Protestos continuam na Bolívia enquanto a crise se agrava
Crise envolve diferentes setores sociais, incluindo sindicatos, organizações indígenas e seguidores de Evo Morales
Internacional|Gonzalo Zegarra, da CNN Internacional
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A Bolívia está há 20 dias em protestos contra o governo do presidente Rodrigo Paz, de quem muitos grupos camponeses e operários exigem a renúncia.
Enquanto isso, o mandatário aposta no diálogo, mas analistas não descartam que ele tenha sobre a mesa a possibilidade de militarizar o conflito com uma eventual declaração de estado de exceção, em uma crise que já causa preocupação nos Estados Unidos e em outros aliados regionais.
Historicamente, o país altiplânico tem mostrado uma enorme capacidade de pressão nas ruas por meio de bloqueios de estradas e mobilização territorial.
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Desta vez, isso ocorre quando o mandatário, que venceu no segundo turno um candidato mais ligado ao neoliberalismo, está há apenas seis meses no cargo, com várias frentes econômicas que exigiam respostas urgentes.
“O manejo político tem sido deficiente”, considerou o cientista político José Orlanda Peralta, pesquisador da Universidade Autónoma Gabriel René Moreno (Santa Cruz).
“Paz tem legitimidade para tomar decisões, mas houve muitas promessas que ele não foi cumprindo de maneira sistemática. O governo não teve capacidade para trabalhar de acordo com os prazos, tem sido timorato e pusilânime na hora de decidir. Tudo contribui para uma tempestade perfeita”, disse à CNN Internacional.
A crise social vem sendo comparada à eclosão de 2003, que acabou com a renúncia do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, pouco antes de começar o ciclo hegemônico do MAS (Movimento ao Socialismo) liderado pelo ex-mandatário Evo Morales (2006-2019).
Para Peralta, esse cenário também tinha um acúmulo de demandas sociais, mas com uma agenda política mais definida e com lideranças fortes e claras.
“Agora o problema do governo é que dialoga com uns e logo aparecem outros dirigentes”, comentou.
As protestas são incentivadas por camponeses aimarás, pela COB (Central Obrera Boliviana) e por seguidores do ex-presidente Morales.
À reivindicação, que começou com demandas salariais diante de uma inflação interanual que ainda ronda os 15%, somaram-se transportadores, sindicatos e organizações indígenas, que rejeitam as medidas de austeridade.
“É habitual que haja uma série de mobilizações e bloqueios, praticamente desde o início da democracia (1982), como uma forma de sabotagem sob pressão política, mas as circunstâncias atuais são especiais”, disse à CNN Internacional o sociólogo e especialista em políticas públicas Franco Gamboa.
“O fato de o presidente ter ganho no segundo turno, de não ter conseguido armar uma coalizão de governo para o controle do Legislativo e de não estar tomando decisões adequadas no aspecto econômico mantém um vácuo de poder”, considerou.
A Bolívia arrasta há anos uma deterioração estrutural de sua economia, com queda de reservas internacionais, menor produção de gás natural e escassez de divisas, o que desencadeou a falta de combustíveis muito antes dos bloqueios de rodovias.
O panorama político também não é estável: diante da queda do MAS em uma guerra interna e de um grande fracasso eleitoral sem a participação de Morales, vários sindicatos e movimentos populares ficaram órfãos de representação.
Para Gamboa, as demandas econômicas e as reivindicações políticas “vão de mãos dadas”. Nesse sentido, destacou que Paz desatendeu “outro componente, uma regra informal: a cooptação de dirigentes”. Segundo analisou, o mandatário cortou esses espaços por falta de financiamento e não soube como continuar atendendo a setores agora excluídos.
Gamboa, que faz um balanço negativo do primeiro semestre de Paz, disse que o mandatário “se equivocou redondamente ao antecipar algumas medidas”, como a lei 1720 de reconversão de terras, que foi eliminada nos últimos dias como resposta aos protestos, ou a revogação de um decreto econômico em janeiro que era rejeitado parcialmente pela Central Obrera Boliviana.
Segundo o analista, o governo desperdiçou a legitimidade da vitória eleitoral com erros próprios, como o escândalo do combustível adulterado.
“Era o primeiro governo depois de 30 anos que conseguia um tarifaço nos combustíveis e as pessoas estavam de acordo, estavam pagando o custo de mercado. As decisões erráticas destruíram a capacidade de tomar previsões, com uma excessiva confiança em um círculo incompetente de assessores”, assegurou Gamboa.
Até agora, o roteiro de Paz Pereira tem sido o de tentar resistir e eventualmente ceder diante das pressões sociais.
Já renunciou um ministro do Trabalho e, no fim de semana, o presidente disse que vai “esgotar todos os esforços” para o diálogo, embora tenha ressaltado que “tudo tem um limite”, em entrevista ao canal TN, afiliado à CNN Internacional.
A operação do governo para desbloquear uma rodovia no sábado (23) foi um fracasso: resultou em confrontos, distúrbios e o bloqueio da rota continua de pé.
Questionado sobre um eventual estado de sítio, disse que mais adiante tomará “as decisões que tiverem de ser tomadas”.
