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Brasil é destaque em relatório mundial da ONU Mulheres

País é citado pela geração de trabalho decente para as mulheres

Internacional|Do R7

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Maria José Pereira largou o corte de cana e agora trabalha como pedreira, eletricista e encanadora
Maria José Pereira largou o corte de cana e agora trabalha como pedreira, eletricista e encanadora

Divulgado nesta semana pela ONU Mulheres, o relatório mundial “Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: Transformas as economias para realizar direitos” destaca o Brasil pela geração de trabalho decente para as mulheres.

O documento aborda temas como direitos econômicos das mulheres, trabalho decente, saúde no trabalho, apoio na tarefa de cuidados de outras pessoas e segurança na velhice, e aponta que, com frequência, os direitos econômicos e sociais das mulheres são limitados, pois são forçadas a viver em “um mundo de homens”.


O “Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: Transformar as economias para realizar direitos” alia direitos humanos com políticas econômicas e elenca elementos-chave para uma agenda política inovadora que transforme as economias e permita o alcance dos direitos das mulheres.

A história de uma pernambucana e do projeto Chapéu de Palha Mulher chamam atenção no relatório.


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Maria José Pereira cresceu rodeada por ferramentas na pequena cidade de Escada, no Pernambuco. “Todos lá em casa trabalham com construção. Meu pai e irmãos são pedreiros”, explica Maria. Que continua: “Eu queria trabalhar com eles, mas eles disseram que eu não poderia porque era mulher”.

Mas graças a uma iniciativa revolucionária do governo, Maria pode provar que sua família estava errada. Ela não é apenas uma pedreira licenciada, como também é encanadora e eletricista.


O programa de inclusão social Chapéu de Palha Mulher promove treinamentos para mulheres que vivem na região rural de comunidades do nordeste do Estado do Pernambuco. Lançado em 2007, o programa foi criado pela Secretaria de Políticas para Mulheres, para proporcionar uma alternativa econômica, durante a entressafra, para as cortadoras de cana de açúcar.

“A maioria destas mulheres não escolheram trabalhar nas plantações, mas costumavam ir junto de seus maridos e pais”, explica Cristina Buarque, que liderou a Secretaria até 2014. “Esta cultura machista infantiliza a mulher. Nós queremos que elas saibam que há opções”.

Cristina explica que as mulheres que trabalham nos campos não tiveram treinamento ou compensações como os homens. Elas frequentemente são vítimas de discriminação verbal e física, além da violência doméstica.

Para Maria, que trabalhou cortando cana por cinco anos, o dia de trabalho era desgastante. “Era muito difícil. Eu passava 12 horas sob um sol escaldante, cortando cana com as mãos cheias de bolhas”, ela relembra. “Depois disso, chegava em casa e tinha que limpar e cozinhar para meu marido e filhos”.

O Chapéu de Palha Mulher proporciona às mulheres um curso obrigatório de três meses em políticas públicas, e uma pequena bolsa mensal e creche, para estimular a participação feminina.

O curso, ministrado por mulheres, ensina direitos e cidadania, abordando temas como a história da escravidão; a luta por igualdade das mulheres, negros e indígenas; estereótipos de gênero, compromissos de direitos humanos do governo nos termos da Constituição. Em seguida, as alunas escolhem um curso de formação profissional, muitas vezes optando por desenvolver habilidades tradicionalmente voltada para o sexo masculino.

“O curso é um importante componente para o Chapéu de Palha Mulher”, explica Cristina. “Nós precisávamos que estas mulheres entendessem como o governo local funciona, e como seus direitos como indivíduos estão disponíveis para preparar melhores profissionais e melhores cidadãos”.

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Cristina foi fundamental na concepção do programa Chapéu de Palha Mulher. Ela foi escolhida a dedo em 2007, pelo então governador Eduardo Campos, falecido em 2014, para comandar a Secretaria de Políticas para as Mulheres.

“Eu não era política, sou pesquisadora acadêmica”, comenta Cristina. “Quando fui abordada para fazer este trabalho, eu sabia que era uma oportunidade para trazer o trabalho do qual sou apaixonada, para uma escala maior”.

Quando se uniu ao governo de Pernambuco, Cristina era a única mulher das 24 secretarias. Através do Chapéu de Palha Mulher ela integrou o trabalho de diferentes departamentos e mais de 40 organizações de mulheres, ajudando a fortalecer o relacionamento entre o governo e a sociedade civil.

Maria Cristina e o então governador Eduardo Campos, falecido em 2014, entregam certificado para participante do projeto Chapéu de Palha Mulher
Maria Cristina e o então governador Eduardo Campos, falecido em 2014, entregam certificado para participante do projeto Chapéu de Palha Mulher

“Nós queremos que as mulheres aprendam como cuidar melhor de seus corpos, então envolvemos a Secretaria de Saúde. Nós queremos que elas aprendam a ler e a escrever, então chamamos a Secretaria da Educação”, conta Cristina.

Além de aprender novas habilidades, o programa uniu as mulheres. Muitas, como Angela, que não quis dar o sobrenome, encontrou noções de comunidade na sala de aula.

“Meu marido me batia constantemente”, disse Angela, que escapou de um casamento abusivo. “Eu nunca tive a quem recorrer. Agora sei que posso contar com essas mulheres”, desabafou.

Cerca de 100 mil mulheres participaram do programa desde 2007, que já se expandiu para 89 municípios pernambucanos, para incluir mulheres que trabalham nas plantações de frutas e pesca artesanal. Há também planos para abrir uma escola na cidade de Pesqueira, onde cursos serão oferecidos durante todo o ano.

Cristina pediu demissão da Secretaria em agosto de 2014, logo após o acidente de avião que matou o então candidato à presidência da República Eduardo Campos.

“Tenho orgulho do trabalho que fiz na secretaria, mas agora é hora de seguir em frente”, diz Cristina. Ela tem esperança de que o trabalho prossiga mesmo sob o comando do novo governador Paulo Câmara, e a nova secretaria, Silvia Cordeiro.

De volta à sonolenta Escada, Maria examina a válvula de água recentemente instalada em seu chuveiro. A casa dela virou um laboratório onde ela aplica as habilidades que aprendeu no Chapéu de Palha Mulher.

“Estávamos com problemas de eletricidade, então eu consertei”, disse Maria. “Eu também mexi no encanamento. Meu próximo projeto será colocar azulejo na cozinha e no banheiro”, conclui.

Ela também começou a remodelar as casas da vizinhança, junto com uma colega do Chapéu de Palha Mulher.

“Eu amo olhar os consertos da minha casa e outros trabalhos e saber que fui eu que arrumei”, diz Maria, enquanto abre a torneira de sua cozinha e deixa a água correr. “Eu que consertei a torneira, e fiz isso com minhas próprias mãos”, conta orgulhosa.

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