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Como Trump desmantelou o acordo nuclear com a Arábia Saudita menos de 24 horas após sua assinatura

Entendimento negociado por anos virou alvo de disputa após Trump acrescentar novas condições

Internacional|Kevin Liptak, Kristen Holmes e Davis Winkie, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Donald Trump acredita que o Irã está adotando uma postura mais séria nas negociações.
  • Trump afirma que não tem pressa para fechar um acordo com o Irã, apesar das pressões eleitorais.
  • O presidente dos EUA destaca a importância da Arábia Saudita aderir aos Acordos de Abraão para um acordo nuclear.
  • Trump expressa incerteza sobre o apoio da China e da Rússia ao Irã, esperando que não o decepcionem.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Donald Trump discursa durante uma reunião bilateral com o príncipe herdeiro e primeiro-ministro Mohammed bin Salman da Arábia Saudita no Salão Oval da Casa Branca em 18 de novembro de 2025
Bin Salman e Trump: presidente condiciona projeto nuclear à adesão do reino aos Acordos de Abraão Win McNamee/Getty Images via CNN Newsource

Na tarde de quarta-feira (22), autoridades se reuniram na sede do Departamento de Energia dos Estados Unidos, no centro de Washington, para um evento que vinha sendo negociado há mais de duas décadas: a assinatura de um acordo de cooperação nuclear civil entre os EUA e a Arábia Saudita.

Dois conjuntos de bandeiras americanas e sauditas foram posicionados no palco e na mesa onde estava sentado o secretário de Energia, Chris Wright. Em uma grande tela, o ministro saudita correspondente participava diretamente de Riad. Após meses de atraso, o acordo finalmente foi assinado.


Os sauditas haviam conseguido boa parte das condições que desejavam.

Mas, tão rapidamente quanto foi anunciado, o acordo pareceu desmoronar. Na manhã de quinta-feira, Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que o entendimento passaria a depender de uma nova exigência: a Arábia Saudita teria de aderir aos Acordos de Abraão, iniciativa lançada durante seu primeiro mandato que levou diversos países árabes a normalizarem relações diplomáticas com Israel. Trump também negou que o acordo permitisse o enriquecimento de urânio.


Segundo uma fonte familiarizada com o assunto, o presidente já estava irritado com a divulgação do acordo, pois Wright não o havia informado de que faria o anúncio.

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A frustração de Trump aumentou ainda mais, disseram fontes à CNN, após uma onda de críticas de especialistas e veículos conservadores. Entre elas estavam reportagens céticas na Fox News, seu canal favorito, e um editorial do Wall Street Journal que questionava por que o acordo havia sido firmado sem um compromisso de normalização entre sauditas e israelenses — algo que, segundo ambos os veículos, também era buscado pelo ex-presidente Joe Biden.


A nova condição surpreendeu inclusive os próprios negociadores nucleares do governo, para quem a exigência relacionada aos Acordos de Abraão era inesperada, segundo duas fontes informadas sobre o caso.

À medida que a confusão aumentava, integrantes da Casa Branca passaram a culpar colegas do Departamento de Energia, segundo uma fonte, afirmando que a Casa Branca havia solicitado que o anúncio não fosse feito na quarta-feira. Wright, entretanto, seguiu em frente, inclusive comentando o tema em entrevista à Fox Business.


Na visão de alguns auxiliares de Trump, o acordo ainda não estava concluído, já que cartas obrigatórias ao Congresso ainda não haviam sido enviadas. Segundo a fonte, tanto o presidente quanto vários assessores seniores ficaram furiosos com a decisão de divulgar o entendimento.

Nesta sexta-feira (24), Trump declarou a jornalistas que ele e o secretário de Energia — que estava atrás dele no Salão Oval — não haviam discutido o tema quando foi questionado se havia autorizado Wright a assinar o acordo.

“Não conversamos sobre isso, mas sempre foi entendido — e Chris sabia disso, e a Arábia Saudita também — que, se eles não aderissem aos Acordos de Abraão... eu não faria o acordo”, afirmou Trump.

“O time de energia do presidente Trump está totalmente alinhado, e sempre esteve: o acordo nuclear civil negociado entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita depende da adesão saudita aos bem-sucedidos Acordos de Abraão, que ajudarão a trazer verdadeira paz ao Oriente Médio”, disse a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, em comunicado divulgado na noite de quinta-feira.

O Departamento de Energia enfatizou que manteve coordenação próxima com a Casa Branca.

“Isso é notícia falsa. O Departamento de Energia coordenou de perto as negociações e, posteriormente, o anúncio desses acordos com a Casa Branca e o Departamento de Estado. Qualquer sugestão em contrário é falsa”, declarou o secretário de imprensa Ben Dietderich, acrescentando que tanto o acordo quanto os Acordos de Abraão “buscam um objetivo comum: alcançar uma paz duradoura por meio do comércio, não do conflito”.

O incômodo da Casa Branca aumentou quando a coletiva de imprensa de quinta-feira foi dominada por perguntas sobre o acordo. Karoline Leavitt ressaltou que Trump era o “negociador final” ao ser questionada sobre por que a nova condição não havia sido mencionada no anúncio de quarta-feira.

A publicação de Trump na Truth Social, feita na manhã de quinta-feira, também pegou os sauditas de surpresa. Para eles, o acordo nuclear — que não incluía a exigência de normalização com Israel — representava uma grande vitória diplomática. O texto permitiria o enriquecimento de urânio em território saudita, desde que determinadas condições fossem cumpridas, além de limitar a capacidade de inspeção de locais nucleares suspeitos por parte da agência internacional de energia atômica da ONU. A CNN procurou a embaixada saudita para comentar o assunto.