O analista Gamboa assinalou que Paz “quer mostrar-se plenamente democrático, não se identificar com o autoritarismo”, mas colocou em dúvida a eficácia de sua estratégia.
“O que ele não está conseguindo é construir uma imagem de país, uma capacidade de reestruturação estatal a longo prazo. Está tomando decisões imediatistas que não são efetivas. Na perspectiva de preservar o diálogo, está caindo na chantagem”, considerou.
O governo ainda conta com setores que o apoiam ou que rejeitam os bloqueios. Na última semana houve contramarchas lideradas por comitês cívicos regionais e de algumas participaram autoridades locais, universitários, comerciantes, plataformas cidadãs, produtores agrícolas e transportadores.
Mas Peralta sublinhou que a margem é muito limitada. “Tem os meios de comunicação a seu favor, com setores produtivos e empresariais que apoiam a investidura e o princípio constitucional de continuidade do governo.
Mas, caso se solucione com o diálogo, vai continuar tendo o problema no parlamento (onde sua bancada é minoria). Tem tudo contra si”, destacou.
Paz, segundo Gamboa, tem duas alternativas: “continuar aguentando o cerco ou os bloqueios, que mais cedo ou mais tarde vão derrubá-lo; ou impor a autoridade legítima pela força, mas para isso tem que apresentar uma visão de país de reconstrução, que garanta estabilidade econômica”. Sobre a segunda opção, o sociólogo reconheceu que acarreta um risco grande.
“É suicida convocar as Forças Armadas, mas politicamente é a via correta para retomar o controle”, agregou.
Por sua vez, Peralta destacou que, se ocorrerem novas mortes no âmbito dos conflitos sociais, a situação se agravaria consideravelmente, e não considerou tão claro que o presidente conte com todo o apoio das Forças Armadas e policiais para um cenário de maior pressão.
De todo modo, a opção aparece agora com mais possibilidades.
O Senado aprovou surpreendentemente no domingo (24) uma lei que revoga a normativa de 2020 que fixava regulações (prazos, justificativas, prestação de contas e responsabilidades penais) sobre o estado de exceção. Se o projeto avançar na Câmara dos Deputados, o presidente poderá decretá-lo sem autorização do legislativo.
Atualmente, se Paz quiser jogar essa carta e não receber o apoio do Congresso, ele será ainda mais debilitado.
Evo Morales, resguardado na província do Chapare com uma ordem de prisão por acusações de suposto tráfico de pessoas que o líder cocaleiro rejeita, também disse no domingo na rede social X que restam duas saídas para Paz, embora com outro tom. “Uma decisão suicida como militarizar ou finalmente cumprir a pacificação e transição, (…) para evitar conflitos com mortos e feridos”.
“Evo está entrincheirado, mas tem muita capacidade organizativa. Não é como há cinco anos, mas a partir do Chapare continua incidindo nas pessoas que se mobilizam, traça linhas discursivas que as pessoas obedecem”, disse Peralta.
Para Gamboa, a derrota eleitoral “não significou uma derrota política”, e assegurou que hoje não é viável prender o líder opositor. “Há muita convulsão, pode ser contraproducente”, opinou.
Também está na mira da Justiça o líder máximo da COB, o mineiro Mario Argollo, que continua se pronunciando a partir da clandestinidade após ter sido acusado pelo governo pelos supostos crimes de instigação pública a delinquir e terrorismo, por convocar os protestos.
O sindicalista chamou a manter as mobilizações pelas “reivindicações” dos setores. Por isso também é que dirigentes opositores questionam os chamados ao diálogo enquanto alguns líderes são perseguidos.
A crise também começa a preocupar em nível regional. Paz recebeu o respaldo do governo dos Estados Unidos, que assegurou que está enviando alimentos e apoio logístico para as populações que sofrem com o desabastecimento.
Como membro do Escudo das Américas, bloco impulsionado por Donald Trump em uma cúpula em Miami, a fragilidade da Bolívia é acompanhada com atenção por seus aliados, que emitiram um comunicado com “profunda preocupação”.
“É o elo mais fraco (do grupo), não apenas pela ingovernabilidade, mas também pela situação econômica”, disse Gamboa, e relembrou a importância da Bolívia para os minerais estratégicos como o lítio.
“É o que preocupa (os outros países), porque se precisa de estabilidade para a extração. Se eventualmente cair, rompe-se a continuidade democrática, não poderiam aproveitar as grandes reservas e isso prejudica a estratégia geopolítica”, apontou.
O analista agregou que o apoio é mais discursivo do que material, e que a sobrevivência de Paz não passa pelo respaldo internacional, mas sim pela capacidade de tomar as rédeas dentro do país.
“Estão contra o tempo e os recursos políticos. O contexto internacional, por mais que os aliados apoiem, não significa nada para retomar o controle da governabilidade”, acrescentou.
No início da quarta semana de protestos, Paz deverá mostrar definições sobre se mantém a estratégia de diálogo ou aposta em outro roteiro, enquanto as tensões não dão sinais de desescalada.
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