Escritor francês admite que "as coisas mudaram" para a liberdade de expressão
Internacional|Do R7
Roma, 14 jan (EFE).- O escritor francês Michel Houellebecq admitiu sentir medo depois do atentado terrorista contra a revista satírica francesa "Charlie Hebdo" e opinou que as "coisas mudaram" para a liberdade de expressão. Assim disse em entrevista publicada nesta quarta-feira pelo jornal italiano "Il Corriere della Sera", na qual repassa o atentado do dia 7, a manifestação contra o terrorismo do dia 11 e o conteúdo de seu último e polêmico livro, "Submissão" (Flammarion, 2015). Questionado sobre se sente medo, o escritor reconheceu que "sim". "Cabu, por exemplo, um dos assassinados, não tinha consciência do risco, habitava nele um alma velha misturada com uma antiga tradição anticlerical (...) Acho que não compreendeu que a questão é de outra natureza", explicou. "Estamos acostumados a um certo nível de liberdade de expressão e não nos demos conta de que as coisas mudaram". Sobre a manifestação de repulsa ao terrorismo que reuniu líderes mundiais e cidadãos no domingo em Paris, o escritor disse que não terá "enormes consequências" e que a situação "não mudará profundamente". "Não acho que a manifestação tenha enormes consequências. A situação não mudará, voltaremos a pôr os pés na terra", declarou. Para Holleubecq, a "Charlie Hebdo" não contou com tanto apoio. "Não quero ser mau, mas um pouco sim. Quando aconteceu o incêndio na redação, o primeiro atentado em 2011, muitos colegas jornalistas e políticos disseram 'a liberdade de expressão vai bem, mas também é preciso ser um pouco responsáveis'. Responsáveis. Essa era a palavra fundamental", criticou. Além disso, o escritor se mostrou convencido de que a liberdade de expressão será mais difícil de exercitar de agora em adiante, sobretudo para os caricaturistas que estiverem começando. Após o atentado terrorista contra a "Charlie Hebdo", no qual morreram 12 pessoas, Houellebecq abandonou Paris protegido pela polícia e anunciou sua decisão de suspender a promoção de seu livro, no qual coloca um muçulmano concorrendo à presidência da República francesa em 2022. O livro tinha suscitado polêmica no país, apesar de sua publicação acontecer como estava prevista em 7 de janeiro, no dia da tragédia na revista. O presidente francês, François Hollande, disse que lerá, mas seu autor assegurou na entrevista que a opinião literária dos políticos pouco lhe interessa. "Se François Hollande for reeleito em 2017, talvez muitas pessoas deixarão o país. Por razões tributárias e econômicas, pela ideia de que é difícil fazer grande coisa na França, um país que parece bloqueado. E depois poderemos ver algum à direita da Frente Nacional que se enerva e passa a uma ação violenta", vaticinou. O escritor também assegurou que se arrepende de suas palavras em 2001, quando afirmou que "o Islã é a religião mais estúpida do mundo". "Li com atenção o Corão (...) Um leitor honesto do Corão não chega à conclusão de que é necessário assassinar crianças judias. Para nada", abundou. E continuou: "A violência não pertence por natureza ao Islã. O problema do Islã é que não tem um chefe como o papa na Igreja Católica, que indicaria a via correta de uma vez por todas". EFE gsm/ff









