O que um shopping abandonado diz sobre as dificuldades econômicas da Rússia
Economia russa começa a mostrar sinais de pressão crescente, com o PIB contraindo 1,8% nos dois primeiros meses de 2026
Internacional|Zahra Ullah e Ana Archen, da CNN Internacional
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Música pop animada ecoa pelo átrio de um shopping reluzente em um subúrbio de classe média de Moscou. Mas o que deveria ser a trilha sonora do movimento intenso de compradores está tocando para unidades com fachadas de vidro em grande parte vazias e fechadas — um sinal marcante do mal-estar econômico da Rússia.
O amplo shopping Goodzone abriu suas portas em 2014 com grande alarde. Inclui um cinema multiplex com oito salas que agora está deserto, com as luzes do foyer apagadas.
Embora ainda funcione sete dias por semana, o shopping no sul de Moscou parece estar lentamente morrendo, com poucas lojas abertas e ainda menos clientes.
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Após sua invasão em grande escala da Ucrânia, o êxodo de empresas ocidentais e sanções sem precedentes do Ocidente, a economia russa desafiou expectativas, voltando-se para gastos militares massivos e aumento das exportações de petróleo para China e Índia.
No entanto, a economia começa a mostrar sinais de pressão crescente, com o PIB contraindo 1,8% nos dois primeiros meses de 2026. O presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu o problema em uma reunião de governo sobre assuntos econômicos em meados de abril.
“As estatísticas mostram que o crescimento econômico, infelizmente, vem desacelerando por dois meses consecutivos”, disse Putin, exigindo que autoridades expliquem “por que a trajetória dos indicadores macroeconômicos está atualmente abaixo das expectativas.”
O líder do Partido Comunista da Rússia, Gennady Zyuganov, posteriormente criticou o que descreveu como falta de respostas competentes às perguntas de Putin na reunião do governo, classificando a situação como “triste e preocupante.”
Falando na Duma Estatal da Rússia (parlamento) na semana passada, Zyuganov alertou que o país poderia enfrentar uma revolução ao estilo bolchevique se o governo não enfrentar o enfraquecimento da economia.
Embora tenha evitado criticar diretamente Putin, como é comum na oposição controlada permitida pelo Kremlin, ele repreendeu o governo.
“Nós já os alertamos repetidamente: com esse rumo, a economia inevitavelmente fracassará”, disse Zyuganov.
Shopping abandonado
Embora não haja sinais de agitação social em massa na Rússia, e outros shoppings, incluindo o gigantesco Aviapark, no noroeste de Moscou, pareçam ter bom movimento, vários trabalhadores do Goodzone descreveram à CNN Internacional, com preocupação, o fluxo cada vez mais reduzido de pessoas no local.
Um deles foi Ivan, caixa de uma filial de um dos maiores varejistas da Rússia, que pediu à CNN Internacional que não divulgasse seu sobrenome ou local de trabalho. Este é seu segundo emprego, e ele não pode se dar ao luxo de perdê-lo no atual cenário, disse.
“Bem, em termos da situação econômica, isso te diz algo sobre a situação do país”, disse Ivan, apontando para a tela de seu caixa.
O monitor mostra 13 transações no dia até o momento — um total irrisório de 3.417 rublos (cerca de US$ 45). É uma tarde de quinta-feira no fim de abril, e Ivan diz que, em tempos melhores, o número de transações seria próximo de 300.
“O (Goodzone) parece semiapocalíptico”, disse Ivan. “O shopping é tão grande que você pode se perder e se cansar andando por ele. Parece que foi construído e projetado para um grande fluxo de pessoas, mas eu não vejo isso.”
A CNN Internacional entrou em contato com a administração do shopping para comentar. O site do shopping afirma que partes estão sendo reformadas e que novos operadores estão sendo introduzidos — nenhuma dessas evidências foi observada pela CNN Internacional.
O site anuncia espaços comerciais para aluguel a preços surpreendentemente baixos, a partir de apenas 1 rublo (cerca de US$ 0,01) por metro quadrado. Muitas das lojas vazias anteriormente abrigavam marcas ocidentais que saíram do país.
Duas mulheres que trabalham em uma loja de presentes, que também pediram anonimato, disseram à CNN que muito poucos clientes entram atualmente.