Um acordo aguardado há anos recebeu críticas imediatas

A reviravolta foi o capítulo mais recente de um esforço diplomático que se arrasta há anos.

Quase duas décadas depois de EUA e Arábia Saudita anunciarem pela primeira vez a intenção de cooperar em energia nuclear, os dois países chegaram a um acordo preliminar em outubro do ano passado, quando Wright e seu colega saudita divulgaram uma declaração conjunta.

Pouco depois, o governo Trump enviou ao Congresso um pedido de dispensa de determinadas exigências, já que o acordo não obrigava os sauditas a assinarem um instrumento padrão conhecido como Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Entretanto, após esse pedido inicial, as negociações ficaram paradas durante meses sem a aprovação de Trump para avançar. Fontes atribuíram o atraso a preocupações relacionadas à guerra com o Irã e ao receio de que o Congresso rejeitasse os acordos.

Autoridades do setor de energia acreditavam ter recebido sinal verde de Trump no fim da semana passada e deram início ao plano de divulgação à imprensa. O Wall Street Journal foi o primeiro a noticiar a aprovação do acordo na noite de terça-feira.

Outra fonte observou que, embora Trump possa ter aprovado uma versão “provisória” do entendimento, isso não significava autorização para sua conclusão ou anúncio público.

As primeiras reações de especialistas foram majoritariamente negativas. Especialistas em não proliferação nuclear demonstraram preocupação com a cláusula que autorizava o enriquecimento de urânio e com a ausência do compromisso de adesão ao Protocolo Adicional.

Os defensores do acordo destacaram seus benefícios comerciais e estratégicos: os sauditas querem desenvolver um programa nuclear nos próprios termos, e os EUA deveriam ser parceiros de Riad para influenciar padrões de segurança e de não proliferação, evitando que China ou Rússia ocupassem esse espaço.

As críticas inicialmente não desestimularam o governo, que argumentava que o acordo e suas salvaguardas bilaterais “mantêm os mais altos padrões de segurança nuclear e não proliferação”. O Departamento de Energia prosseguiu com a cerimônia oficial na quarta-feira.

Quando tudo mudou na manhã seguinte, muitos próximos ao governo suspeitaram imediatamente de uma intervenção de última hora do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, conhecido por sua desconfiança em relação a qualquer programa nuclear saudita. Israel, que possui armas nucleares, se opõe a qualquer iniciativa que possa permitir a um país árabe desenvolver uma bomba atômica.

Duas fontes israelenses disseram à CNN que Netanyahu esperava influenciar os termos do acordo. Uma delas afirmou que o premiê pretendia pressionar Trump a incluir a normalização das relações entre Israel e Arábia Saudita — ou ao menos avanços nessa direção — como parte do entendimento.

A Casa Branca, porém, afirmou posteriormente que Trump e Netanyahu não haviam conversado.

“Não que eu saiba”, respondeu Leavitt aos jornalistas, acrescentando que o presidente apenas reiterou uma posição antiga sobre a necessidade de Riad normalizar relações diplomáticas com Israel.

A influência da mídia conservadora

Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a cobertura crítica da mídia conservadora teve peso na decisão de Trump de barrar o acordo em sua forma atual.

“O acordo tem origem no governo Biden, que oferecia cooperação nuclear como recompensa caso os sauditas aderissem aos Acordos de Abraão”, escreveu o conselho editorial do Wall Street Journal, tradicionalmente cético em relação a Trump. “Riad resistiu à pressão para fazer isso, mas agora recebe a recompensa do governo Trump de qualquer maneira. Espera-se que os sauditas tenham oferecido algo mais.”

Na Fox News, durante a programação das 7h da manhã, o apresentador Brian Kilmeade classificou o acordo como “uma surpresa” e lembrou que proposta semelhante havia sido considerada no governo Biden.

“Durante os anos Biden, eles diziam: vamos pensar nisso. Mas antes, vocês precisam aderir aos Acordos de Abraão”, afirmou.

Outra apresentadora da emissora, Kayleigh McEnany, que foi secretária de imprensa de Trump em seu primeiro mandato, também questionou a ausência da exigência de normalização.

“Quando deixei o primeiro governo Trump, me disseram que estávamos muito próximos de uma normalização das relações entre Israel e Arábia Saudita”, afirmou.

Autoridades do governo Biden de fato trabalharam para promover essa aproximação e negociaram intensamente com os sauditas um acordo nuclear civil que seria anunciado junto à normalização das relações com Israel.

No entanto, os ataques terroristas do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 interromperam esse avanço. A resposta militar israelense, amplamente vista como desproporcional no mundo árabe, levou os negociadores americanos a buscar uma versão mais limitada do futuro acordo nuclear. Ainda assim, nenhum entendimento foi alcançado.

Desde então, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman deixou claro que não concordará com relações diplomáticas plenas com Israel sem um caminho viável para a criação de um Estado palestino.

Mesmo assim, Trump restabeleceu essa condição em uma publicação nas redes sociais às 7h52 da manhã de quinta-feira — poucos minutos depois de o tema ter sido discutido na Fox News.

Leavitt afirmou mais tarde que Trump não havia conversado com o poderoso príncipe herdeiro nas horas anteriores nem posteriores ao anúncio das novas condições.

Segundo ela, a exigência não deveria surpreender ninguém.

“O presidente já falou diretamente sobre isso com os sauditas em diversas conversas anteriores, e o governo continuará engajado nessas discussões”, disse.

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