Lua terá seu próprio horário? Países discutem novo padrão; entenda
Corrida para estabelecer bases e ampliar a presença humana no satélite criou a necessidade de ter um padrão para relógios lunares
Internacional|Do R7
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A corrida para estabelecer bases e ampliar a presença humana na Lua criou um problema que parece simples, mas envolve uma das teorias mais importantes da física: que horas são lá? Países e agências espaciais discutem a criação de um padrão internacional de horário para o satélite, já que os relógios lunares não marcam o tempo exatamente no mesmo ritmo que os da Terra.
A questão foi detalhada pelo Financial Times, que informou que os países-membros do Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM) devem votar em outubro uma proposta para criar uma referência internacional de tempo lunar. A organização, responsável por padrões como o metro e o quilograma, poderá assumir um papel semelhante ao que exerce na definição do Tempo Universal Coordenado (UTC), utilizado na Terra.
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A diferença entre os dois mundos é extremamente pequena para a percepção humana, mas relevante para sistemas de navegação e comunicação de alta precisão. Por causa dos efeitos da gravidade previstos pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein, o tempo na superfície lunar passa cerca de 57 microssegundos mais rápido por dia do que na Terra.
Ao longo de períodos prolongados, essa diferença se acumula. Uma estimativa citada pelo Financial Times, baseada em cálculos do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), indica que uma pessoa que passasse 30 anos na Lua seria aproximadamente 0,629 segundo mais velha do que seria se permanecesse na Terra durante o mesmo período.
Diferença de microssegundos pode afetar pousos
Embora 57 microssegundos pareçam insignificantes, sistemas espaciais dependem de medições extremamente precisas. Em apenas esse intervalo, um sinal de luz pode percorrer cerca de 17 quilômetros.
Se a diferença entre os relógios terrestre e lunar não for incorporada aos cálculos, erros podem surgir na determinação da posição de espaçonaves e astronautas. Em um cenário extremo, uma falha de sincronização poderia contribuir para que uma nave calculasse incorretamente seu local de pouso ou a posição de um astronauta em órbita.
A precisão também é importante para sistemas de comunicação. Redes e equipamentos que operam na Lua precisarão coordenar sinais e frequências para evitar interferências e permitir que tecnologias desenvolvidas por diferentes países funcionem em conjunto.
O problema se torna mais urgente diante dos planos de exploração lunar de diferentes potências. Estados Unidos e China pretendem enviar astronautas ao satélite nos próximos anos e têm projetos de longo prazo para estabelecer estruturas permanentes na Lua. A Nasa, por sua vez, trabalha no conceito LunaNet, voltado à criação de serviços de comunicação e navegação lunares em parceria com outras agências espaciais e empresas privadas.
Quem pode controlar o horário lunar
Uma das propostas em discussão é colocar o BIPM no centro da criação desse novo padrão. A organização, sediada na região de Paris, reúne 68 países-membros, entre eles Estados Unidos, China, Índia, Japão, Rússia e Brasil.
A ideia é que o órgão coordene os diferentes relógios instalados na Lua e estabeleça sua relação com um horário lunar de referência, de maneira semelhante ao trabalho realizado na Terra para a definição do UTC (Tempo Universal Coordenado), o padrão global de tempo de referência.
Segundo Annette Koo, diretora do BIPM, as agências espaciais consultadas reconhecem que um sistema de horário coordenado será necessário para que diferentes tecnologias possam operar de forma integrada na Lua. O objetivo, segundo ela, é criar uma estrutura que também possa ser adaptada no futuro para outros corpos celestes, como Marte.
A proposta ainda depende de questões técnicas e do apoio dos países que financiam a organização. A votação prevista para outubro poderá, portanto, representar um primeiro passo para estabelecer não apenas um relógio lunar, mas um novo padrão internacional de medição do tempo fora da Terra.
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