“Basicamente estamos usando esta loja como um depósito”, disse uma delas. Ela acrescentou que, após a pandemia de Covid-19, muitas empresas migraram para o online, mas os negócios em geral se recuperaram — até a invasão em grande escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.
“Depois de 2022, o poder de compra diminuiu”, disse. “Já não acreditamos que vai melhorar. Só esperamos que não piore.”
A segunda mulher concordou. “Esse é o único desejo que temos, porque os preços estão subindo diariamente para tudo, mas os salários não estão aumentando”, disse.
As mulheres disseram que seu chefe enfrenta dificuldades para lidar com o aumento de impostos. “O dono está desesperado porque os impostos aumentaram este ano, e agora ele tem dificuldade para arrecadar o dinheiro para pagar. Está muito difícil para os empresários agora”, disse uma delas.
‘O ciclo de crescimento acabou’
Para aumentar a arrecadação, a Rússia elevou impostos sobre renda e empresas no ano passado, com o imposto sobre valor agregado (IVA) subindo para 22% a partir de 1º de janeiro de 2026.
Ruben Enikolopov, professor pesquisador da Barcelona School of Economics, explica que, no início da invasão em larga escala da Ucrânia, o Kremlin tinha baixa dívida pública e grandes reservas, e injetou dinheiro na economia por meio de gastos militares.
“Isso funciona por um tempo, mas não pode continuar para sempre. O gasto público ajudou a economia, mas agora o ciclo de crescimento acabou. As reservas diminuíram e eles precisam encontrar dinheiro de algum lugar, daí o aumento de impostos”, disse Enikolopov.
Enikolopov afirmou que, embora Moscou tenha se beneficiado dos altos preços de energia durante a guerra no Oriente Médio, ataques ucranianos à cadeia de suprimentos russa — especialmente contra refinarias — reduziram a quantidade de petróleo que a Rússia pode vender.
No mês passado, o ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, reconheceu publicamente que as recentes mudanças tributárias impactaram os negócios.
A Rússia tem contado com suas reservas, acrescentou Reshetnikov, mas “agora vemos que essas reservas foram em grande parte esgotadas, e a situação macroeconômica é muito mais complicada.” A principal tarefa do governo é ajudar as empresas a se adaptarem à situação atual, disse.
Ricos mais ricos, pobres mais pobres
Mas isso não será necessariamente simples — especialmente por causa das interrupções de internet e telefonia móvel impostas pelo Estado, que afetaram a capital e outras grandes cidades nos últimos meses.
Oksana, em São Petersburgo, diz que as restrições dificultam a comunicação com clientes na empresa de reparo de carros onde trabalha, além de prejudicar pedidos. Putin defendeu as restrições como necessárias para a segurança pública.
“Sou gerente de vendas e preciso encontrar clientes pessoalmente na rua, mas às vezes os bloqueios de internet significam que preciso trabalhar de casa para ter acesso ao Wi-Fi”, disse Oksana, que pediu anonimato. “O mundo inteiro faz pedidos online e há dias em que os clientes simplesmente não conseguem fazer pedidos ou compras.”
Apesar das restrições e do aumento de impostos, bilionários russos viram sua riqueza combinada crescer 11% no último ano, apesar das sanções, segundo a Forbes Rússia.
Alexandra Prokopenko, pesquisadora do Carnegie Russia Eurasia Center em Berlim, disse à CNN Internacional: “Não é segredo, a guerra aumentou a desigualdade dentro da população russa. Estamos vendo os ricos ficarem mais ricos e os pobres mais pobres.”
Isso é sentido com intensidade pelos moradores de Golitsyno, uma pequena cidade na região de Moscou onde a maioria vive com baixa renda. Lyubov Sergeevna — que forneceu apenas seu primeiro nome e patronímico — disse à CNN Internacional que estão enfrentando aumento de preços devido à guerra.
Ela e o marido vivem de aposentadorias, que somam cerca de 64 mil rublos por mês (aproximadamente US$ 854). Ela se sente grata por não ser viúva. “Juntos conseguimos. Se eu estivesse sozinha, o apartamento custa 8.200 rublos… É mais difícil quando você está sozinho”, disse.
“Estou pessimista quanto aos preços”, acrescentou, acreditando que provavelmente continuarão subindo até o fim da guerra.
Mas, mesmo diante das dificuldades, ela ainda expressa apoio ao que a Rússia chama de sua operação militar especial, dizendo: “Vamos resistir pela causa, não há outra opção.”
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