratamento por gênero, raça ou etnia em funções, cargos públicos, mandatos e partidos; interrupção frequente de fala em ambientes políticos; desqualificação de habilidades e funções; ameaças à candidata; difamação; divulgação de conteúdo inverídico; julgamento pela aparência física e forma de vestir; e questionamento sobre escolhas de vida privada.”
O órgão complementa que os episódios atingem candidatas a diferentes cargos em vários estados brasileiros.
“Entre os crimes registrados estão ameaças de morte e estupro, ataques racistas e transfóbicos, vandalização de materiais de campanha, coação, misoginia, constrangimento, intimidação e deslegitimação de mulheres que ocupam ou disputam espaços de poder e decisão, além de casos de responsabilização judicial.”
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