Haitianos protestam há 5 meses pela renúncia do presidente

Protestos começaram em julho com falta de combustível. Hoje, manifestantes usam barricadas nas ruas como símbolo de resistência contra governo 

Manifestantes usam barricadas em protestos contra o presidente

Manifestantes usam barricadas em protestos contra o presidente

Jean Marc Herve Abelard/ EFE - 2.11.2019

Há cinco meses, haitianos seguem nas ruas da capital Porto Príncipe pedindo a renúncia do presidente, Jovenel Moise. Com barricadas nos bairros e confrontos violentos com a polícia, os protestos já deixaram 42 mortos, mas a população não recua.

Desde junho, os protestos já mudaram de cara e de abordagem, mas o povo nunca deixou de protestar. As reivindicações começaram com a falta de combustível no país e agora manifestantes pedem a saída do presidente e a melhoria da qualidade de vida no país, assolado por corrupção, fome, desigualdade social e violência.

Manifestações começaram em julho, com falta de combustível

Manifestações começaram em julho, com falta de combustível

Jean Marc Herve Abelard/ EFE - 2.11.2019

Resistência

Desde setembro, barricadas fechando as ruas se tornaram um símbolo de resistência. Feitas de troncos de árvores, pedras ou ferro, elas impedem a passagem dos carros na capital do país, e algumas fecham até o espaço para pedestres.

“Esta barricada simboliza o nosso currículo, nosso futuro e a nossa vida. Vivemos em um sistema que explora as pessoas e traz desigualdades. Queremos outro sistema. Queremos deixar de viver em um país que é um paraíso para um pequeno grupo e um inferno para a maioria”, disse Davidson Véus em entrevista à Agência EFE.

Jovens entre 17 a 35 anos, na sua maioria homens, vigiam e cuidam das barreiras. Elas são montadas todas as manhãs, mesmo com os esforços das autoridades em desmontá-las e desobstruir as vias.

A maior reivindicação é a saída do presidente, mas a intenção parece distante.

Só esse ano, o país já teve três primeiros-ministros:  Jean Henry Ceant foi deposto pelos deputados. Jean-Michel Lapin assumiu o cargo em abril, mas renunciou à posição em julho. Desde então, Fritz William Michel é o premiê. Os manifestantes esperam que o próximo a deixar o cargo seja o presidente.

“A primeira das demandas é a saída incondicional de Jovenel Moise. Não pedimos que abandone o país, somente que fique e responda as perguntas da Justiça. E inclusive depois disso, essas barricadas continuarão para pedir que todo o sistema mude”, complementa Véus, que é coordenador da organização Tèt Delmas, que cuida das barricadas.

Esta não é a primeira vez que os bloqueios são usados. Em julho de 2018, as barricadas foram adotadas pelos manifestantes que conseguiram derrubar o então primeiro-ministro Jack Guy Lafontant.

Jovens, maioria homens, protegem barricadas

Jovens, maioria homens, protegem barricadas

Jean Marc Herve Abelard/ EFE - 2.11.2019

‘Não toque nas barricadas’

As autoridades não conseguem desmontar permanentemente as barricadas e os jovens estão sempre vigilantes as protegendo.

Os manifestantes intimidam motoristas, perguntando para onde eles vão e o que estão fazendo perto das barricadas. Às vezes, eles jogam pedras para impedir que pessoas que não são parte do grupo se aproxime dos obstáculos.

“Moun pa manyen barikad”, ou “não toque nas barricadas” em creole, a língua local.

Os jovens só permitem que veículos da polícia, ambulância e motos de jornalistas atravessem a barricada.

“As barreiras simbolizam a resistência dos bairros a um governo em que eles não se enxergam, não vem seu futuro e os reprime. Esse é um exemplo de como as pessoas estão tirando o controle do território das mãos do estado”, conta o sociólogo James Beltis.

Ele acredita que as barricadas estão fazendo efeito e que representam de forma concreta os pedidos da população pela mudança no governo.

“Isso significa que a batalha cidadã chegou a um ponto sem volta. Isso significa que as pessoas não esperam que os estrangeiros ou as elites decidam por eles. Demostra que querem ser atores na construção do país que desejam, por isso vemos muitos jovens no movimento”, conclui.