Cuidando do passado na Grécia de hoje
A exposição permanente do Museu Benaki inclui uma ampla gama de objetos artísticos gregos
Internacional|Do R7

Seu escritório fica no porão do museu e mais parece um depósito, repleto de molduras envoltas em plástico bolha encostadas nas paredes. Há pilhas de livros, catálogos e artigos acadêmicos pelos cantos. Naquele dia, uma estatueta graciosa – uma figura feminina sem cabeça – estava ao lado de sua mesa cheia de coisas.
Angelos Delivorrias a observava com olho clínico: ela pode ser romana, ou só uma réplica do século XIX. "Meu projeto especial é descobrir a verdade", afirmou.
Mas esse está longe de ser seu único desafio nos dias de hoje.
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Delivorrias é o diretor do Museu Benaki há 40 anos. Quando assumiu o cargo, o espaço de exposições correspondia a somente metade da mansão neoclássica da família Benaki. Os objetos ficavam em cabines de carvalho e vidro – cerca de 37.000 itens islâmicos e bizantinos, quase todos agrupados por função.
Desde então, Delivorrias supervisionou a expansão e a modernização do museu, transformando o Benaki – e seus seis anexos – em uma das instituições culturais mais importantes da Grécia. Sob sua tutela, o Benaki adquiriu mais 60.000 objetos, livros e documentos por meio de compras e doações. Os prédios foram reformados e as exposições, reorganizadas.
A exposição permanente do Benaki inclui agora uma ampla gama de objetos artísticos gregos, que vão do desenvolvimento do helenismo, na antiguidade, à era bizantina, passando pela queda de Constantinopla, a ocupação otomana e a formação do Estado grego moderno. Além disso, também há uma coleção impressionante de brinquedos e de vestimentas tradicionais gregas, além de um anexo dedicado à arte islâmica e um novo local para exposições temporárias, eventos culturais e workshops.
Aos 76 anos de idade, há quem acredite que Delivorrias deveria tirar o pé do acelerador e aproveitar um pouco suas conquistas. Ao invés disso, ele tenta descobrir se foi ambicioso demais ao longo dos anos e se vê obrigado a lutar para manter o que conquistou, em meio à crise financeira da Grécia. Ele voltou a fumar e sua esposa, com quem está casado há 50 anos, não ficou nada feliz. "Ela ameaçou sair de casa", afirmou com um suspiro, antes de acender outro cigarro. "Ela diz que isso também afeta a minha memória."
Quando Delivorrias pegou a lista de funcionários na gaveta de cima, suas mãos tremiam um pouco. Há interrogações anotadas em vermelho ao lado de alguns desses nomes – os próximos que poderão perder o emprego. O museu já diminuiu o número de colaboradores de 267 para 191 em 2010, afirmou. Todos os que ficaram tiveram os salários cortados em 20 por cento e, para poupar mais dinheiro, a jornada de trabalho também foi reduzida em 20 por cento.
"Isso é terrível", afirmou Delivorrias, deixando a lista de lado e apoiando a cabeça sobre as mãos por um instante "O Departamento de Conservação sofreu muito. Quando vim para cá, não havia Departamento de Conservação, mas tínhamos muitos papéis, metais e outros tesouros que precisavam de cuidado."
A maioria dos problemas do Benaki é simples. Nos anos de bonança, o museu, comandado por um conselho diretivo que inclui três descendentes da família Benaki, contava com o governo grego para cobrir a maior parte dos custos operacionais. Entretanto, com a crise, os cortes de gastos foram abruptos e grandes. O governo contribuía com 2,6 milhões de dólares ao ano em 2009, mas este ano o valor será de pouco mais de 900 mil.
O Museu Benaki pediu doações, diminuiu o horário de funcionamento e encontrou formas de aumentar a receita por meio de novas exposições e visitas guiadas. O dinheiro não está sobrando, mas eles tiveram algumas notícias boas nos últimos dias, afirmou Delivorrias: o museu tem um doador que financia uma publicação anual produzida pelo Benaki. "Isso já é alguma coisa", afirmou, folheando a edição do ano passado. "Esse está garantido, nós já temos o dinheiro."
Quase todos os homens da família de Delivorrias eram engenheiros, mas essa vida nunca o atraiu. Ele se sentia mais ligado às humanidades e à arqueologia clássica. No início da carreira, o diretor do museu trabalhou para o Serviço Arqueológico Grego e foi curador em Patras e Esparta.
O convite para assumir o Benaki ocorreu em 1973. Segundo Delivorrias, os primeiros anos foram os mais difíceis. O museu foi doado ao Estado em 1931 por Antonis Benakis, um rico mercador de algodão de Alexandria, que passou a vida acumulando objetos históricos. O espaço estava lotado e as obras se amontoavam por todos os cantos. Segundo Delivorrias, era necessário mudar muita coisa.
O diretor precisou lutar contra a opinião de gente que já trabalhava no museu e queria deixar tudo como sempre foi. "Quando assumi a diretoria, a empresa era superfechada", afirmou, "mas eu sou teimoso. Ainda tenho medo da entropia. Empresas que não evoluem estão condenadas à morte".
Quando questionado acerca do que o deixou mais orgulhoso, Delivorrias não soube responder. Mas sua maior tristeza foi quando o museu perdeu o leilão de um ícone do século XIII.
"Eu realmente queria aquilo", afirmou. "Foi feito durante as cruzadas. Mas o dinheiro não dava. Eu queria muito saber quem havia comprado a peça." Delivorrias acabou descobrindo que o comprador era um homem muito rico que tinha o mesmo nome do santo retratado no ícone.
Delivorrias ainda balança a cabeça quando se lembra disso, sem acreditar que um tesouro tão importante pudesse ser comprado por uma razão tão banal.
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