Como o ebola mata? Entenda o que acontece no corpo infectado pelo vírus
Surto no Congo reacende alerta sobre febre hemorrágica capaz de provocar choque, falência múltipla e colapso imunológico
Internacional|Do R7
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou para “muito alto” o risco do atual surto de ebola na República Democrática do Congo, diante do avanço rápido da cepa Bundibugyo, uma variante rara para a qual não existe vacina nem tratamento específico aprovado.
Até o momento, autoridades de saúde registraram dezenas de casos confirmados, centenas de infecções suspeitas e mais de 177 mortes relacionadas à doença. O vírus já se espalhou para outras regiões do país e alcançou Uganda, aumentando o temor de disseminação regional.
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Mas, por que o vírus é tão temido? E o que acontece no organismo de alguém que é infectado? Para entender, é preciso saber que o ebola é uma doença causada por um grupo de vírus conhecidos como orthoebolavírus.
Descoberto em 1976, o patógeno normalmente circula entre animais, especialmente morcegos frugívoros, mas pode atingir humanos por meio do contato com animais infectados ou fluidos corporais contaminados. Depois disso, a transmissão ocorre entre pessoas através do sangue, vômito, suor, fezes e outros fluidos corporais.
Após a infecção, o vírus pode permanecer incubado entre dois e 21 dias. Os primeiros sintomas costumam lembrar doenças como gripe ou malária: febre, fadiga intensa, dores musculares, dor de cabeça e garganta inflamada. Com a progressão da doença, surgem vômitos, diarreia, dores abdominais e sinais de comprometimento dos órgãos internos. Em alguns pacientes, aparecem hemorragias internas e externas.
O ebola é considerado tão letal porque ataca diretamente o sistema imunológico e consegue impedir que o organismo monte uma defesa eficiente logo no início da infecção. O vírus invade células responsáveis por alertar o corpo sobre invasões, como as células dendríticas, e “desliga” os mecanismos de comunicação que normalmente ativariam os linfócitos e os anticorpos. Sem resposta imediata, o vírus se multiplica rapidamente e se espalha pelo organismo.
Enquanto isso, o sistema imunológico entra em colapso. Pesquisadores descrevem que, em vez de controlar a infecção, o corpo acaba reagindo de maneira exagerada e desorganizada. Esse fenômeno é chamado de “tempestade de citocinas”, uma descarga massiva de moléculas inflamatórias lançadas na corrente sanguínea. Em vez de proteger o paciente, essa reação extrema passa a causar danos severos aos próprios tecidos e órgãos.
Durante essa fase crítica, os vasos sanguíneos começam a perder sua integridade. As paredes das artérias, veias e capilares tornam-se mais permeáveis, permitindo o vazamento de sangue e plasma. Ao mesmo tempo, substâncias inflamatórias e alterações na coagulação provocam pequenos coágulos espalhados pelo corpo, especialmente em órgãos como o fígado. Com isso, os fatores naturais de coagulação acabam sendo consumidos rapidamente.
É por isso que o ebola é conhecido como febre hemorrágica. Em alguns pacientes, os pequenos vasos sanguíneos rompem-se em diferentes partes do organismo, causando sangramentos internos, vômitos com sangue, diarreia hemorrágica e manchas avermelhadas sob a pele. Nem todos os infectados apresentam hemorragias visíveis, mas os danos vasculares e circulatórios acontecem mesmo sem sangramento externo evidente.
O comprometimento do sistema circulatório provoca uma queda brusca da pressão arterial. Sem circulação adequada, órgãos vitais deixam de receber oxigênio suficiente. O fígado perde a capacidade de produzir proteínas essenciais, os rins falham e o trato gastrointestinal sofre destruição celular intensa. O organismo entra então em choque sistêmico, semelhante ao choque séptico grave observado em infecções bacterianas severas.
Nos estágios finais, muitos pacientes morrem por falência múltipla de órgãos. A combinação entre inflamação descontrolada, danos vasculares, desidratação severa, hemorragias e colapso circulatório cria um cenário extremamente difícil de reverter. Especialistas afirmam que, em muitos casos, não é apenas o vírus que mata, mas a resposta imunológica desregulada desencadeada pela infecção.
Mesmo assim, algumas pessoas sobrevivem. Estudos indicam que pacientes que conseguem manter uma resposta imunológica mais equilibrada têm maiores chances de recuperação. O tratamento atual é basicamente de suporte, com hidratação oral ou intravenosa, controle da pressão arterial, reposição de eletrólitos e monitoramento intensivo para tentar manter o corpo funcionando enquanto o sistema imunológico combate o vírus.
No caso da atual cepa Bundibugyo, ainda não há medicamentos aprovados especificamente contra o vírus. A OMS informou que um antiviral experimental chamado Obeldesivir está sendo avaliado para uso entre pessoas expostas à doença, numa tentativa de impedir o desenvolvimento dos sintomas. O medicamento ainda depende de protocolos rigorosos de pesquisa.
Além disso, cientistas trabalham no desenvolvimento de vacinas e terapias experimentais para a variante responsável pelo atual surto. Especialistas destacam que o diagnóstico precoce e o isolamento rápido dos pacientes continuam sendo as ferramentas mais importantes para conter a transmissão e aumentar as chances de sobrevivência.
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