Psicólogos ajudam pessoas em estado de choque na Ucrânia
Especialistas em saúde pública preveem que milhões devem desenvolver algum tipo de distúrbio mental causado pela invasão
Internacional|Megan Specia, do The New York Times

Com as mãos trêmulas cobrindo a boca, a mulher olhava o buraco aberto na lateral de um prédio, o conteúdo dos apartamentos espalhado pelo chão e enroscado nas paredes. Ao seu lado estava Ivanka Davydenko, de 29 anos, de uniforme azul com a palavra "psicóloga" escrita em amarelo na frente e atrás, o braço apoiado gentilmente nas costas da outra.
Entregou-lhe um copo com água e perguntou como poderia ajudar. O filho da senhora morava no 18º andar, e não estava atendendo o telefone. Praticamente todo o piso ali desaparecera. "Ajudamos as pessoas porque estão em estado de choque, e nem sempre percebem suas necessidades no momento. Oferecemos coisas simples, água, café, um cobertor", contou.
Davydenko faz parte de uma pequena equipe do Serviço Público Emergencial da Ucrânia, que oferece a primeira assistência psicológica em momentos de crise em Kiev. Ela chegou poucos minutos depois do ataque, executado no início da manhã de 24 de junho; na verdade, as defesas aéreas nacionais destruíram os mísseis inimigos, mas, com isso, os destroços caíram sobre os edifícios.

As investidas da Rússia forçam as unidades de emergência a enfrentar não só o fogo, a fumaça e o sangue, mas também os efeitos psicológicos imprevisíveis sobre as pessoas que vivem a guerra. Os especialistas em saúde pública já preveem que milhões provavelmente desenvolverão algum tipo de distúrbio mental causado pela invasão, número que só deve aumentar com o prolongamento dos bombardeios, da violência e da dor.
Por isso, os grupos não incluem só bombeiros, paramédicos e policiais, mas também psicólogos como Davydenko, para ajudar as pessoas a lidar com os efeitos imediatos do choque ou quaisquer outras necessidades mais urgentes.
Há iniciativas semelhantes em outras cidades, mas, como os inimigos parecem mais insistentes em tocar o terror na capital, o time de Kiev talvez seja o mais atarefado. "Antes atendíamos às emergências mais sérias, de grande escala, tipo explosões por gás onde havia muita gente que precisava ser retirada às pressas; depois que a guerra começou, ficamos de prontidão o tempo inteiro, nem saímos da cidade", explicou Liubov Kirnos, responsável pela unidade de Kiev.

Como outros emergencistas, os psicólogos ficam de plantão, e quando há um ataque, o centro de coordenação envia um destacamento às pressas ao local, onde normalmente se depara com gente chorando, em choque, sem conseguir se mover, ou em pleno colapso. "A primeira coisa sempre é perguntar do que a pessoa está precisando e como está se sentindo. Muitos só pedem que a gente fique ali perto porque podem estar esperando a retirada de algum familiar do meio dos escombros", prosseguiu Kirnos.
Foi o caso da mãe a quem Davydenko ofereceu apoio em 24 de junho, acompanhando-a enquanto consultava a lista de vítimas levadas para os hospitais e de desaparecidos. Entretanto, enquanto as duas se afastavam, um bombeiro comentou que não tinha sobrado nada do 18º andar, onde o filho dela morava.
Segundo a psicóloga, os moradores estavam dormindo quando o impacto abriu a lateral do prédio, antes de o sol nascer. "Pelo menos dois corpos foram arremessados para fora, com pedaços de metal retorcido, de isolamento e fragmentos de móveis; ficou tudo espalhado no estacionamento. Dezenas de pessoas ficaram ali paradas, em choque, incluindo algumas que viram os cadáveres e outras que tinham se ferido, mas não perceberam que estavam sangrando", contou Davydenko.
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Ao lado de um colega, ela permaneceu no local durante cerca de 12 horas, prestando assistência a 45 pessoas — como Iryna Kuts, de 62 anos, que a procurou ao lado da filha, ainda tremendo por causa do choque, para pedir um pouco de água e um momento para falar. "Moramos no 19º andar. Acordei de supetão, com o quarto cheio de fumaça. Ficamos abraçadas, achando que morreríamos sufocadas." No fim, conseguiram sair e descer pelas escadas, com a ajuda dos policiais, e examinavam os escombros em choque.
Ou a jovem de regata branca que zanzava pelo estacionamento, chorando, que lhe foi encaminhada. O pai dela morava ali, tinha sobrevivido ao choque, mas se recusava a sair. "Fique calma, vai dar tudo certo. Mas você não pode entrar; ninguém pode", Davydenko lhe disse, segurando-lhe o braço, explicando que os bombeiros o tirariam de lá. E esperou até que finalmente o homem aparecesse, e a moça se jogou sobre ele, soluçando.
Nem todo mundo teve a mesma sorte. Horas depois, Davydenko acompanhou a mãe e o marido, que tinham saído à procura do filho, quando tiveram de examinar os restos mortais seriamente mutilados de um corpo. O casal ainda estava esperando a confirmação do oficial pelo DNA, mas a psicóloga disse que a identidade era quase certa. No dia seguinte, as autoridades municipais confirmaram a morte de cinco pessoas no choque.
Especialistas em saúde pública como o dr. Jarno Habicht, diretor da representação da Organização Mundial de Saúde (OMS) na Ucrânia, alertam para os efeitos amplos e duradouros da guerra na saúde mental. Em entrevista, ele afirmou que cerca de dez milhões poderão desenvolver algum tipo de transtorno por causa da invasão russa.
Baseada na análise do efeito psicológico de outros conflitos, a instituição calcula que a estimativa deve crescer com o prolongamento da guerra. "As maiores preocupações são os transtornos causados por estresse, como ansiedade e depressão. O mais importante aqui é não esperar para agir só quando o conflito acabar", enfatizou.
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Uma série de programas foi criada para ajudar a população, incluindo o que é liderado pela primeira-dama, Olena Zelenska, cujo objetivo é disponibilizar serviços de saúde mental acessíveis e de alta qualidade em todo o país.
O Ministério da Saúde ucraniano, a OMS e mais de uma dúzia de parceiros deram início a um projeto de treinamento para médicos socorristas para o tratamento de pacientes com depressão, ansiedade, transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), comportamento suicida e abuso de substâncias.
Já o esquema de que a equipe de psicólogos faz parte tenta oferecer uma intervenção inicial em momentos de crise. "Se você não lida com o estresse imediatamente, ele pode se transformar em um problema em longo prazo que, por sua vez, pode virar TEPT. Nosso objetivo é fazer a pessoa entender que o perigo já passou, que está segura. Se isso não for feito na hora, ela pode ficar presa no estado de terror."
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