Instintos éticos inconsistentes
Inúmeras pesquisas científicas mostram que valores morais frequentemente não passam de instituições fracas e inconsistentes
Internacional|Do R7
Dilemas morais geralmente colocam em conflito as preocupações com princípios e as preocupações com consequências práticas. Devemos banir rifles de assalto e refrigerantes de tamanho grande, restringindo as liberdades individuais em prol da saúde e da segurança? Devemos permitir ataques de aeronaves não tripuladas e tortura, caso a violação dos direitos individuais sirva de pretexto para salvar milhares de vidas?
Gostamos de acreditar que nossos princípios se baseiam em convicções profundas e arrazoadas, mas inúmeras pesquisas científicas mostram que esses valores frequentemente não passam de instituições fracas e inconsistentes, influenciadas por fatores eticamente irrelevantes. Você pode discordar de si mesmo, cinco minutos depois de fazer uma afirmação categórica. Esse tipo de oscilação tem implicações tanto no âmbito das políticas públicas quanto em nossas vidas pessoais.
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Filósofos e psicólogos geralmente distinguem dois paradigmas éticos. A perspectiva utilitária avalia as ações exclusivamente com base em suas consequências, ou seja, se fazem bem, são boas!
Por outro lado, a abordagem deontológica também leva em conta aspectos da ação, tais como a fidelidade a determinadas regras. Não mate, mesmo que matar faça bem.
Entretanto, ninguém é exclusivamente fiel a esses paradigmas filosóficos e podemos nos inclinar para um ou outro lado por razões ilógicas.
Durante um estudo que será publicado na revista Journal of Experimental Social Psychology, os participantes foram levados a pensar de forma abstrata ou concreta – escrevendo sobre o futuro próximo ou distante, por exemplo. Pessoas levadas a pensar de forma abstrata aceitavam com mais facilidade uma cirurgia hipotética que mataria um homem para que uma de suas glândulas pudesse ser utilizada para salvar milhares de pessoas de uma doença mortal. Em outras palavras, uma manipulação mental muito simples, que não mudava os pontos específicos de cada caso, levava os participantes a darem respostas muito diferentes.
A classe socioeconômica também tem um papel importante. Outro estudo publicado na edição de março da revista Journal of Personality and Social Psychology mostra que pessoas com renda alta tendem a demonstrar menos empatia que pessoas com renda mais baixa e, portanto, estão mais dispostas a sacrificar indivíduos por um bem maior.
Indivíduos com renda mais alta tiraram mais dinheiro de outros participantes, com o objetivo de multiplicá-lo e distribuí-lo aos demais, e achavam mais aceitável jogar um homem gordo na frente de um bonde para salvar cinco outras pessoas que estivessem nos trilhos – ambas respostas baseadas em resultados.
Contudo, os participantes com renda superior se tornavam menos propensos a aceitar esse tipo de troca quando eram convidados a refletir a respeito dos sentimentos de quem perdia o dinheiro.
Outra pesquisa recente mostra resultados semelhantes: estressar, apressar ou lembrar os participantes da própria mortalidade levou a um decréscimo no número de respostas de caráter utilitário, uma vez que essas circunstâncias provavelmente impediam os participantes de controlarem as emoções.
Até mesmo a forma como o caso é descrito pode influenciar o julgamento, conforme advogados e políticos sabem muito bem. Em outro estudo, os participantes leram diversas variações do dilema do bonde: é certo desviar um bonde de uma linha com cinco pessoas para uma linha com apenas uma? Quando o ato de apertar o botão era descrito como uma forma de salvar as pessoas da primeira linha, os participantes costumavam apoiar a decisão. Contudo, quando o mesmo ato era descrito como o assassinato da pessoa na segunda linha, os envolvidos iam pelo caminho contrário. A situação era a mesma, mas as respostas eram diferentes.
Outros estudos publicados mostram que nosso humor pode fazer com que ações negativas sejam vistas mais ou menos como pecados. Violações éticas se tornam menos ofensivas depois que as pessoas assistem a um programa humorístico como "Saturday Night Live", mas se tornam mais ofensivas depois que leem o livro "Chicken Soup for the Soul", que suscita a elevação moral, ou depois que sentem o cheiro de um "barbantinho cheiroso", que causa nojo.
As situações descritas pelos estudos são relativamente artificiais (bondes, etc.), mas possuem análogos no mundo real: demitir um funcionário fiel pelo bem da empresa, ou fazer uma doação para uma única criança doente ao invés de dar o dinheiro para uma organização que pode ajudar a salvar muitas outras.
Não importa se você é favorável às regras ou se leva em conta todos os benefícios, saber que nossos instintos são tão sensíveis a fatores externos pode nos ajudar a não aceitarmos nossas primeiras reações. Verdades morais objetivas não existem e esses estudos mostram que, mesmo que existissem, nossa compreensão seria tênue.
Contudo, podemos encorajar a consistência na reflexão moral por meio da análise dos diversos ângulos da situação, discutindo-os com outras pessoas e acompanhando de perto nossas emoções. Ao reconhecer nossos equívocos, podemos encontrar respostas com as quais somos capazes de conviver.
(Matthew Hutson é autor do livro "The 7 Laws of Magical Thinking: How Irrational Beliefs Keep Us Happy, Healthy, and Sane" e está escrevendo um livro sobre tabus.)
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