Guerra com o Irã se intensifica e coloca em risco a capacidade militar dos EUA para futuros conflitos
Com estoques de mísseis em baixa, Pentágono tenta acelerar produção enquanto avalia impactos sobre futuras ameaças
Internacional|Davis Winkie, da CNN Internacional
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Os estoques de armamentos estratégicos dos Estados Unidos continuam significativamente reduzidos e enfrentarão uma pressão ainda maior caso os ataques contra o Irã prossigam no ritmo atual, depois que o presidente Donald Trump reiterou nesta sexta-feira (10) que o cessar-fogo no conflito “chegou ao fim”.
Segundo especialistas ouvidos pela CNN, a situação dos arsenais pode afetar a capacidade das Forças Armadas dos EUA de enfrentar uma eventual guerra contra a China ou até mesmo contra a Coreia do Norte.
“Se a guerra continuar no ritmo dos últimos cinco dias... os estoques serão reduzidos a ponto de gerar um nível mais elevado de risco no Indo-Pacífico”, afirmou Mark Cancian, coronel reformado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e analista de defesa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).
A fase inicial do conflito com o Irã, denominada Operação Fúria Épica, levou as Forças Armadas dos EUA a utilizarem milhares de mísseis essenciais empregados em ataques de precisão de longo alcance e na defesa contra ataques aéreos e de mísseis inimigos, segundo analistas e reportagens anteriores da CNN.
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Michael O’Hanlon, diretor de pesquisas de política externa da Brookings Institution, afirmou que “não há dúvida” de que os estoques estão “mais baixos do que gostaríamos”.
Quando os combates em grande escala entre Estados Unidos e Irã cessaram em abril, o Pentágono havia utilizado pelo menos metade de seus interceptadores de mísseis balísticos THAAD, quase metade dos interceptadores Patriot e cerca de 30% dos mísseis de ataque terrestre Tomahawk, de acordo com uma análise do CSIS. A CNN confirmou anteriormente a precisão dessa avaliação com três pessoas familiarizadas com as estimativas internas dos estoques do Departamento de Defesa.
O cessar-fogo trouxe um alívio temporário aos estoques norte-americanos, já que os ataques de baixa intensidade nos meses seguintes exigiram menos mísseis.
Mas o ritmo de reposição dos armamentos estratégicos continua lento, observou Cancian. Segundo o cronograma de entregas do atual ano fiscal, o Pentágono recebe aproximadamente 15 novos mísseis Tomahawk e 20 Patriot por mês. Não há entregas previstas de mísseis THAAD em 2026. O CSIS estima que serão necessários três anos ou mais para restaurar os estoques aos níveis anteriores à guerra com o Irã.
Elaine McCusker, pesquisadora do American Enterprise Institute e ex-subsecretária adjunta e controladora interina do Pentágono, afirmou à CNN que “o prazo para repor as munições, na maioria dos casos, será medido em anos: entre dois e cinco anos para a maior parte delas”.
John Ferrari, especialista em aquisições militares, general reformado de duas estrelas do Exército dos EUA e também ligado ao American Enterprise Institute, destacou que “o Congresso não aprovou sequer um dólar para substituir um único míssil” desde o início da guerra. Segundo ele, apenas “o lento processo anual habitual de tempos de paz” está em andamento.
Nas últimas semanas, a Casa Branca solicitou formalmente ao Congresso recursos adicionais para cobrir os custos da guerra contra o Irã — além de alguns programas não relacionados ao conflito —, mas a proposta enfrenta um caminho difícil no Capitólio.
Um porta-voz do Pentágono disse à CNN que o departamento está “comprometido em expandir rapidamente a base industrial de defesa”. Em junho, Trump acionou a Lei de Produção para a Defesa com o objetivo de eliminar obstáculos regulatórios e acelerar a fabricação de mísseis, e o Departamento de Defesa firmou acordos com fabricantes para ampliar as linhas de produção.
“O Departamento está incorporando de forma agressiva o melhor da inovação americana, onde quer que ela esteja, para aumentar a produção em larga escala e fortalecer a resiliência das cadeias de suprimento”, afirmou o representante do Pentágono.
Cancian ressaltou que recorrer à Lei de Produção para a Defesa é “útil”, mas que “o impacto será limitado”. Além disso, ampliar a capacidade de produção exige tempo.
Acordos de licenciamento que permitem a outros países, como Alemanha e Ucrânia, fabricar localmente mísseis interceptadores Patriot também poderiam aliviar a pressão sobre as linhas de produção dos EUA em meio ao aumento da demanda global. Trump anunciou na quinta-feira a concessão de licença para a Ucrânia durante a cúpula da OTAN realizada na Turquia.
No entanto, esses acordos avançam lentamente. O Japão levou três anos para construir sua fábrica de produção de mísseis Patriot, e a Alemanha ainda não produziu uma única unidade, apesar de ter iniciado o desenvolvimento de sua linha de fabricação em 2022.
Segundo a análise do CSIS, outros estoques de mísseis, como os do Precision Strike Missile (PrSM) e do Joint Air-to-Surface Standoff Missile (JASSM), deverão se recuperar mais rapidamente, retornando aos níveis anteriores à guerra entre meados e o fim de 2027.
Cancian alertou que um eventual conflito com a China não é o único risco enfrentado pelo Pentágono caso continue empregando mísseis estratégicos em grande escala. Analistas acreditam que os planos militares voltados à Coreia do Norte exigem grande quantidade de mísseis norte-americanos, tanto para atingir alvos inimigos quanto para defender as forças dos EUA e Seul contra os previsíveis ataques em massa de Pyongyang.
O principal porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, reiterou em comunicado — idêntico ao enviado à CNN em abril — que “as Forças Armadas dos Estados Unidos são as mais poderosas do mundo e possuem tudo o que é necessário para agir no momento e no local escolhidos pelo presidente”.
“Executamos múltiplas operações bem-sucedidas em diferentes comandos de combate, garantindo ao mesmo tempo que as Forças Armadas dos EUA mantenham um amplo arsenal de capacidades para proteger nosso povo e nossos interesses”, declarou Parnell.
O’Hanlon, da Brookings Institution, afirmou que não acredita que a capacidade das Forças Armadas dos EUA de dissuadir uma agressão da China ou da Coreia do Norte “tenha sido afetada até o momento”.
Ainda assim, advertiu que “em algum momento” essa capacidade de dissuasão poderá ser enfraquecida.
“Provavelmente é impossível medir ou saber exatamente quando esse ponto será alcançado, porque isso depende em grande parte da psicologia do adversário”, concluiu.
Zachary Cohen e Natasha Bertrand, da CNN, contribuíram para esta reportagem.
O trabalho de Davis Winkie na CNN conta com o apoio de uma parceria entre a Outrider Foundation e a Journalism Funding Partners (JFP). A CNN mantém controle editorial total sobre esta cobertura.
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